Show do Jon Spencer ontem, no Studio SP. A resenha eu fiz pro site da @risos - aí é aquele esquema, já sabe: correria, falta de revisão, formato mais caretinha. Mas tá valendo. Show fodão. O cara é um showman nato. (Foto, btw, do Lucas Lima.)

Assistir a um show do Heavy Trash é como embarcar numa daquelas locomotivas barulhentas que cortavam os Estados Unidos dos anos 1950, carregando uma geração de maltrapilhos (e com orgulho) prestes a encostar topetes no topo das paradas com esse tal de rock ‘n’ roll. A cada estação, embarcam gêneros e décadas diversas. Há doses mais comportadas do free jazz gutural de John Zorn, flertes com o blues, acento folk à la Woody Guthrie, e, claro, a indefectível pegada punk – afinal, é de Jon Spencer que estamos falando. Mas o novo projeto do cuti-cuti da cena underground estadunidense tem como parada final o mesmo ponto de partida, o que fica claro já nos primeiros twists (seja na guitarra, seja nos quadris): é rockabilly. Descarado, visceral, contagiante rockabilly.
Formado por Spencer e Matt Verta-Ray, baixista do Speedball Baby, e com dois integrantes do grupo dinamarquês Powersolo assumindo bateria e contrabaixo, o Heavy Trash se apresentou nesta quarta, 22, no Studio SP, após shows em Curitiba, no festival pernambucano Abril Pra Rock e pelo estado de São Paulo. Por volta da 0h20, a banda começou a despejar seu rock dos tempos da vovozinha (a pipa do vovô não subia mais e lá ia ela para o baile dançar o Honky Tonk) com “She Baby”. O repertório – em torno de 25 músicas (bis incluso), muitas delas fora do setlist originalmente previsto – incluiu faixas como “Kissy Baby”, “Bumble Bet” e “Yeah Baby” e foi comprimido em menos de duas horas de show. Porque com o Heavy Trash é assim: nada de intervalos longos. Zero baladas. Pode esquecer as firulas experimentais. Não aceite imitações. Apenas o bom e velho rock ‘n’ roll.
Se neste universo o tamanho das costeletas é documento, as do astro da noite ainda eram pintinho perto da crista do galão Elvis Presley. Não seja por isso: o sempre estiloso Mr. Spencer compensou com topete monstro e terno de veludo vinho por cima, golas e punhos de blusa em estampa retrô saltados para fora.
No palco, ele não para quieto. Volta e meia ameaça cair de joelhos, para então içar as juntas ao ar como se fosse o John Travolta do rockabilly. A interação com o público começou a aquecer por volta do meio do show, naquele típico jogo “eu falo ‘aaa’, vocês falam ‘ooo’”. A plateia – que, em sua maioria, achava “o tal Jon Spencer um cara bacana, aquela Blues Explosion é demais”, mas até ontem mandaria um “Heavy Trash quem?” à primeira citação sobre a banda, na cena desde 2005 – colaborou com prazer. Mesmo pouco íntima do repertório, ela já estava ganha desde o primeiro acorde.
E como groupie e rock ‘n’ roll é parceria mais reprisada que Roberto Carlos em especial de Natal da Globo, lá para o meio do show, uma fã convocava meninas ao lado. “Se você tirar, eu tiro!” Nada feito: o rock podia ser de peito aberto, mas as blusas continuaram abotoadas. Outra afobadinha subiu ao palco e tascou um beijo na bochecha de Spencer – que ficou impassível à demonstração de afeto. Apresentação finda e um grupo sobe ao palco e arranja briga com o baterista – aparentemente, os gaiatos queriam levar as baquetas do músico, que devolveu com o dedo em riste, linguagem universal para mandar um mané tomar no cu. O quebra-quebra estava à beira das vias de fato quando Spencer veio com os panos quentes.
Sabe aquele cara na eterna cruzada por nada menos que “tudo novo de novo”? Não é mais o caso do músico que, na década de 1980, sacudiu a cena musical com a banda Pussy Galore, como o próprio contou em entrevista ao site da Rolling Stone Brasil. “Me preocupava bem mais com o que era novo, experimental; em ir até o limite e empurrá-lo mais um pouquinho. Hoje, me interesso mais pelo que as pessoas têm a dizer. Se o cara está sendo sincero com seu próprio coração, para mim é o que vale.” E o que vale, aqui, é sacar que “simples” pode ser inversamente proporcional à pecha de “simplista”. Ou alguém ousa jogar o Cartola do morro para escanteio quando o Vinicius diplomata entra em campo?
O repertório, calcado em cima dos dois álbuns lançados pela dupla, Heavy Trash (2005) e Going Way Out With Heavy Trash (2007), vem forrado por linha instrumental crua. O contrabaixo era dedilhado com vontade – sabe um bailão caipira no Mississippi dos anos 1950? Algo por aí. A bateria não se dava ao trabalho de soar brilhante – bastava fazer um bom trabalho. O violão de Spencer e a guitarra semi-acústica de Verta-Ray apresentaram às novas gerações um som das antigas sem deixar ninguém se sentindo em tour por um sítio arqueológico. Uma proeza que não é bolinho.

