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Jon Spencer Rockabilly Explosion

abril 23, 2009

Show do Jon Spencer ontem, no Studio SP. A resenha eu fiz pro site da Rolling Stone.  

jon

Assistir a um show do Heavy Trash é como embarcar numa daquelas locomotivas barulhentas que cortavam os Estados Unidos dos anos 50, carregando uma geração de maltrapilhos (e com orgulho) prestes a encostar topetes no topo das paradas com esse tal de rock ‘n’ roll.

A cada estação, embarcam gêneros e décadas diversas. Há doses mais comportadas do free jazz gutural de John Zorn, flertes com o blues, acento folk à la Woody Guthrie, e, claro, a indefectível pegada punk – afinal, é de Jon Spencer que estamos falando.

Mas o novo projeto do cuti-cuti da cena underground estadunidense tem como parada final o mesmo ponto de partida, o que fica claro já nos primeiros twists (seja na guitarra, seja nos quadris): é rockabilly. Descarado, visceral, contagiante rockabilly.

Formado por Spencer e Matt Verta-Ray, baixista do Speedball Baby, e com dois integrantes do grupo dinamarquês Powersolo assumindo bateria e contrabaixo, o Heavy Trash se apresentou nesta quarta, 22, no Studio SP, após shows em Curitiba, no festival pernambucano Abril Pra Rock e pelo estado de São Paulo.

Por volta da 0h20, a banda começou a despejar seu rock dos tempos da vovozinha (a pipa do vovô não subia mais e lá ia ela para o baile dançar o Honky Tonk) com “She Baby”. O repertório – em torno de 25 músicas (bis incluso), muitas delas fora do setlist originalmente previsto – incluiu faixas como “Kissy Baby”, “Bumble Bet” e “Yeah Baby” e foi comprimido em menos de duas horas de show.

Porque com o Heavy Trash é assim: nada de intervalos longos. Zero baladas. Pode esquecer as firulas experimentais. Não aceite imitações. Apenas o bom e velho rock ‘n’ roll.

Se neste universo o tamanho das costeletas é documento, as do astro da noite ainda eram pintinho perto da crista do galão Elvis Presley.

Não seja por isso: o sempre estiloso Mr. Spencer compensou com topete monstro e terno de veludo vinho por cima, golas e punhos de blusa em estampa retrô saltados para fora.

No palco, ele não para quieto. Volta e meia ameaça cair de joelhos, para então içar as juntas ao ar como se fosse o John Travolta do rockabilly.

A interação com o público começou a aquecer por volta do meio do show, naquele típico jogo “eu falo ‘aaa’, vocês falam ‘ooo'”. A plateia – que, em sua maioria, achava “o tal Jon Spencer um cara bacana, aquela Blues Explosion é demais”, mas até ontem mandaria um “Heavy Trash quem?” à primeira citação sobre a banda, na cena desde 2005 – colaborou com prazer. Mesmo pouco íntima do repertório, ela já estava ganha desde o primeiro acorde.

E como groupie e rock ‘n’ roll é parceria mais reprisada que Roberto Carlos em especial de Natal da Globo, lá para o meio do show, uma fã convocava meninas ao lado. “Se você tirar, eu tiro!” Nada feito: o rock podia ser de peito aberto, mas as blusas continuaram abotoadas.

Outra afobadinha subiu ao palco e tascou um beijo na bochecha de Spencer – que ficou impassível à demonstração de afeto.

Apresentação finda e um grupo sobe ao palco e arranja briga com o baterista – aparentemente, os  gaiatos queriam levar as baquetas do músico, que devolveu com o dedo em riste, linguagem universal para mandar um mané tomar no cu.  O quebra-quebra estava à beira das vias de fato quando Spencer veio com os panos quentes.

Sabe aquele cara na eterna cruzada por nada menos que “tudo novo de novo”? Não é mais o caso do músico que, na década de 1980, sacudiu a cena musical com a banda Pussy Galore, como o próprio contou em entrevista ao site da Rolling Stone Brasil. “Me preocupava bem mais com o que era novo, experimental; em ir até o limite e empurrá-lo mais um pouquinho. Hoje, me interesso mais pelo que as pessoas têm a dizer. Se o cara está sendo sincero com seu próprio coração, para mim é o que vale.”

E o que vale, aqui, é sacar que “simples” pode ser inversamente proporcional à pecha de “simplista”. Ou alguém ousa jogar o Cartola do morro para  escanteio quando o Vinicius diplomata entra em campo?

O repertório, calcado em cima dos dois álbuns lançados pela dupla, Heavy Trash (2005) e Going Way Out With Heavy Trash (2007), vem forrado por linha instrumental crua. O contrabaixo era dedilhado com vontade – sabe um bailão caipira no Mississippi dos anos 1950? Algo por aí.

A bateria não se dava ao trabalho de soar brilhante – bastava fazer um bom trabalho. O violão de Spencer e a guitarra semi-acústica de Verta-Ray apresentaram às novas gerações um som das antigas sem deixar ninguém se sentindo em tour por um sítio arqueológico. Uma proeza que não é bolinho.

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Coelhinho se eu fosse como tu

abril 9, 2009

Para adestrar aquela colônia de pulgas safada atrás da orelha, aí vai a verdade por trás (e de ladinho) da gênese do ovo da páscoa.

ovoCoelhinho da páscoa que trazes pra mim, um ovo, dois ovos

(Queria saber de quem é a imagem, me repassaram sem dizer a procedência – tipo DST. Achei sensacional.) 

Que beijinho pop que você tem

abril 9, 2009

Texto feito em uma hora pro site da Rolling Stone, então nem está aquele Brastempão que dona Maria pediu a Deus. O diretor’s cut é este, já que a versão que entrou no ar precisa ser mais caretinha (ossos do oríficio, ossos do orifício…). Fotos by Marcelo Rossi.   

kissss

“Beijinho doce? Esquece!” – é o que parecia insinuar a língua de estimados 17 centímetros de Gene Simmons, o “demônio” do Kiss, para as cerca de 37 mil pessoas que foram na terça, 7, à Arena Anhembi conferir o show da banda de 35 anos de carreira e mais de 80 milhões de cópias vendidas.

 O grupo de rock mostrou pique olímpico das 21h35 às 23h45, tempo o suficiente para 14 canções, outras seis no bis, piruetas em cima de saltos-plataformas de quase 20 centímetros, pirotecnia, labaredas de fogo, solos de bateria e guitarra, goladas de “sangue” e voos pelo palco – enfim, o de praxe em se tratando de Kiss. E os militantes do PETA podem sossegar o facho: nenhum animal foi ferido durante a apresentação, até porque esse negócio de matar pintinhos com a bota é uma baita lenda que faz cama para deitar a fama da banda formada em 1973.

Se no sábado, 4, foi a vez da massa alva conferir a “micareta eletro” do Skol Sensation – traje obrigatório: branco -, no mesmo Anhembi (no Pavilhão), o público que chegava à Arena vestiu, basicamente, preto. Mesmo sem lançar disco de inéditas há 10 anos, o Kiss mostrou que faz bonito com jovem e infante guarda, com muitos fãs que usavam fraldas não tem uma década atrás – e alguns que, de fato, ainda recorriam aos calções descartáveis, trazidos a tiracolo por papais e mamães ávidos por testemunhar as estripulias dos “beijoqueiros do rock”. 

Às 21h30, rapazes da produção desencaparam os equipamentos no palco e revelaram a fileira com várias caixas de som, que em breve dariam a impressão de que o Anhembi sacolejou alguns graus na Escala Richter. Cinco minutos depois, uma gigantesca bandeira preta, com o nome da atração no meio, faz as vezes de cortina e ouve-se a voz do “Demônio”:  “Você queria o melhor, você tem o melhor. A banda mais quente do mundo: Kiss!”. Quente? Pelando. Bem vindo ao inferno.    

Como já fora anunciado, a maioria das faixas tocadas na noite veio de Kiss Alive, o álbum que condensa os 35 anos de estrada dos mascarados. O  intensivão de hard rock começou com a porradaria de “Deuce”, e os primeiros efeitos especiais foram postos em ação, com lingotes de fogo engolindo o palco. Toda vez que isso acontecia – e de fato o truque se repetiria mais de uma vez na noite – os que desembolsaram R$350 para estar um tantinho mais perto da banda, na pista VIP, sentiam o bafo quentinho no rosto.

Paul Stanley, que, assim como Simmons vem da formação original do Kiss (Eric Singer, bateria, e Tommy Thayer, guitarra, entraram no lugar de Ace Frehley e Peter Criss), assumiu a parte que lhe cabe neste latifúndio e foi o frontman do espetáculo – faz jus, pois, à estrela que lhe pinta o rosto desde 1973. Só dos gritos nos quais ele louvou “São Paulo!” – com os acompanhantes “vocês são família!”, “o exército do Kiss te ama!” e “sentimos saudades!” -, contou-se entre 20 e 25 vezes.

E não resta dúvida: o Kiss te ama. Alguns podem ter saído com a impressão de “ah, eles dizem isso para todos”, mas os quatro integrantes fazem de tudo e um pouco mais para agradar a legião de fãs. Vêm à beira do palco, conversam com a plateia, fazem juras de amor eterno e, mesmo com os dois veteranos da banda próximos de virar sessentões, se movimentam para lá e para cá com fôlego de deixar muito rapazote no chinelo.

A turnê Kiss Alive/35 segue com “Strutter” e “Got To Choose”. Mas é em “Hotter Than Hell” (“mais quente que o inferno”) que a coisa pega fogo. Literalmente. Hora de Simmons mostrar os dotes piromaníacos: no número mais do que esperado, o baixista empunha uma espada com a ponta em chamas, aproxima o bocão e cospe fogo. Em seguida, encrava a arma no chão, com violência. Sirenes ensurdecedoras são ativadas no fundo do palco. A multidão mal se segura de tanta excitação. Pois é: os velhos truques vão muito bem, obrigado.

