Stingray Sam, novo western espacial de Cory McAbee – um cara bacana, daqueles que aparecem com roupa mariachi e bigode estilo Paulo Cintura para conhecer seus pais. Já falei brevemente dele aqui. Achou pouco? Então pega no dele e cubalança.
Stingray Sam, novo western espacial de Cory McAbee – um cara bacana, daqueles que aparecem com roupa mariachi e bigode estilo Paulo Cintura para conhecer seus pais. Já falei brevemente dele aqui. Achou pouco? Então pega no dele e cubalança.
Matéria com Emicida que fiz para o site da Rolling Stone Brasil. Fotos de Janaína Branco. É isso. Só isso.
“Acho legal falar para cada vez mais pessoas”
Sentado no banco de uma praça “onde a galera vem fumar maconha às 17h”, nas proximidades da estação Tucuruvi do metrô de São Paulo, está Leandro Roque de Oliveira. Antes de começar a conversa, o rapaz – franzino, com barba semicerrada, entre o efeito talibã e o comercial de gilete – estica o dedo em direção a um lugar difícil de discernir no horizonte e fala: “Há três anos eu moro ali”.
“Ali” é um “apartamento bacana” a algumas centenas de metros, com novo móvel (“tô marrento, mandei fazer, agora faço sob encomenda“, diz sem a menor marra) para abrigar os cerca de 800 vinis da coleção. Oliveira vira o Homem Elástico ao alongar ainda mais o braço para informar que “antes morava láááá no Cachoeira, último bairro da Zona Norte”.
Os 24 anos de Oliveira foram passados quase que integralmente na Zona Norte paulistana, láááá onde corredor polonês e corredor cultural podem virar sinônimos – isto é, se você esquecer de deixar o preconceito na chapelaria. Sem esse dado biográfico o filho de Dona Jacira, terceiro de cinco irmãos (duas meninas e dois meninos; uma irmã morreu), dificilmente seria o que é hoje. Um exterminador profissional. Alguém capaz de olhar bem nos olhos dos oponentes até os eliminar, um a um, com armas dignas de um arsenal espartano do rap: música e imaginação.
Oliveira é Emicida, ou E.M.I.C.I.D.A., sigla que inventou sobre o apelido dado pelos amigos, transformado em Enquanto Minha Imaginação Compuser Insanidades Domino a Arte. É claro que ninguém entra em uma batalha de MCs para perder. Mas esse tipo de confronto – basicamente, dois caras improvisam um rap, e o público decide quem “metralhou” quem – tem princípio bem diferente ao daqueles duelos que hoje cheiram a naftalina, quando dois marmanjos do século 19 resolviam suas diferenças na espada ou pistola. Emicida explica: “É uma atmosfera extremamente pesada, tensa pra caralho. Mas é uma parada para todo mundo se divertir. Faço pela brincadeira. Faço de coração”.
Acontece que, ultimamente, ele precisa sair com cada vez mais frequência da região que lhe deu a manha para ganhar batalhas “na proporção de 10 [vitórias] para uma [derrota]“. Emicida está virando grife. Nas boates da Zona Sul, manos e minas dividem fila com um tipo inexistente em 99% dos shows na periferia: o indie e sua indefectível “indumentária do rap”, uma espécie de Sarah-Jessica-Parker-fase-M.I.A. para elas, Brandon-Flowers-encontra-Mano-Brown no caso deles. De quebradas “roots” a casas alternativas, o rapper faz shows (calcula de 12 a 16 por mês) lotados por todo o estado de São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e outros cantos do país.
Emicida não põe muita fé neste papo de “trair o movimento”. Pergunto o que ele responderia se Boninho lhe telefonasse pedindo uma música para a trilha do próximo Big Brother. “Na real, acho legal falar para cada vez mais pessoas”, ele fala, e dá uma pausa dramática antes de completar o raciocínio. “Desde que elas entendam a música.”
Continua: “É do caralho ter várias ideias para combater o racismo, o preconceito. O legal é isso, colocar pessoas diferentonas cantando no mesmo lugar”. Mas isso faz dele o quê? Rap? Indie? Emicida sorri e, como se tivesse um anzol fisgado no canto da boca, abre sorriso largo e um pouco irônico, que lhe deixa com feições de um garoto que comprou sua primeira revista masculina e agora mostra o troféu para os coleguinhas de classe. “Sou é hype!”
O problema da crescente popularidade não é tanto o medo de virar réu no julgamento que atinge nove em dez artistas que ecoam além da periferia (trair o movimento, se vender ao sistema e outros biscoitos da sorte chineses sabor anti-elite). O que pega para Emicida é ter começado a “sair mais de táxi pra dar conta de tudo”. Porque se tem uma coisa que Leandro Roque de Oliveira odeia é taxista. Quando é inevitável, só chama os que já conhece, “os gente boa”. Detesta os olhares enviesados, “dos caras que são piores que polícia e sempre querem saber para onde você está indo, já te olham errado”. Não é “noia”: já processou, por exemplo, um taxista que o chamou de macaco.
Ele olha para a repórter e ri. “Se eu fosse lourinha de olhos azuis que nem você, só por um segundo, qualquer dia metia o cano num taxista desses”, diz. O tom não é inflamado. Emicida prefere metralhar sem dedo no gatilho, numa viagem sonora com bases feitas por DJ Nyack, Slim Rimografia e Projeto Nave, entre outros “parceiros de sempre”.
E, nesse sentido, Emicida é uma máquina de guerra. Costumava compor de duas a três músicas por dia. A produção baixou por causa da agenda cheia, mas ele compensa “parando na madrugada para fechar as ideias”. Tanto material não escoa ralo abaixo. Ele já soltou uma mixtape nas ruas, Para Quem Já Mordeu Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe. Pretende lançar uma nova até fevereiro e, quem sabe, outra no meio do ano. O preço deve continuar o mesmo: R$ 2.
“Tô fodendo com a economia”, vangloria-se Emicida, entregando em seguida as coordenadas da guerrilha cultural involuntária. “Lá em casa tá cheio de nota de R$ 2, moeda de R$ 1, de R$ 0,50. A economia tá lá parando comigo.”
Para batizar essa primeira mixtape – de onde vêm músicas como “Só Isso” e “Triunfo”, algumas das que transitam bem fora do circuito rap – Emicida recuperou uma história dos tempos em que era o Leandro de seis anos. O pai tinha acabado de morrer, a mãe foi trabalhar como empregada doméstica. “Um perreio de grana fudido”, conta. “Minha irmã dividiu dois pães entre os quatro irmãos. E pobre, independentemente da miséria, sempre tem cachorro. É lei. Eu tinha uma cadela, a Afrodite, que abocanhou o meu. Fiquei maluco! Fui lá e mordi o bicho de volta.”
Para quem já mordeu cachorro por comida, Emicida chegou longe. E não passou despercebido no meio do caminho. Em 2009, recebeu “umas quatro ligações importantes”, ele calcula. A tecla SAP é: grandes gravadoras. Por ora, não quis saber delas. “Mas cuidado como você coloca aí, ou vão chegar e, ‘olha lá, ligaram pro Emicida e agora o cara tá esnobando”, ele pede relativização.
É o gancho para entrarmos de novo no velho embate raízes vs. mainstream. “O problema é que o cara quer fazer um rap que não seria viável nem para mim, nem para ele, sabe? Meu lance é música, o dele é dinheiro”, explica por que ainda não lançou um álbum, ao menos no sentido tradicional da coisa. “Enquanto não chegar alguém monstrão, que compreenda a proposta… Não vai rolar.”
Quatro mandamentos e um freestyle
No antebraço esquerdo, Emicida tem uma tatuagem – um círculo com raio de mais ou menos 2 cm – com quatro mandamentos do código do samurai, que traduz a pedido da repórter:
1) “Nunca ser superado no meio do caminho”
2) “Ser um bom filho para seus pais”
3) “Ser de utilidade para a causa”
4) “Ter compaixão e usá-la para o bem da humanidade”
Emicida é um cara que valoriza raízes. “É importante dar moral para a miséria. Quando não se tem nada, é ela que está lá ao seu lado”, filosofa.
Nessa mesma toada, sabe que o rap não nasceu por geração espontânea. “Gosto do jazz por causa do improviso. Aquela jam de batera, piano, baixo – eu piro”, diz. “Isso me influenciou pra caralho na rima. Freestyle é o mais próximo que a cultura popular tem do jazz, que infelizmente virou uma parada de elite.”
“É importante dar moral para a miséria”
Grande poder traz grandes responsabilidades. Por um lado, Emicida sabe que está na reta da rapaziada. “Sinto mais perseguição, sim”, diz, e pela primeira vez na tarde sua expressão é mais ambígua – não dá para sacar de cara se incomoda ou não ao caçador tanta gente passando a vê-lo como caça. “Tem música falando mal de mim. Mas o engraçado é que só as batalhas que perco é que não vão parar nos blogs.”
Emicida sorri e deixa o corpo relaxar, deixando os braços desabar como dois fios de macarrão al dente, num ato inconsciente que transmite a mensagem de “é a vida, fazer o quê”. “Sabe, o lance não é batalhar com os grandes nomes, é fazer com que queiram batalhar com você.”
E então repórter e rapper saem andando pela vizinhança do Tucurivi, o primeiro mandamento dos samurais solto no ar: “Nunca ser superado no meio do caminho”.
Leio no Flavorwire um post sobre como estereotipar pessoas de acordo com a banda indie preferida delas. Fãs de She & Him, por exemplo, são todos aqueles que odeiam Ben Gibbard. Já aficcionados por Sufjan Stevens podem ser reconhecidos como pessoas que acreditam em duas coisas: Jesus e Juno.
Fiquei pensando na versão brasileira Herbert Richers. Aí vai:
Orq. Imperial: onde come um, comem 1293939
Orquestra Imperial: pessoas que parabenizam a todos os envolvidos.
Mallu Magalhães: fãs que achavam Juno legal até os fãs de Marcelo Camelo decidirem que não é.
Los Hermanos: alunos da PUC que gastam 500 reais para parecer alunos do IFCS que gastam 50 reais para parecer alunos da PUC.
Vanguart: meninos e meninas que na verdade não pegam ninguém.
Romulo Fróes: pessoas que são legais, não estão te dando mole.
Wander Wildner: pessoas que não são legais, estão te dando mole.
Black Drawing Chalks: pessoas que desenhavam assassinatos em massa nas aulinhas de arte do jardim de infância.
Móveis Coloniais de Acaju: rapazes que em algum ponto da vida tentam crescer bigode.
Ana Carolina: moças que em algum ponto da vida tentam crescer bigode.
Tiê: todos que assinam “eu”.
Cabaret: homens que ainda não sabem quem é Mário.
Cidadão Instigado: pessoas que acham a ópera-rock de Odair José melhor do que Tommy.
CSS: meninas que terminam a noite cantando “weeeeee are the champions” em cima da cabine do DJ.
NX Zero: turminha do barulho que gosta de curtir um som com muita encrenca e confusão.
Columbia: indies do século 19.
Copacabana Club: garotas que aprenderam a se vestir com os editoriais da Capricho.
Pra não dizer que não falei de posts: resenha do Whitest Boy Alive para a @rollingstoneBR. Foto é da fofa da Thais Gouveia.
O show ainda acontece no Studio SP, em um domingo à noite, quando o líder doWhitest Boy Alive, Erlend Øye, sai correndo em direção à rua. A figura que de tão branca e comprida lembra um palmito fantasiado de fã do Weezer precisa “de ar puro”, como repete para cada pessoa que insiste em pará-lo no meio do caminho. Por dois minutos, Øye troca a superlotada casa noturna pela vida selvagem da rua Augusta. Recosta-se sob uma fachada, deixando as meias (uma verde, uma vermelha) à mostra, as canelas tão grossas quanto espaguete.
Não são as trabalhadoras da Augusta que passam por ali e lhe lançam olhar de “pague para ver” que assustam o norueguês. Øye parece abalado. Precisa dar um tempo, quer “um pouco de ar fresco, só isso”, mas todos que lhe reconhecem não dão sossego. “Ótimo show, cara!” “Posso apertar sua mão?” “Meu deus, vocês estão enlouquecendo as pessoas lá!”
E estavam mesmo. Pouco antes, Øye, metade do duo acústico Kings of Convenience, fazia do Studio SP algo que, se camisa xadrez (como a do vocalista) fosse sinônimo de abadá, seria a mais perfeita tradução de micareta indie. As pessoas pulam em sincronia, se acotovelam para caber num espaço que parece dois números menor (mas, ao contrário das folias nababescas lideradas por Ivete Sangalo e Claudia Leitte, o clima de pegação é rarefeito).
Corta para o começo do show: por volta das 22h, duas horas depois do horário marcado, sobem ao palco o norueguês Øye (vocal e guitarra), o polonês Marcin Oz (baixo) e os alemães Sebastian Maschat (bateria) e Daniel Nentwig (teclado). “Keep a Secret”, o abre-alas do novo álbum do Whitest Boy Alive, <i>Rules</i>, também serve para abrir a noite. Desde já, fica clara a sintonia entre o público e aquele rapaz com aparência de ex-estrela infantil de comerciais da Benetton e jeito de dançar tão engonçado como uma gazela solta nos prados.
O som do Whitest Boy Alive faz jus ao nome da banda: soa como uma ginga toda própria do último menino branquelo no mundo. Se na gravação parece um retrato em sépia da música dance, o repertório cresce muito ao vivo. Não chega a ser funk ou eletro, apesar de obviamente emprestar características dos dois. Está mais para um dance minimalista, tão gentil (sem contudo falhar em deixar sua marca) como o frontman.
Øye, um fã da música brasileira das antigas (para ele, a produção atual não presta muito), é o destaque, mas não absoluto. Para tocar músicas como “Golden Cage” e “Fireworks”, do recente álbum e de <i>Dreams</i>, a estreia, o norueguês revezou holofotes com os outros 75% do quarteto. O tecladista Daniel – que, com suas regatas brancas e bigode à Freddie Mercury, lembra um F5 do mágico Doug Henning, esta figura bizarra, bastante popular nos Estados Unidos dos anos 70 – é o mais empolgado. Em “Burning”, trepa na caixa de som e surfa sem mar. Quando erra em “Intentions”, Øye interrompe e recomeça. Acha que o público merece o melhor que o Whitest Boy Alive tem para dar (nada mais justo: os ingressos, afinal, não saíram por menos de R$ 100, a meia-entrada, e houve quem oferecesse o triplo disso para entrar no show lotado).
Antes de terminar o show (com set que vai de “Courage” a “1517”), Øye sai à procura do “ar puro” na Augusta, deixando a plateia aos cuidados de jam session dos colegas de banda. Lá fora, ele reforça a imagem de alguém que preserva simpatia e rabugice em igual medida. Não quer saber de ninguém, mas ao mesmo tempo é doce demais para dar o fora nos que se aproximam para cumprimentá-lo. Passa a imagem de gênio atormentado: não consegue deixar de fazer o que acaba drenando dele muita energia.
De certo, Øye não é alguém que vá quebrar a guitarra no palco, trazer o apocalipse ao quarto de hotel ou confundir groupies com serviço de quarto. Também está longe do messianismo de Brandon Flowers, o rockstar mórmon do Killers. A sensação que Øye transmite, tanto no palco como fora dele, é a de alguém que vive em dimensão à parte – e, embora seguro de sua música, nunca vai entender direito o que fez para merecer aquela horda indie balançado o corpo como se fossem todos eles os últimos branquelos vivos.
Tem ainda o vídeo que o Boghob fez de “Gravity”:
Director’s cut para a resenha da @rollingstoneBR do show da Lily Allen em São, São Paulo. Fotos do Stephan Solon (Via Funchal). Compre batom.Volte sempre. Seu filho merece batom.
