Bon appétit

Como acabaria aquela noite? Ela era que nem martini, seca, e: pior: custava mais caro. Decidiu encarar a patroa mesmo assim. Todo o desespero daquela noite denunciava um movimento perfeitamente coerente com a vida sexual dos últimos meses: rigorosamente nenhuma. Afinal de contas, os eunucos tinham uma posição social interessante na Índia, mas uma posição social não é necessariamente uma posição sexual. Sexo. Talvez não lembrasse mais como era. Certa vez tentara andar de bicicleta depois de quinze anos sem encarar o asfalto e se estrepou todo logo na primeira esquina. Melhor deixar rolar. Não era como se não praticasse bastante em casa. No trabalho. Nunca tomou café na hora do break. Via a si mesmo como um cara que praticava medicina terapêutica quando fosse preciso. Além do mais, seu desespero tinha nome: ABSTINÊNCIA. Não podia deixar a garota perceber, caralho. A garota. Cabelos e olhos morenos, boquinha safada, dos lábios grossos. Os de baixo ainda a conferir. ABSTINÊNCIA. Se chamava Maira e não se podia  exatamente bonita, mas não era como se estivesse em posição de negociar. Ou qualquer outra. Como se pudesse estalar os dedos e arranjar um ringue de lama para o casting de Baywatch tentar a sorte pelo seu número de telefone. Há muito desistira de encontrar a Foda Ideal. Fazia sentido. Só precisava de uma boa noite de sexo e um restaurante fora da vizinhança. À sua frente, a parceira continuava a encará-lo com lasers castanhos ao mesmo tempo em que ajeitava as alças do sutiã e cambaleava para o toalete feminino a cada nova taça, Chardonnay 1968, melhor da casa (pediu o prato mais caro). Ela era irritante, ele não ligava. Fazia sentido. Ela se chamava Maira e falava sobre coisas da vida (sic) enquanto ele se graduava na arte de mentalizar a gostosinha do escritório no carrinho de sobremesas da mesa ao lado. Rollin’ like a river, baby. Sim, sim, aquela porra toda fazia sentido. E daí que ela não era a mulher dos seus sonhos, ou melhor, a mulher dos sonhos de ninguém? Ajudava admitir que já havia comido piores no passado. Tudo bem que a sobriedade nunca esteve ao seu lado em horas como aquela, mas nisso estava trabalhando desde o começo da noite. Nele e nela. Cinco taças de vinho e trabalho braçal no banco da praça era o mínimo. Ela custava caro. Ele pagava o que fosse. Naquela noite, até uma mulher como Maira parecia o banquete dos deuses. E era mesmo. Hoje o prato principal viria depois da conta, crianças. (escrito em 20.05.06)

Anúncios

Uma resposta to “Bon appétit”

  1. millos kaiser Says:

    ué, mas a história é sobre o aparecimento de um orifício anal extra e sobre empalamento. não entendi a risada!

    going do gnals barkley, música e clipe, também são top 5 do ano.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: