“O Comitê”, 1968

By anna virginia balloussier

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Confesso que (tomates em mãos, rápido, rápido!) nunca fui muito fã de Pink Floyd. The Wall não fez meu queixo dar beijinho no asfalto – talvez tenha visto muito nova, provavelmente pequei em não o rever até hoje. Mas um filme em especial sempre me encucou. Com trilha feita pela banda (recém-separada de Syd Barret), O Comitê foi lançado em 1968 – fatalmente, o ano que não acabava para os fãs, pois aquelas músicas jamais haviam sido prensadas em vinil. E só piorava: dirigida pelo estreante Peter Sykes e com número especial da malucaça The Crazy World of Arthur Brown, a fita tinha sumido do mapa. Ido copular cateto com hipotenusa no Triângulo das Bermudas. Se perdido na poltrona nova da Hebe. Puft. Gone. Pirate Bay algum quebrava esse galho. Virou até lenda urbana.

Você sabe o que é, para um fã, saber que existe um pentelhinho sequer feito pelo seu ídolo – perdido para sempre? Não queira.

Mas em 2005, como se fosse um urso polar em Lost que só seria explicado várias temporadas depois, a produção saiu em DVD. Ouvi falar dela por acaso, ano passado, mas não encontrei em locadora alguma do Rio e nem me dei ao trabalho de procurar para baixar na web (talvez porque, na época, minha internet fosse tão ligeira como uma senhorinha atravessando a Av. Paulista em seu andador).  

Dia desses, encontrei o  DVD após virar sócia da 2001 - se não a mãe de todas as locadoras fodaças, pelo menos a tia loucona que sempre te abastece com umas paradas meio psicodélicas, como é o caso deste filme. E, muito mais do que “um filme para fãs do Pink Floyd”, a fita é um must-see para qualquer pessoa que falou, fala ou falará: “nasci na década errada”.

Nada por acaso feita em 1968, a produção britânica é um filmeco indie de parcos 55 minutos, feito em P&B e influenciado pela visão de Harold Pinter e do psiquiatra R. D. Laing. Ou seja, coisa de doidão. E de doidão que quer ser levado a sério. O protagonista, Paul Jones, era o vocalista do Manfred Mann, grupo  do sul-africano Manfred Lubowitz.

Agora, sobre o enredo: os 45 minutos finais são ocupados por uma questão filosófica que, francamente, mais parece coisa de um estudante de cinema da PUC que acabou de ler O Processo, do Kafka. Daquele tipo que quis fazer seu próprio filme sobre o ônus da burocracia e do julgamento que nunca se sabe ao certo de onde – e por quê, para quem – vêm. Alguns closes sinistros, pausas “reflexivas”, papo contracultural  etc. Climinha soturno. E nonsense. Tem os tais comitês, com “os escolhidos” (algo meio Iniciativa Dharma) pelo governo para deliberar questões aleatórias. Como o chefe do escritório de Jones, que lembra de, quando jovem, ter sido selecionado para um comitê – e lá passou dias decidindo qual era a mais redonda entre cinco laranjas

arthurThe Crazy World of Arthur Brown

Já os 10 minutos iniciais são geniais. Temos este cara ao volante, a falar, “em vez de pensar”, como o personagem (no caso, um jovem pedindo carona) de Jones refletiria mais tarde. Então eles param no meio de uma floresta, a pedido do próprio motorista. Instala-se um desassossego, uma sensação clara de “vai dar merda” – colaborado, claro, pela sinopse na contracapa do DVD, que já nos antecipa um ”assassinato bizarro“. Então, talvez por tédio, quem sabe pelo tipo de perturbação filosófica incapaz de fazer o mesmo sentido hoje (o inferno são a festa da firma, a partida de bridge e o bidê dos outros), nosso carona vai lá e decapita o cara com o capô do carro. A princípio, ele nos parece uma versão chá-das-cinco do Bandido da Luz Vermelha - uma anarquia menos suja e mais metódica, digamos assim. Ele passeia um pouco com a cabeça. Mas então ele vai lá e, pimba, a recostura de volta. E ela volta a funcionar.  A falar, “em vez de pensar”.

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