Abra suas asas, mas contenha suas feras
Você pode até culpar a indústria, essa velha máquina de fazer estereótipos, que adora colar palavras de ordem (Who’s bad? Ela é má! Ela bebe! Ela diz “fuck”! Compre! Agora!) para transformar música em mercadoria.
Perdeu a viagem quem foi à Via Funchal na noite de quarta, 16, com a expectativa de ver uma Lily Allen que esculacha os homens, paga peitinho, se perde na manguaça e está perto de se graduar no Educandário Amy Winehouse.
Quando o pano branco caiu, às 22h15, e revelou a cenografia simples (apenas letras gigantescas, estofadas com pano branco, formando LILY), a britânica que canta “fuck you very much” – algo como “muito foda-se para você” – com o sorriso de uma criança em loja de doces revelou-se incrivelmente amável. E simples. De canudinho, bebeu algo, que durou o show inteiro, num copo com marca de cerveja. O cigarro que fumou era eletrônico. A certa hora, os fãs até fizeram aqueles corações com as mãos, cumprimento tão obrigatório num show do Jonas Brothers como a saudação vulcana em convenções de Star Trek. Horas mais tarde, ela, meiga como um comercial de amaciante, postaria no Twitter que São Paulo tinha sido “o melhor show de todos tempos”. Uma espécie de Lily Skywalker para Darth Winehouse.
O vestuário era simples: tênis brancos e grandões, short jeans e blusa cinza sobre regata preta. Na boca, batom roxo; por volta do olho esquerdo, uma maquiagem purpurinada nas cores verde e amarelo, em make “David Bowie toma chá das cinco com Mallu Magalhães“.
O gatilho fica por conta de “Everyone’s At It”, que investe contra as relações hipócritas entre sociedade, indústria farmacêutica e drogas (“então sua filha está deprimida, tudo bem colocá-la direto no Prozac/ Mas mal sabe você que ela já manda crack”). Aqui, Lily se põe a brincar com sintetizadores como se fossem controle-remoto, distorcendo o som como se o synth pop oitentista se materializasse em pessoa para nos dizer: “Ei, olhe pra mim!”.
Engatou com a balada “I Could Say” – não é seu momento mais feliz da noite. Açúcar em excesso para a cantora que despontou a reboque de repertório debochado. Algumas desafinadas fortalecem a impressão de que ela é a típica garota que, se não tivesse o mínimo de atitude no palco, soaria como a filha cujos pais insistiram saber cantar após uma “Noite Feliz” bem-sucedida antes da ceia de Natal.
Lily reaparece bem mais confortável em “Never Gonna Happen”. Espinafra os ex-alguma coisa em número com pegada cigana – soa como alguém influenciada por vídeos da No Smoking Band, de Emir Kusturica, e que tomou um senhor porre com a galera do Gogol Bordello.
José Serra pode sossegar o facho: para não burlar a lei antifumo, a cantora que já foi flagrada deixando um aeroporto com caixas e mais caixas de cigarro mostrou o cigarro eletrônico – dava até para fumar em avião, se vangloriou (mal sabia a boa moça que, por aqui, o gadget é gongado pela Anvisa).
Em seguida, engata cover de “Oh My God”, do Kaiser Chiefs, como introdução de “Everything’s Just Wonderful”, com pegada que dava até para avizinhar ao samba-rock. Segue mesclando repertório de seus dois únicos álbuns, Alright, Still (2006) e It’s Not Me, It’s You (2009), com foco no segundão. A ordem das faixas: “22”, “Who’d Have Known”, “LDN” e “Back To the Start”.
“He Wasn’t There” é o lava-rápido edipiano para expurgar a alma para a artista, que canta sobre a relação entre pai “que não estava lá” e filha “que sempre será sua garotinha”.
Por mais que Lily seja, sim, um ato pop, a sequência dá crédito para a cantora. Não nos esquecemos do marketing que construiu a princesinha desbocada (Who’s bad? Ela é má! Ela bebe! Ela diz “fuck”! Compre! Agora!), mas há certa naturalidade no palco que só mesmo a geração formada na – e pela – internet é capaz de ter, em contrapartida a Britneys e Avrils da vida. Dessa vez, a jovem de 24 anos não precisou encarnar um hamster correndo em círculos, sempre às voltas com os mesmos truques para prender a audiência – algo como “se o público espera que eu seja louca, é bom que eu faça Courtney Love parecer a irmã perdida dos Jonas Brothers quando subir naquele palco”.

As próximas músicas são “Littlest Thing” e “Chinese”. O público, que compensou os clarões na Via Funchal com o tipo de empolgação dispensada a boy bands, já estava aquecido para o primeiro grande sucesso de Lily. Depois de nos chamar de “fucking’ brilhante” (fica a eterna pergunta: como traduzir o tão sonoro fuck?), ela pede um favor a todos: sorriam. “Smile” lembra a todos das raízes inclinadas ao reggae, deixadas um pouco de lado pela britânica no segundo trabalho.
Já enrolada em pano com as previsíveis bandeirinhas do Brasil, ela encerra a primeira parte do show com “The Fear”.
Assim como a leva de cantoras brasileiras – todas se creem as bolachas mais recheadas de um mesmo e uniforme pacote –, Lily entrou no inchado saco de aspirantes à nova Madonna. Sua marca era ser, no cenário musical, uma espécie de “A Noiva”, aquela personagem de Uma Thurman em Kill Bill que quer a cabeça do ex. Ao retornar para o bis, com camiseta branca e pés descalços, depois de mandar uma versão de “Womanizer”, de Britney Spears, ela dedica um de seus grandes hits para aquele que é um dos mais espinafrado dos homens na década. Especialmente para o “fucking bundão” que “costumava ser o presidente dos Estados Unidos”, Lily canta “Fuck You”.
Por volta das 23h30, o concerto termina com o “country” (palavras dela) de “Not Fair”, com Lily usando simulacro de chapeu de cauboi. Ela pula de um lado para o outro com suas esporas imaginárias – que não estão ali para arranhar ninguém pra valer. O que diz muito sobre o show de quarta. Who’s bad? Certamente, não Lily Allen.
Make “Bowie toma chá das cinco com Mallu”

O astro-rei está para Miyuki como filé para Homer Simpson. “Eu como o sol“, diz a mulher de Yukio Hatoyama, novo primeiro-ministro do Japão. “Desta forma: yum, yum, yum. Me dá uma baita energia.”
Ele prefere manter a dieta na sombra, mas a ex-dançarina e autora de livros como A Comida Havaina Espiritual de Miyuki Hatoyama entrega. “Recentemente, meu marido começou a fazer isso também.”
Yukio Hatoyama assume o cargo num momento delicado para o país. Na semana passada, seu partido, o Democrata do Japão, bateu, com folga, o Liberal Democrático, um fominha do poder - estava há 54 anos (salvo alguns meses entre 1993 e 1994) com a faca ginzu e o queijo tofu na mão. O povo está insatisfeito. O crescimento no país estagnou – a crise deu uma forcinha, claro, mas o problema é velho. Assim como a população japonesa, que só faz ganhar rugas. Rápido. Até demais. Tanto que, em breve, a previdência do país terá um faniquite. Como se não bastasse, perto do dragão chinês, o país cada dia mais se assemelha a uma lagartixa caquética.
Se o mandato do marido for tão trapalhão quanto o de seu antecessor, Taro Aso, Miyuki pode se refugiar em cercania mais próxima ao sol que tanto a energiza. Vênus. “Um lugar lindo, e muito verde”, defende a mulher de 66 anos, que – ela jura pelo cosmos – foi abduzida por alienígenas, numa noite de 1989.
