Que beijinho pop que você tem

Texto feito em uma hora pro site da Rolling Stone, então nem está aquele Brastempão que dona Maria pediu a Deus. O diretor’s cut é este, já que a versão que entrou no ar precisa ser mais caretinha (ossos do oríficio, ossos do orifício…). Fotos by Marcelo Rossi.   

kissss

“Beijinho doce? Esquece!” – é o que parecia insinuar a língua de estimados 17 centímetros de Gene Simmons, o “demônio” do Kiss, para as cerca de 37 mil pessoas que foram na terça, 7, à Arena Anhembi conferir o show da banda de 35 anos de carreira e mais de 80 milhões de cópias vendidas.

 O grupo de rock mostrou pique olímpico das 21h35 às 23h45, tempo o suficiente para 14 canções, outras seis no bis, piruetas em cima de saltos-plataformas de quase 20 centímetros, pirotecnia, labaredas de fogo, solos de bateria e guitarra, goladas de “sangue” e voos pelo palco – enfim, o de praxe em se tratando de Kiss. E os militantes do PETA podem sossegar o facho: nenhum animal foi ferido durante a apresentação, até porque esse negócio de matar pintinhos com a bota é uma baita lenda que faz cama para deitar a fama da banda formada em 1973.

Se no sábado, 4, foi a vez da massa alva conferir a “micareta eletro” do Skol Sensation – traje obrigatório: branco -, no mesmo Anhembi (no Pavilhão), o público que chegava à Arena vestiu, basicamente, preto. Mesmo sem lançar disco de inéditas há 10 anos, o Kiss mostrou que faz bonito com jovem e infante guarda, com muitos fãs que usavam fraldas não tem uma década atrás – e alguns que, de fato, ainda recorriam aos calções descartáveis, trazidos a tiracolo por papais e mamães ávidos por testemunhar as estripulias dos “beijoqueiros do rock”. 

Às 21h30, rapazes da produção desencaparam os equipamentos no palco e revelaram a fileira com várias caixas de som, que em breve dariam a impressão de que o Anhembi sacolejou alguns graus na Escala Richter. Cinco minutos depois, uma gigantesca bandeira preta, com o nome da atração no meio, faz as vezes de cortina e ouve-se a voz do “Demônio”:  “Você queria o melhor, você tem o melhor. A banda mais quente do mundo: Kiss!”. Quente? Pelando. Bem vindo ao inferno.    

Como já fora anunciado, a maioria das faixas tocadas na noite veio de Kiss Alive, o álbum que condensa os 35 anos de estrada dos mascarados. O  intensivão de hard rock começou com a porradaria de “Deuce”, e os primeiros efeitos especiais foram postos em ação, com lingotes de fogo engolindo o palco. Toda vez que isso acontecia – e de fato o truque se repetiria mais de uma vez na noite – os que desembolsaram R$350 para estar um tantinho mais perto da banda, na pista VIP, sentiam o bafo quentinho no rosto.

Paul Stanley, que, assim como Simmons vem da formação original do Kiss (Eric Singer, bateria, e Tommy Thayer, guitarra, entraram no lugar de Ace Frehley e Peter Criss), assumiu a parte que lhe cabe neste latifúndio e foi o frontman do espetáculo – faz jus, pois, à estrela que lhe pinta o rosto desde 1973. Só dos gritos nos quais ele louvou “São Paulo!” – com os acompanhantes “vocês são família!”, “o exército do Kiss te ama!” e “sentimos saudades!” -, contou-se entre 20 e 25 vezes.

E não resta dúvida: o Kiss te ama. Alguns podem ter saído com a impressão de “ah, eles dizem isso para todos”, mas os quatro integrantes fazem de tudo e um pouco mais para agradar a legião de fãs. Vêm à beira do palco, conversam com a plateia, fazem juras de amor eterno e, mesmo com os dois veteranos da banda próximos de virar sessentões, se movimentam para lá e para cá com fôlego de deixar muito rapazote no chinelo.

A turnê Kiss Alive/35 segue com “Strutter” e “Got To Choose”. Mas é em “Hotter Than Hell” (“mais quente que o inferno”) que a coisa pega fogo. Literalmente. Hora de Simmons mostrar os dotes piromaníacos: no número mais do que esperado, o baixista empunha uma espada com a ponta em chamas, aproxima o bocão e cospe fogo. Em seguida, encrava a arma no chão, com violência. Sirenes ensurdecedoras são ativadas no fundo do palco. A multidão mal se segura de tanta excitação. Pois é: os velhos truques vão muito bem, obrigado.

Na pista, fã-clubes, casais – na maioria dos casos, eles têm cabelos maiores do que o das namoradas – e muita gente com cara pintada à moda Kiss – a média para se montar uma varia entre 10 e 30 minutos; a tinta, anti-alérgica, é feita com maquiagem infantil, embora um gaiato tenha alegado manchar o rosto com carvão. Após, “Nothin’ To Lose”, “C’mon and Love Me” e “Parasite”. Em “She”, Stanley (com colete de brilhos e peito nu, o mais glam dos componentes da banda) deita no palco e leva a pernoca ao alto, como uma pin-up do rock.

Nos solos, baixista e guitarristas iam até a boca do palco e faziam coreografia, de lá para cá – na medida do possível, o movimento era espelhado pelo baterista, sentado atrás da coluna, ou melhor, da verdadeira muralha da China de tambores e pratos.

Terminada a música, o “homem do espaço” Thayer (com a mesma maquiagem de Ace, o pioneiro no posto) ataca em solo: em sua primeira apresentação no Brasil, precisa, afinal, mostrar a que veio. Não consegue se livrar do fantasma de Ace, mas dá conta do recado – após tocar com Black Sabbath e Alie Cooper, não é exatamente calouro no pedaço. “Olha lá, tem cara de quem aprendeu hoje os efeitinhos!”, esnoba um fã da formação original, no canto direito da pista VIP.

Antes de “Watchin'”, Paul – apesar o linguão de Gene, é ele o mais linguarudo da noite, com declarações entrecortando quase todas a músicas –  diz: “Nós amamos as mulheres. Gostamos dos homens. E adoramos a polícia” – uma alusão ao hino vigilante? Vá saber. Eric Singer faz, agora, seu solo – com duração de aproximadamente cinco  minutos. Como “novato”, também precisa mostrar serviço – ele tomou o posto de “gatinho” de Criss (a maquiagem o deixou um pouco parecido com uma mistura do musical Cats e Quiabo, o Sancho Pança de Marcelo Adnet no programa da MTV 15 Minutos). Na reta final, o solo começa a acelerar, estilo “Creu”. Para ser do Kiss, tem que ter disposição. Para ser do Kiss, tem que ter habilidade. Nessa hora, a plataforma na qual se encontrava a bateria é içada – outra “surpresinha” manjada do Kiss, mas que todo mundo adora mesmo assim.

Após leva de músicas, Paul ameaça tocar “Starway To Heaven”, do Led Zeppelin, mas faz beicinho e o público fica só na vontade. Engata “Black Diamond”. Mas o triunfo vem mesmo com “Rock And Roll All Nite” – com direito a quantidade de efeitos especiais digna de um filme de George Lucas, de chuva de papel picado a espetáculo de luzes e fogo. Foi a música mais aclamada pelo público.

Pausa para retomar com o bis. Minutos depois, Paul chega empunhando uma bandeira do Brasil. Gene (que volta ao palco com o baixo do modelo “machado”, que o acompanhou  no primeiro show no Brasil, em 1983) faz o mesmo com outra bandeira, jogada por um fã, com o retrato do Kiss. “Shout It Out Loud” e “Lick It Up” (com solo de “Won’t Get Fooled”, do The Who) abrem a bateria de seis músicas na porção-saideira do show.   

Tudo funciona na lógica do mágico: ele vai ao palco, corta uma formosa dama em dois pedaços e depois a reúne sã e salva, para delírio da audiência – que, vamos lá, sabia que tudo se tratava de um truque desde o começo. Mas a graça está aí: em querer acreditar na mágica que faz Simmons vomitar sangue (nada mais do que ketchup ou seiva de mentirinha) e “voar” pelo palco, para subir a uma plataforma acima do palco e cantar “I Love It Loud” – embora o fiozinho que suspende o tiozinho esteja lá para todo mundo ver. Uma luz verde sinistra o iluminou durante o ritual.  

Na sequência, Paul também ganha ato próprio, em “Love Gun”. O guitarrista sobe em um cabo aéreo, que o leva para uma plataforma no meio da Arena, de onde canta . Momento de glória para os fãs da pista comum, que mal viram os ídolos em carne e osso (o jeito era se virar aos telões) diante da massa de pessoas.

“Detroit Rock City” fecha a noite, e o catatau de efeitos é maior do que nunca: catavento de faíscas saindo da bateria de Eric e até fogos de artifício no céu de São Paulo. De vantagem sobre as outras passagens do Kiss no Brasil – 1983, 1994 e 1999 -, o som estava consideravelmente melhor, apesar de algumas balançadas nas primeiras músicas do show. Espetacular, sem dúvida foi. Não teve o óculos 3-D do show de 1999, a inovação de 1994 (quando a banda se apresentou sem a icônica maquiagem) ou o fôlego da juventude de 1983. Mas ninguém lá reclamou. Para os brasileiros, os shows de 2009 ficarão como prova do que já é bem sabido por aí: Kiss não foi uma banda que parou no tempo. O tempo, esse sim, que parou para dar passagem a demônio, gato, estrela e homem espacial. Beija eles?  

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: