Archive for maio \30\UTC 2009

Domínio público

maio 30, 2009

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 Via Cultural Domain.

Pop goes my heart

maio 30, 2009

Nada como Lou Reed (“Metal Machine Music”, no mínimo) na segunda, um Mozartezinho de leve na terça, dodecafonismo na quarta e… McFly na quinta. Yeah, baby. Pop to the core. Para quem acabou de voltar de Marte, McFly é a versão “do mal” do Jonas Brothers. Para quem acabou de voltar de Plutão, Jonas Brothers é o novo Hanson – três irmãos bonitinhos que fazem a cabeça da garotada. Fui cobrir o show no Via Funchal, quinta (28), e fiz resenha. A versão “gêmea boazinha” taqui, no site da Rolling Stone. A gêmea malvada, versão uncut, veio pra cá. As fotos são do Stephan Solon. Saboreie com moderação.

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Não se deixe levar pelas aparências. A turbe de garotas (maioria) e garotos (poucos, mas páreos em nível de histeria) que se aglomerou na noite de quinta, 28, na Via Funchal, para o show dos britânicos do McFly, pode parecer inofensiva, a julgar pelas espinhas no rosto e altura que ainda espichará bons centímetros nos próximos anos. Entre os seis mil na plateia da casa de shows paulistana, inclusive alguns pais em dupla jornada de babá-motorista da prole, a idade média era de quem tinha chegado aos dois dígitos de idade há, no máximo, cinco anos. Mas a fúria dos jovenzinhos para defender com unhas (quase sempre coloridas) e dentes (de leite não faz tanto tempo assim) seus ídolos é tão intensa que, por um instante, leva a repórter à reflexão. Será que, perto disso, uma festinha do Hell’s Angels seria tão intimidante quanto um patinho de borracha?

O show começa cinco aceitáveis minutinhos após o horário marcado, 21h30, cerca de 100 horas depois da apresentação de outro fenômeno pop atual, o Jonas Brothers, na capital paulista. E a promessa, rezam a lenda e o marketing, é uma reedição da disputa sessentista entre os bonzinhos Beatles (ao menos no começo de carreira) e os rebeldes Rolling Stones. Enquanto os irmãos da Disney vestem a auréola do pop, adotando o polêmico anel de virgindade, Tom Fletcher (vocal e guitarra), Danny Jones (vocal e guitarra), Dougie Poynter (vocal e baixo) e Harry Judd (bateria) gastam 1h30 para fazer um “pop ‘n’ roll do mal”.

Com reforço do tecladista Jamie Norton (nota dissonante ao quarteto, com sua aparência quase andrógina e jeito de pacato cidadão), o grupo seguiu repertório semelhante ao tocado em Manaus, Fortaleza e Recife, cidades pelas quais já passaram na série de shows pelo país – eles estiveram por aqui há poucos meses e voltaram graças à insistência de fãs, que chegaram a organizar abaixo-assinado pela volta dos rapazes. Para abrir a noite, “One for the Radio”, que de cara mostra a que a banda veio: com faixas banhadas em elixir pop e apoiadas por extremo carisma dos integrantes, o McFly faz por merecer os dias de jejum no recreio, para que muitas meninas pudessem gastar a mesada com álbuns, pôsteres e afins.

Mostrando-se cientes de que a crise na indústria fonográfica não está para brincadeira, os britânicos entre 21 e 24 anos sabem que precisam tratar cada cliente-fã como se fosse o único. Não à toa, Harry, escondido na bateria a maior parte do tempo, se interrompe certa hora para falar que “gostaria de beijar cada uma de vocês” (a cortesia se restringe ao público feminino, porque eles são rebeldes, mas nem tanto).

mcfly2 Saca o pontinho  branco ? Olá, Danny

À segunda música, “Everybody Knows, sucede-se “Do Ya” – uma aula de pop, com melodia que remete aos grupos vocais dos anos 1950 e a despretensão na medida certa para atingir os ouvidos dos mais taciturnos críticos do rock. Porque uma coisa é importante compreender: se é para ver o McFly em ação, melhor jogar o preconceito a uns três metros de seu corpo. Apesar da etiqueta “rebelde”, conquistada em grande parte pela comparação com a fábrica de hits da Disney Jonas Brothers, o McFly é tão malvado como Mickey Mouse fazendo uma tattoo. De henna. A traquinagem não passa disso. Sai na primeira lavada. O que eles querem mesmo é fazer a audiência desafiar a gravidade, ficando o maior tempo possível com o pé fora do chão.

E, com a sequência Obviously” -“Tranny” -“Corrupted”, eles fazem o público pular como se não houvesse amanhã – aliás, amanhã de manhã, já que a maioria acordava cedinho para a escola. Nessa última, Dougie, o mais “coelhinho Duracel” dos pilhados britânico, simula movimentos sexuais, alisando as mãos no tórax e ondulando o corpo com um doce balanço a caminho do mar de fãs. Terminada a faixa, vem a primeira frase em português. “Oi, tudo bem, tudo bom. Bem-bom.” A garotada talvez não tivesse pescado a ambiguidade da expressão “bem-bom”, mas um pai-babá não conteve a risadinha

A banda engata com “Falling in Love”. É o tipo de música que cabe, perfeitamente, em uma daquelas cenas clássicas de um filme de escola norte-americano, em que o mocinho irrompe a cantar no meio do refeitório, trepado nas mesas, com um coro de estudantes – tudo com a naturalidade de quem pede: “Passe o sal, por gentileza”. Quase seis mil corações deram um duplo twist carpado ao longo do número, com a esperança de que a letra melosa fosse direcionada a cada fã em particular.

O nome McFly vem de Martin McFly, da franquia De Volta Para o Futuro. Mas, ao contrário do viajante do tempo interpretado por Michael J. Fox, o britânico se afasta das boy bands do passado. Esqueça os passos coreografados, as megaproduções com cenários e fantasias quase carnavalescos e a tipificação de cada “boy” – um visivelmente mais roqueiro, outro no estereótipo do latino, outro com pinta de “filhinho da mamãe”. Os britânicos, pelo menos para quem não tem know-how de um fã de carteirinha, são mais homogêneos nesse sentido. São apenas eles, no palco, quicando de lá para cá com seus instrumentos, com a boa aparência de quem foi capitão do time durante os tempos de escola. 

As próximas canções foram “Room on the 3rd Floor”, “That Girl”, “Down Goes Another One”, “Star Girl”, “P.O.V.” e “All About You”. Nesta segunda parte a apresentação, a banda dialoga mais entre si. Tom, a pedido dos outros integrantes, rebola no palco, para mostrar que é “shaky-shaky”. Dougie bate um papo com seu baixo em voz de bebê, com se ele fosse sua namoradinha e precisasse ser mimado. Tom pergunta se todo mundo segue a Tom com uma linguinha digna de Gene Simmons, o “diabo” do Kiss – não, eles não se beijam, mas é por pouco: o “bromance” (corruptela para “brother + romance”, adotada para caracterizar afeto entre amigos homens) não vai além de um estalo molhado no pescoço do guitarrista. Danny anuncia “uma canção muito sexy”. Dougie solta um senhor arroto. Eles elogiam os peitinhos (!) das brasileiras. O baterista mostra o que aprendeu em português: “Soltar pum!”. Pequenas cenas que fazem cada ala do Unidos do McFly se sentir trocando uma ideia com os britânicos, de repente não mais os inatingíveis astros internacionais.

Antes do bis, anuncia-se, com falso fatalismo, a última música: literalmente, a faixa “The Last Song”, um pequeno hino pop-rock, que posiciona a banda entre Jonas Brothers e Blink 182. Eles voltam, ainda, para tocar “Lies” e “5 Colours in her Hair”, com Dougie ricocheteando pelo palco, e os guitarristas se contorcendo como uma pomba gira. Com um “massive trank you”, se despedem jogando à plateia pequenos souvenires: inclua aí toalhas encharcadas de suor e até um chafariz de água, gargarejado e cuspido em direção às primeiras filas. O nojo de um é o triunfo de seis mil outros.

mcfly3Harry Judd: “Eu quero beijar cada uma de vocês!”

