Dai-me luz!

A quem possa interessar: matéria minha sobre Santo Daime feita para a revista Domingo, do Jornal do Brasil. Foto de abertura by Álvaro Riveros 

Ricardo Tadeu e Maria Regina: aceita um chá?

Servido em copo de licor –embora recipientes descartáveis e conchinhas improvisadas com a mão possam quebrar o galho–, o líquido marrom e encorpado vai goela abaixo. É amargo. O cheiro enjoa.

Mas quem se voluntaria a tomá-lo não parece dar importância a isso. Pelo contrário: está, de certa forma, mais afinado com uma sabedoria popular em tempos de Orkut: “quando a bebida entra, a verdade sai”.

Poderoso, o chá de ayahuasca, produzido pela mistura de duas plantas amazônicas, é conhecido por revelar o que há de mais íntimo nas pessoas.

Não à toa, todos os entrevistados desta reportagem usaram das mesmas palavrinhas-chave para definir suas respectivas experiências com a infusão: autoconhecimento.

Velha conhecida dos índios, a ayahuasca –já malhada, em português para brasileiro entender, como “coisa de doidão”, devido à sua propriedade alucinógena– pode virar patrimônio cultural do país. O pedido foi enviado pelo povo da floresta e chegou às mãos do ministro da Cultura, Gilberto Gil, que o encaminhou ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

Respaldo legal os apreciadores do chá já têm: ninguém sairá com estampa listrada e algemas em punho caso ingira a receita amazônica (mas atenção: apenas no contexto de rituais religiosos).

Os movimentos mais famosos ganham nomes de guerra familiares, como Santo Daime e União do Vegetal, e acumulam milhares de adeptos no país e no mundo.

O próprio Gil afirma já ter experimentado, em pleno ano que não acabou, 1968, o chá possante. De um hotel em Roma, em meio à turnê europeia, ele conversou com o Jornal do Brasil sobre a inserção da ayahuasca na cultura brasileira.

Ainda hoje, em tempos menos tropicalistas e mais engravatados, o ministro pensa na demanda como “absolutamente legítima”.

Reforça: no Acre, berço da prática, “o chá é muito bem recebido e adotado por setores de toda a sociedade. Das pessoas do povo aos militares e governistas”.  

Jagube, a planta espada do ayahuasca

Ricardo Tadeu dos Santos e Maria Regina Romeu dos Santos se preocupam. O tempo todo. A roleta mental da repórter aposta: querem saber o que ela tanto escreve no caderninho.

Devoto do Santo Daime desde 1984, o casal está à frente da Igreja Virgem da Luz, em Jacarepaguá, braço carioca do Centro Eclético da Fluente Luz Universal, o Cefluris, que fica na Vila Céu do Mapiá, no Amazonas –em brasileiro para daimista entender, a Jerusalém da ayahuasca.

E o que tanto desassossega os dois são as confusões frequentemente cometidas em torno da religião que elegeram para chamar de sua.

Na casa do Recreio dos Bandeirantes, explicam tintim por tintim sobre o processo de feitio do chá, a vocação cristã do Daime e colocam CDs com os hinos “não compostos, mas recebidos mediunicamente, entoados para evocar o poder da ayahuasca”, como esclarece Ricardo.

As letras soam como repentes daimistas, pregando paz e amor. Uma delas começa assim: A Rainha da Floresta / Vós venha receber / Estes cânticos aqui na mata / Que eu venho oferecer.

Rainha porque, afirma Ricardo, “são as mulé que mandam. Pode anotar aí. Tem a Virgem da Conceição, as madrinhas da Igreja…”. 

Sua esposa concorda com a cabeça. Minutos antes, a pedido do marido, foi preparar um café. Já deve estar no ponto.

“Tem de tudo, do professor universitário ao faxineiro, do brasileiro ao gringo. No ritual é assim: japonês ao lado do índio fica uma coisa indistinguível. Holandeses e alemães adquirem hábitos como comer feijão com farinha, falam em português e alguns até recebem os hinos na nossa língua”, diz o adepto do Cefluris.

O filho mais velho do casal, aliás, está em Amsterdã enquanto você lê estas linhas, ao lado da esposa –“uma cabocla da Amazônia, lá do Mapiá”, completa a mãe coruja–, tomando conta de uma igreja daimista.

Desde pequenos, os dois herdeiros do casal tomam o chá. As propriedades terapêuticas, sempre lembradas quando se fala da ayahuasca, já curaram o primogênito de uma infecção braba no rim, quando criança, segundo seus pais. “O poder de cura é muito forte. Não é como tinta fresca. É o divino – marca e não sai”, afirma Ricardo.

No centro, Mestre Raimundo Irineu Serra, “o cara” do Daime

Confira como é realizado o ritual do Santo Daime, doutrina inaugurada por Raimundo Irineu Serra, neto de escravos, que fundou a corrente religiosa no Rio Branco (AC), em 1930:  

Vestimenta: Em dia de festa, terno branco e gravata azul para os homens; vestido branco e verde e coroa de brilhantes para as damas. Nos encontros regulares, eles se ornam com calça e gravata azuis + camisa branca; elas, de saia plissada azul, blusa branca e gravata borboleta. Como colegiais. “A idéia é simular uma sala de aula. O professor é o Daime”, explica Ricardo.