Não se pode negar que a Sra. Hatoyama esteja no lugar certo, com a pessoa certa. Sua nação, afinal, é a do sol nascente – um verdadeiro Porcão em termos de gastronomia solar, se depender do nome. Já seu marido atende pelo apelido de “alien” – não por ter casa de veraneio no planeta visitado pela esposa há 20 anos, e sim pelos olhos saltados, como se fossem dois siliconados pedindo para sair do maiô vermelho de Baywatch.
Michelle, Carla, Marisa. A partir de agora, tão emocionantes quanto uma lata de salsichas em conserva.
Para saber mais sobre Miyuki, leia a reportagem do Guardian.

Olha, a resenha para a @rollingstoneBR foi feita uma hora após o show, plena madruga, nas coxas. Ficou bem meia-boca. Um tanto careta. E vem com quase um mês de atraso. Mas como o show é bocarra inteira, vou postar mesmo assim. Fotos do Stephan Solon, do Via Funchal. Beijo na alma.

Poderia ser apenas um amor de verão – daqueles de que, tal qual tatuagem de hena, cansa-se antes mesmo de o filtro solar entrar em promoção. Mas a atração da noite chegou ao inverno com frescor da estação solar.
Os shows do Little Joy têm muito de suas músicas: são bons enquanto duram. Só que duram pouco. Ao tocar no Via Funchal, na noite de sábado, 15 de agosto, para casa lotada, o projeto de Rodrigo Amarante, Fabrizio Moretti e Binki Shapiro durou uma hora cravada no palco, bis incluso. Para quem pagou R$ 100 (preço médio) pelo ingresso, restou a impressão de trailer prolongado: resume bem o filme, mas o público quer ver a versão na íntegra – e, se possível, com making of, cenas cortadas e comentários do diretor.
Sorte a deles que… bom, que eles são eles. Isso, em resumo, significa o seguinte: Amarante pode subir ao palco para cantar jingles de comida para cachorro, enquanto Moretti estaria dando cambalhotas e Shapiro, lixando unha. Mesmo assim, o público, tal qual romaria para músicos pródigos, engrossaria os decibéis a cada novo acorde.
De fato, o cordão do puxa-saco cada vez aumenta mais: em vez da apertada Clash, onde 500 pessoas desafiaram a lei “dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço”, na primeira passagem do grupo pelo Brasil, desta vez a casa comportava até seis mil pessoas (não havia clarões na plateia, mas o vaivém era livre). Flerte com o mainstream para o projeto que começou tocando – e adorando o fazer – em cantos fuleiros nos EUA.
Sorte a nossa que… bom, que eles são eles. Depois dos shows de abertura (The Dead Trees e Adam Green, ex-Moldy Peaches, aquele grupo redescoberto com as baladas bobinhas de Juno), o Little Joy entrou em cena com “No One’s Better Sake”, primeira amostra de um repertório que seguiria simpático até o fim. “Despretensão”, “clima praiano”, “reunião de amigos” – pelos próximos 60 minutos, eles provarão que a cartela de clichês colada à banda continua dentro do prazo de validade.
Mas nem tudo permaneceu no mesmo lugar desde a última visita ao país. Amarante, agora, é claramente o frontman dos mosqueteiros. Com voz rouca (“não foi da festa de ontem!”, disse o ruivo, com poder de convencimento zero), ele preservou algo de Tom Waits do Posto 9, assumindo a posição central num palco que parecia grande demais para preservar o clima fraterno entre os três.
Após “How To Hang a Warhol”, outra música de Little Joy (único álbum do grupo, lançado em novembro nos EUA e, dois meses depois, no Brasil), é a vez do vocal feminino em “Unattainable”. De todos, Binki é a mais mudada. Esqueça a imagem daquela moça loura com ar de quem, ao mesmo tempo, poderia ser garota mais tímida da festa (bondade deles) – ou simplesmente não estar nem aí para o resto do mundo (alfinetada delas).

Bem mais soltinha, ela interage com a plateia e põe a voz para fora. Definitivamente, deixou de aspirar ao papel de coadjuvante. Não deixa de ser um caso curioso: com sua postura deliciosamente preguiçosa, consegue, numa só tacada, ser apagada e dona de luminosidade só sua. Como não tem a força da colega alemã, suas intervenções, enquanto esporádicas, vêm em dose certeira. Mais homeopáticas e menos cavalares.