Numa noite em que bastava estar na casa dos 20 anos para já ser tomado por “tiozinhos e tiazinhas”, o fim da apresentação foi sinal para que as lágrimas começassem a desabar. O público paulistano ganhou a honra de ter ouvido que foram “a melhor audiência que já tivemos no Brasil”. alguém mais cínico desmereceria o cafuné alegando que “eles dizem isso para todas”. Mas, no coquetel molotov de hormônios, cinismo não tinha poder de fogo. Deixa isso para o tal do rock ‘n’ roll.

Agora a gente sabe o duro que ele deu

maio 23, 2009

Texto feito na pressa nossa de cada pauta, para o site da Rolling Stone. Tinha visto o filme há séculos, no Festival de Paulínia, então a memória não era nenhum pão fresquinho quando escrevi. Enfim. Boa mesmo é esta notícia aqui. 

poster simonal final

Wilson Simonal costumava ser o Pelé das rádios. Mas acabou chutado para as últimas divisões da música brasileira.

Na década de 60, fez e aconteceu: regeu um coro de 30 mil pessoas no Maracanãzinho com “Meu Limão, Meu Limoeiro”, levou com um pé nas costas dueto com a sempre intimidante diva do jazz Sarah Vaughan e gozou de popularidade que só encontrava rival à de Roberto Carlos. Dele surgiu, ainda, o bordão “alegria, alegria”, devidamente caetanizado depois.

Mas, a partir da década de 70, sua carreira desancou ladeira abaixo. E desceu o fundo do poço. Lá ficou até a morte do cantor, em 2000, aos 62 anos, por problemas de saúde decorrentes do alcoolismo. Em 1971, um episódio nefasto, que lhe salpicou com a pecha de “dedo-duro da ditadura”, fez com que a breve menção de seu nome disparasse sirenes entre a classe artística. Outrora amado pelas massas, encontrou o fim da linha justamente quando todo um novelo de sucessos ainda estava para se desenrolar à sua frente.

Em cartaz nos cinemas, o documentário Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei, codirigido por Cláudio Manoel (sim, o “Seu Creysson” de Casseta e Planeta), Micael Langer e Calvito Leal, quer ver essa história passada a limpo – e não em nuvens brancas. E, em 84 minutos, vai atrás do vespeiro que, por quase quatro décadas, ninguém fez questão de cutucar. Seja para ver se dali saía o mel de um dos artistas mais populares que o país já teve, seja para encontrar o fel de um colaborador do regime militar, num momento em que vários artistas iam parar no saguão do aeroporto, rumo ao exílio; ou, pior, num lugar onde o buraco era mais embaixo: os famigerados porões do DOPS.

Simonal 12

Pai dos também músicos Max de Castro e Simoninha, o cantor foi comentado, no filme, por detratores da época, como Ziraldo, Sérgio Cabral e Jaguar – todos d’O Pasquim, jornal famoso por jogar política e sátira na mesma panela para ver no que dava. Com ou sem mea culpa. Já Boni, então chefão da Rede Globo, confessa que o cantor chegara a ser boicotado na emissora. Simonal pegava mal, com o perdão da rima. Do outro lado, foi lambuzado de elogios por Pelé, Nelson Motta e Chico Anysio – que viu a queda do típico “boa-praça” carioca como fruto “de um tempo de intolerância”.

A acusação de ser informante do SNI (Serviço Nacional de Informações) começou quando Simonal quis dar basta a uma coceira chatinha: desconfiava que seu contador estava o passando para trás. O músico, que – hoje a tese mais difundida – não bambeava nem para a direita, nem para a esquerda, tinha uns camaradas no DOPS. Alienado (o que não necessariamente quer dizer “aliado”) dos choques políticos do país, mandou um segurança seu (o tal agente do DOPS) ir lá “dar uma coça” no sujeito. E o cara chamou os amigos. Todos do órgão de repressão. Entrevistado pelos documentaristas, o contador, hoje recluso, negou a denúncia – alegou ter inventado a confissão após uma dura dos oficiais.