Na pista, fã-clubes, casais – na maioria dos casos, eles têm cabelos maiores do que o das namoradas – e muita gente com cara pintada à moda Kiss – a média para se montar uma varia entre 10 e 30 minutos; a tinta, anti-alérgica, é feita com maquiagem infantil, embora um gaiato tenha alegado manchar o rosto com carvão. Após, “Nothin’ To Lose”, “C’mon and Love Me” e “Parasite”. Em “She”, Stanley (com colete de brilhos e peito nu, o mais glam dos componentes da banda) deita no palco e leva a pernoca ao alto, como uma pin-up do rock.

Nos solos, baixista e guitarristas iam até a boca do palco e faziam coreografia, de lá para cá – na medida do possível, o movimento era espelhado pelo baterista, sentado atrás da coluna, ou melhor, da verdadeira muralha da China de tambores e pratos.

Terminada a música, o “homem do espaço” Thayer (com a mesma maquiagem de Ace, o pioneiro no posto) ataca em solo: em sua primeira apresentação no Brasil, precisa, afinal, mostrar a que veio. Não consegue se livrar do fantasma de Ace, mas dá conta do recado – após tocar com Black Sabbath e Alie Cooper, não é exatamente calouro no pedaço. “Olha lá, tem cara de quem aprendeu hoje os efeitinhos!”, esnoba um fã da formação original, no canto direito da pista VIP.

Antes de “Watchin'”, Paul – apesar o linguão de Gene, é ele o mais linguarudo da noite, com declarações entrecortando quase todas a músicas –  diz: “Nós amamos as mulheres. Gostamos dos homens. E adoramos a polícia” – uma alusão ao hino vigilante? Vá saber. Eric Singer faz, agora, seu solo – com duração de aproximadamente cinco  minutos. Como “novato”, também precisa mostrar serviço – ele tomou o posto de “gatinho” de Criss (a maquiagem o deixou um pouco parecido com uma mistura do musical Cats e Quiabo, o Sancho Pança de Marcelo Adnet no programa da MTV 15 Minutos). Na reta final, o solo começa a acelerar, estilo “Creu”. Para ser do Kiss, tem que ter disposição. Para ser do Kiss, tem que ter habilidade. Nessa hora, a plataforma na qual se encontrava a bateria é içada – outra “surpresinha” manjada do Kiss, mas que todo mundo adora mesmo assim.

Após leva de músicas, Paul ameaça tocar “Starway To Heaven”, do Led Zeppelin, mas faz beicinho e o público fica só na vontade. Engata “Black Diamond”. Mas o triunfo vem mesmo com “Rock And Roll All Nite” – com direito a quantidade de efeitos especiais digna de um filme de George Lucas, de chuva de papel picado a espetáculo de luzes e fogo. Foi a música mais aclamada pelo público.

Pausa para retomar com o bis. Minutos depois, Paul chega empunhando uma bandeira do Brasil. Gene (que volta ao palco com o baixo do modelo “machado”, que o acompanhou  no primeiro show no Brasil, em 1983) faz o mesmo com outra bandeira, jogada por um fã, com o retrato do Kiss. “Shout It Out Loud” e “Lick It Up” (com solo de “Won’t Get Fooled”, do The Who) abrem a bateria de seis músicas na porção-saideira do show.   

Tudo funciona na lógica do mágico: ele vai ao palco, corta uma formosa dama em dois pedaços e depois a reúne sã e salva, para delírio da audiência – que, vamos lá, sabia que tudo se tratava de um truque desde o começo. Mas a graça está aí: em querer acreditar na mágica que faz Simmons vomitar sangue (nada mais do que ketchup ou seiva de mentirinha) e “voar” pelo palco, para subir a uma plataforma acima do palco e cantar “I Love It Loud” – embora o fiozinho que suspende o tiozinho esteja lá para todo mundo ver. Uma luz verde sinistra o iluminou durante o ritual.  

Na sequência, Paul também ganha ato próprio, em “Love Gun”. O guitarrista sobe em um cabo aéreo, que o leva para uma plataforma no meio da Arena, de onde canta . Momento de glória para os fãs da pista comum, que mal viram os ídolos em carne e osso (o jeito era se virar aos telões) diante da massa de pessoas.

“Detroit Rock City” fecha a noite, e o catatau de efeitos é maior do que nunca: catavento de faíscas saindo da bateria de Eric e até fogos de artifício no céu de São Paulo. De vantagem sobre as outras passagens do Kiss no Brasil – 1983, 1994 e 1999 -, o som estava consideravelmente melhor, apesar de algumas balançadas nas primeiras músicas do show. Espetacular, sem dúvida foi. Não teve o óculos 3-D do show de 1999, a inovação de 1994 (quando a banda se apresentou sem a icônica maquiagem) ou o fôlego da juventude de 1983. Mas ninguém lá reclamou. Para os brasileiros, os shows de 2009 ficarão como prova do que já é bem sabido por aí: Kiss não foi uma banda que parou no tempo. O tempo, esse sim, que parou para dar passagem a demônio, gato, estrela e homem espacial. Beija eles?