Com a balada “Shoulder To Shoulder”, vem a pausa na sucessão de músicas conhecidas do ainda diminuto repertório do Little Joy. “All The Hours”, primeira novidade da noite, ganhou explicação de Amarante: “A gente tinha que fazer músicas para o show do Brasil. Esta nós terminamos na tarde de anteontem”. Esparramou-se pela casa, então, arranjo forte, com reforço de sax – algo que não faria de todo mal se caísse no colo de Odair José.
Shapiro, que curte a onda de ficar sentada na maior parte do show, levantou-se para o charmoso cover de “Midnight Voyage”, do The Mamas and the Papas. Em seguida, Amarante usa sua rouquidão a favor para entoar a belíssima “With Strangers”, em fina sintonia com a guitarra melancólica de Moretti.
“I Agree With Your Face”, anunciada como “música romântica” pelo ex-hermano e segunda inédita do concerto, é o momento mais pé-no-rock do setlist (alguém disse Strokes?). A reboque vem outra faixa nova, com direito a introdução de Moretti – que tocou o tempo todo com o ar levemente bebum (de praxe para shows brasileiros), como se estivesse a fim de abraçar todo mundo e falar: “Já disse o quanto te amo hoje, cara?”.
“Podem cantar conosco? Make my heart mealt [faz meu coração derreter]”, pede o carioca radicado em Nova York, em mexidão idiomático. Após reger coro indie, ele acena a Amarante, e a banda toca a mais hermanística de todas as canções da noite – “Sambabylon” é um self-service instrumental que não causaria espanto algum se tocado pela Orquestra Imperial.
No Rio, cidade em que o Little Joy se apresentou 24 horas antes, as pessoas não sacaram muito bem a música, alegou Shapiro. “Eu amo o Rio”, ela emendou rapidamente, sem dar férias à ironia.
“The Next Time Around” vem depois, com Amarante na linha de frente e participações vocais de Shapiro e Moretti (ele, em português). A voz feminina do trio volta a se destacar, embalada por backing vocal dos rapazes, em “Don’t Watch Me Dancing”, baladinha honesta que compartilha da mesma singeleza de “Sunday Morning”, do Velvet Underground. (Enquanto, na música do Little Joy, a súplica é para que você “não a veja dançando”, esta tem versos que falam de “todos dançando e se divertindo”, e que a vocalista “gostaria que isso acontecesse com ela”.)
Como um Julian Casablancas com pé no freio e cordões havaianos em volta do pescoço, Amarante canta “Keep Me In Mind”, desfecho do primeiro bloco. Como no show de janeiro, ele reaparece sozinho e inicia o bis com a introspectiva “Evaporar”. Para não dizer que a canção em português é filha única num repertório dominado pela língua inglesa, os companheiros de grupo voltam para “Procissão”, num cover bem-ajeitado de Gilberto Gil – de certa forma, a guitarra rock ‘n’ roll de Moretti, em vez de poluir a canção, transformando-a em algo que não deveria ser, soou antropofágica na medida.

Para a saideira, o trio, já escoltado pelos músicos de apoio (Matt Borg, Matt Romano e Todd Dahlhoff), convoca Adam Green e a galera do Dead Trees (banda com Dahlhoff na formação). Algazarra instalada, o coletivo toca “Brand New Start”. Green pula de um lado para o outro e, a certa hora, é afastado por Shapiro como se fosse a mosca chata que insiste em zunir no seu ouvido. Se o grande medo em relação ao Little Joy é que o projeto fosse como amor de verão – algo divertido de se fazer, e com o “bônus” de não precisar dar satisfações ou ligar no dia seguinte -, o trio ainda não dá sinais de ter se desencantado do camarada ao lado. Que seja bom enquanto dure. E que, da próxima vez, dure só um bocado mais. O público agradece.