Daí para Simonal ser acusado de entregar diversos colegas da classe artística foi um pulo. E a queda foi feia. Isso tudo sem que um nome sequer de “dedurado” tenha surgido. Em entrevista ao site da Rolling Stone Brasil, Max de Castro lamenta “pelas coisas que aconteceram como aconteceram”. Mas diz que seu pai dançou no tribunal histórico sem ter direito de se defender. “Ele acabou sendo vítima do processo.” Mas e quanto à fatídica noite de 24 de agosto de 1971, quando agentes do DOPS estacionaram o Opala do artista à porta da casa do contador Raphael Viviani? “A atitude que ele tomou naquele momento…” Do outro lado da linha, uma pausa. “A gente tem que entender que todo ser humano erra. Errar faz parte da essência humana.” Max Também não teve vontade alguma de encarar o pivô do baque do pai. “Não tenho nenhum vínculo emocional.”

A tese do filme é clara: por ingenuidade, alienação ou pleno desinteresse, Simonal não ligava para política. Sua vida não era Ipanema. Definitivamente, ele não fazia, sequer o desejava, parte da intelligentzia carioca. Sua boemia era suburbana – e com orgulho. Para ele, as coisas se resolviam no braço, “entre homens”, mas isso não quer dizer que ele fez jus à fama de “dedo-duro” que tanto o assombrou.

O documentário não dá um ponto final no caso, mas abre novo capítulo de um livro que por muito tempo o Brasil tentou esconder na prateleira mais alta, da estante mais afastada. Mais do que ir atrás dos porquês,  é vital entender como o país conseguiu despachar “para a Sibéria” (termo usado pelo já falecido jornalista Artur da Távola) um artista tão onipresente nas paradas brasileiras.

O assunto não era muito tocado na casa dos Simonal, “pois éramos pequenos para entender”, disse Max. Mas o músico lembra de que a família teve de deixar Ipanema (“coração da intelligentzia carioca; onde o clima era muito hostil”) para “fugir das perseguições”. Acabaram se mudando para São Paulo, em parte para aliviar “os problemas emocionais que minha mãe teve”.

Além do documentário, no que já vem sendo chamado de “ano Simonal”, está para sair uma caixa com nove álbuns feitos entre 1961 e 1971 e a biografia Nem Vem Que Não Tem – A Vida e o Veneno de Wilson Simonal, do jornalista Ricardo Alexandre. Para Max, os 84 minutos de fita não teriam como dar conta de tanta história. “Assistindo ao documentário, parece que todo sucesso de meu pai aconteceu da noite para o dia. Mas foram anos. Desde shows em boates, para público de 40, ou quando ele estreou no Beco das Garrafas (famoso pico da boemia carioca da época, em Copacabana) até os 30 mil do Maracanãzinho.”

Simonal 08

Simonal, para o filho, deixou seu legado, ainda que “muita gente – principalmente os que nasceram dos anos 1970 para cá – não pudesse nomear, reconhecer a referência”. Djavan, por exemplo, começou cantando o repertório do autor de “Nem Vem Que Não Tem” em bares de Alagoas. “O próprio Luiz Melodia chegou para mim, em uma pré-estreia (do doc) no Rio, e disse que foi influenciado por meu pai, no início da carreira. Mas de repente alguns músicos sacaram que talvez não fosse tão bacana citar meu pai como referência. Isso poderia queimar o filme do cara.”

A iniciativa de Cláudio Manoel em levar o filme adiante foi, ainda hoje, um ato corajoso, afirma Max. Desde a primeira reunião, em 2001, muita gente tentou murchar o projeto. E não só antigos difamadores do cantor. “Mesmo amigos de Simonal, que temiam o tipo de abordagem que seria feita. Cláudio acabou vendendo o apartamento (para realizar a obra). Foi algo tipo, ‘mexeram no meu brio, agora eu vou fazer de qualquer jeito!’”, contou Max.

Para o músico, nascido um ano depois do malfadado capítulo da história da MPB, “o que mais me saltou aos olhos foi a questão de Simonal ser o primeiro popstar negro do país”. Ele continua: “Outro dia mesmo, um repórter negro veio me entrevistar. Eu cheguei e disse: ‘Bom, em 1967, meu pai tinha um programa no horário nobre da Record, a líder da época. E hoje? Que artista negro tem isso?’. O cara ficou sem resposta.”

Pois é, Simonal. Talvez  agora, finalmente, o Brasil saiba o duro que você deu.

Who let the dogs dance, who who who

maio 18, 2009

“O Comitê”, 1968

maio 17, 2009

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Confesso (tomates à mão, rápido!) que nunca fui muito fã de Pink Floyd. Talvez tenha visto muito nova, pequei em não rever até hoje, mas o fato é que The Wall não fez meu queixo dar beijinho no asfalto.  

Mas um filme em especial sempre me encucou. Com trilha feita pela banda (recém-separada de Syd Barret), O Comitê foi lançado em 1968. E esse, fatalmente, foi o ano que não acabou para os fãs da geleia rosa, pois aquelas músicas jamais haviam sido prensadas em vinil.

E só piorava: dirigida pelo estreante Peter Sykes e com participação da malucaça The Crazy World of Arthur Brown, a fita d’O Comitê tinha sumido do mapa. Ido copular cateto com hipotenusa no Triângulo das Bermudas. Se perdido na poltrona nova da Hebe. Puft. Gone. Pirate Bay algum quebrava esse galho. Virou até lenda urbana.

Você sabe o que é, para um fã, saber que existe um pedaço do seu ídolo –perdido para sempre? Não queira.

Mas em 2005, como se fosse um urso polar em Lost explicado várias temporadas depois, a produção saiu em DVD. Ouvi falar dela por acaso, ano passado, mas não encontrei em locadora alguma do Rio e nem me dei ao trabalho de procurar na web (talvez porque, na época, minha internet fosse tão ligeira como uma senhorinha atravessando a Av. Paulista em seu andador).  

Dia desses, encontrei o  DVD após virar sócia da 2001 – se não a mãe de todas as locadoras fodaças, pelo menos a tia loucona que sempre te abastece com umas paradas meio psicodélicas, como é o caso deste filme. E, muito mais do que “um filme para fãs do Pink Floyd”, a fita é obrigatória para qualquer pessoa que falou, fala ou falará: “Nasci na década errada”.

Nada por acaso feita em 1968, a produção britânica é um filmeco indie de parcos 55 minutos, feito em P&B e influenciado pela visão de Harold Pinter e do psiquiatra R. D. Laing. Ou seja, coisa de doidão. E de doidão que quer ser levado a sério.

O protagonista, Paul Jones, era o vocalista do Manfred Mann, grupo  do sul-africano Manfred Lubowitz.

Agora, sobre o enredo: os 45 minutos finais são ocupados por uma questão filosófica que, francamente, mais parece coisa de um estudante de cinema da PUC que acabou de ler O Processo, do Kafka. Daquele tipo que quis fazer seu próprio filme sobre o ônus da burocracia e do julgamento que nunca se sabe ao certo de onde –e por quê, para quem– vêm.

Alguns closes sinistros, pausas “reflexivas”, papo contracultural. Climinha soturno. E nonsense. Tem os tais comitês, com “os escolhidos” (algo meio Iniciativa Dharma) pelo governo para deliberar questões aleatórias. Como o chefe do escritório de Jones, que lembra de, quando jovem, ter sido selecionado para um comitê –e lá passou dias decidindo qual era a mais redonda entre cinco laranjas

arthurThe Crazy World of Arthur Brown

Já os 10 minutos iniciais são geniais. Temos este cara ao volante que se põe a falar, “em vez de pensar”, como o personagem (no caso, um jovem pedindo carona) de Jones refletiria mais tarde. Então eles param no meio de uma floresta, a pedido do próprio motorista. Instala-se um desassossego, uma sensação clara de “vai dar merda” –colaborado, claro, pela sinopse na contracapa do DVD, que já nos antecipa um “assassinato bizarro“.