Contra-indicações: Hipertensos, cardíacos e pacientes psiquiátricos não devem tomar o chá sem acompanhamento médico. Grávidas estão mais do que liberadas. “Na hora do parto inclusive. Faz um bem danado”, atesta Maria Regina.

Efeitos: A maioria não sabe colocar em palavras. Tudo bem: a gente tenta. Muitos falam de luzes divinas, insights espirituais e de regressões à infância. Ricardo respira fundo e pondera: “O Daime dá visão de olhos fechados e abertos”. Alguns efeitos podem ser menos agradáveis – como exige a boa faxina espiritual. Incluem náusea e queda de pressão e a vontade de vomitar. “Mas a maior parte da limpeza vai mesmo por baixo”, Maria conta. O último a sair dê a descarga.  

Rituais: São feitos nos dias 15 e 30 de cada mês, e pede-se três dias de abstinência (álcool, drogas e sexo) antes e depois da cerimônia. Duram, em média, cinco horas, com ingestão de duas a três doses de ayahuasca no meio tempo. Não há sacerdote – de Santo mesmo, só o chá. Na hora da concentração, damas para um lado, cavalheiros para o outro – assim como a bebida, feita com o cipó jagube (princípio masculino) e a folha chacrona (feminino).

Eles já entornaram umas e contaram à coluna um pouco da experiência com a ayahuasca:

Perfeito Fortuna, produtor cultural.

“Convivi com aldeias indígenas, como a Yawanawá, na região amazônica, e conheci essa bebida no final dos anos 80. Não me ligo no lado religioso. Mesmo os primeiros pajés que tomavam a ayahuasca faziam o uso terapêutico. Para quem fala de charlatanismo, saiba que a ayahuasca já curava muito antes das primeiras faculdades de medicina. Não funciona assim, de se tomar unzinho em uma festa. A parada é radical.”

Eduardo Dussek, músico.

“Nos anos 90, tive uma experiência enriquecedora com o Daime ao longo de quatro anos. O poder terapêutico é incrível! Já testemunhei o chá curar neurótico, viciado em drogas… Aliás, não dá para confundir uma coisa com a outra: a ayahuasca não causa dependência ou overdose. A própria bebida encontra um jeito de se expelir do corpo, em casos de excesso. Já vi casos de roubaram uma garrafa com o chá, para uso sem contexto ritualístico, e ela se quebrar do nada. Ninguém consegue explicar. Tomar Daime, acima de tudo, é como estar em um constante Juízo Final.”

Ney Matogrosso, cantor.

“Tomei por um ano e meio, a primeira vez, em 1988. Não teve uma vez que, na fila para o chá, o suor frio não descesse pelo meu braço. Para mim, valeu mais do que 10 anos de terapia. Não é droga, algo que se toma para ir à rave. Parei porque estava muito acelerado, tendo muitos insights – hoje, só uma colherada (da ayahuasca) de vez em quando.”

Margareth Menezes, cantora. 

“Sou da União do Vegetal, o que é diferente do Santo Daime, mas o princípio também é a ayahuasca. Foi muito bom para mim, que vivia envolta à superficialidade da vida de artista. Mas todos têm conflitos – do mais pobre ao mais rico. O chá ampliou minhas percepções. É nossa comunhão. A Igreja Católica não tem o vinho? Que tem álcool? A ayahuasca é nosso vinho.”

Camila Amado, atriz.

“Foi o Vicente Pereira (1950-1993) quem levou eu, Ney (Matogrosso) e todo mundo. Ele disse que não era permitido me levar e que eu deveria ir algemada. Por quê? Sei lá! O importante é que o Daime foi um divisor de águas. É como o Yin e Yang chineses: tem o cipó, masculino, e a as folhas da árvore Rainha, feminina, e ambos se complementam – e trazem amor e equilíbrio. Todo mundo diz que é horrível, que você vomita, mas eu tomei por três anos e só vomitei uma vez, e mesmo assim foi maravilhoso. Senti que estava pondo para fora pensamentos ruins, como quando comemos algo estragado e precisamos expelir aquilo. Às vezes, sentia meu espírito deixando meu corpo. Me via a três metros de altura e pensava: “ai, meu Deus, esqueci meus óculos!

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2 Respostas to “Dai-me luz!”

  1. Alessandra Alcedo Says:

    Boa tarde, Ricardo!

    Gostaria de saber se você foi professor de literatura no Colégio do Carmo, em Santos, por volta de 1988 – neste caso, fui sua aluna e é um prazer re-encontrá-lo!
    Caso contrário, desculpe o engano (o nome é o mesmo) rs

    Abraços,

    Alessandra

  2. Marcelo Says:

    Excelente matéria! clara e diversificada!

    Daime é amor!

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