Então, talvez por tédio, quem sabe pelo tipo de perturbação filosófica incapaz de fazer o mesmo sentido hoje, nosso carona vai lá e decapita o motorista com o capô do carro.

A princípio, ele nos parece uma versão chá-das-cinco do Bandido da Luz Vermelha –uma anarquia menos suja e mais metódica, digamos assim. Ele passeia um pouco com a cabeça. Mas então ele vai lá e, pimba, a recostura de volta. E ela volta a funcionar.  A falar, “em vez de pensar”.

Estica-e-puxa

maio 11, 2009

Tá de bobeira? Entãããooo faaaçaaa seeeuuu YooouuuTuuube.

Não consigo cansar. Você pega um vídeo qualquer e esse site o estiiicaaa em vários quadros, ou embaralha tudo – se você quiser. A minha escolha foi Cindy Lauper em Goonies. Porque comigo é assim: ou 8 ou 80’s.

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Via Delicious Ghost.

Palavra desencantada

maio 6, 2009

As palavras saem de mim a fórceps. Para alguns vêm com facilidade. Não é o  meu caso. O processo é sempre penoso. Sempre forçado. Nunca natural – por mais urgente que  me seja colocá-las para fora. Sou sua bulímica das letras: enfio o dedo garganta adentro para regurgitar uma ou duas tiradas dignas de um concurso de sósias do Woody Allen comandado por Raul Gil. Fistfucking gastrogramatical. Às vezes a inspiração até fica para jantar, mas geralmente dispensa o drinque afterwards. Quando muito, não faz amor comigo. Me fode. Como foderia um hidrante, minha melhor amiga ou uma prostituta caolha. Sem sentimento. A arte de fazer graça, sem soar de graça, é para poucos. E não venha o leitor me ter como o tipo que mitiga uísque no balcão, desejosa de um talento que nunca me apalpou a bunda (porque com a literatura, sabe-se bem, o buraco é mais embaixo), mas que pode a qualquer momento atravessar a porta do bar e oferecer um best-seller on the rocks. Não é isso. É aquilo. Ah, esquece. Se eu tivesse habilidade para me explicar, esse texto perderia a razão de ser.

E pensar que tudo começou por ter começado a ler lido as 30 primeiras páginas, na Livraria Cultura, de Eles foram para Petrópolis – livro que traz série de correspondências eletrônicas trocadas entre Ivan Lessa e Mario Sergio Conti.  Dois feras. Para eles, aí sim, as palavras parecem se arreganhar logo no primeiro encontro. Daí a chegar aos anais da história… 

Ui-wando com o pecado original

maio 5, 2009

Resenha feita nas coxas (e “nas coxas” é expressão-chave aqui), para o site da Rolling Stone, sobre Wando na Virada Cultural 2009. O texto original você pega aqui e balança. Enjoy.

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“O osso do ofício está lá. Bem no meio das pernas.” Essa a blogueira ouviu de uma senhorinha.

Ao  longo da noite, mais impropérios da mulherada sênior, desses capazes de fazer tomate corar. Eis a poética de Wando para as massas: que seja eterno enquanto duro.

E ele vem cheio de malemolência, calça e camisa pretas, corrente de ouro com uma cruz dependurada sobre o peitoral. Buço umidecido. Claro. 

Pontualmente às 23h30, Wando está a postos para fazer o que sabe de melhor. Só não se engane: para ser canastrão, tem que ter disposição. Para ser canastrão, tem que ter habilidade. E tudo isso ele tem de sobra. Taí um quinta de primeira.

No palco do Largo do Arouche, o B de Brega piscava em neón, com artistas sem o menor pudor em entoar letras que rimam “paixão” com “solidão”.

Brega, claro, é uma questão de ponto de vista. Muitos jovens baixaram por lá, etiquetando como hype este tão dolorido naco que une braço e antebraço –ah, Wando, só você entende nossa dor de cotovelo.

Mas as senhorinhas, ah, com elas não tinha para ninguém: espremida feito purê de batata contra a grade, a mulherada entre 40 a 70 anos formava uma verdadeira Muralha da China, sem deixar ninguém passar.

Wando, que faz a fama e com muito prazer deita nessa cama, sabia provocar. E como.

De cara, profere sua frase favorita: “Tá todo mundo com calcinha na mão aí?”.

A resposta é um libera-geral de estrogênio. Da calçola da vó ao fio-dental da neta (ou o contrário –século 21, aí vamos nós), os pedaços de pano chacoalharam no ar como hélice de helicóptero.

Preparar, apontar… água. Porque (e peço licença para citar dona Matilde, 54 anos, “fã do cantor desde os 69”) a hora é “de ficar molhadinha”. Assim começa a tempestade de roupas de baixo para cima do cantor. Chove, chuva.

O galanteador pega um modelito preto, dá um cheirinho, enxuga suor… Cartas certas para levar o mulherio (e os gays, que por sinal foram bem recebidos por um Wando reloaded, com mente aberta para os novos tempos) à loucura.

Todos os macetes do Don Juan do Arouche estavam lá. O sorriso malandro, como quem diz “vem cá, mulher!” após um tapinha na bunda. As caras e bocas. Tiradas como “esta música vai para aquela que sabe quando cruzar as pernas e o momento exato para descruzá-las”.

Pouco importou se, em termos de música, o artista só lançasse mão de playback e um “maestro”, que tocava as melodias mais simples em sua guitarra.

Aquilo ia muito além de um show de música. Era uma declaração de amor, uma suruba sentimental, um altar coletivo, com centenas de  voluntárias à poligamia ui-wando de paixão.

No repertório, o cancioneiro do homem ciente de que chorar e sofrer por amor é coisa de macho. Tese validada em versos como “estou apaixonado/ e este amor é tão grande”, “eu sei que vou te amar” (com direito à cola na hora de ler o “Soneto da Fidelidade”, de Vinicius de Moraes) e “você é luz, é raio, estrela e luar”, do clássico “Fogo e Paixão”.

Já no começo do show, uma jovem conseguiu furar o bloqueio e se estabelecer na área VIP. Jessica Albuquerque diz ter apenas 20 anos, mas deve à avó, já falecida e de nome Wanda, o amor pelo músico breg… opa, popular.

Na frente do palco, a moça esgoelou-se até dizer chega –e, como uma BBB “made in Arouche”, adorou a atenção recebida. Posava com gosto para as câmeras.

Também serviu de pedágio afetivo entre o cantor e o resto da plateia –as mulheres jogavam a calcinha, que caía no chão e era relançada ao palco por Jessica (que abaixou um pouco a minissaia jeans para provar que o próprio modelo, vermelho de algodão, tinha ido parar lá em cima). 

Ao resto da imprensa, Jessica se apresentou com outros nomes. E novas histótias. Performance artística? Lorotas de uma alucinada? Vá saber.

Provocativo, Wando dedicou uma canção, interpretada à capela, “às mulheres gostosas”, e mandou pérolas como “se segura nesse galho que o cacho vai tremer”.

E parece ser moda entre os reis arremessar rosas: assim como Roberto Carlos, a atração do Largo do Arouche deu o show por terminado e disparou à sua corte real os botões rubros.

Também jogou maçãs e uma variedade de modelos de calcinhas de dar inveja a Kátia Flávia, a godiva que vai da calcinha framboesa à Exocet.

a blogueira ganhou sua maçã ainda no meio do show. E uma maçã endereçada jogada especialmente para ela, com direito a piscadela e olhar de latin lover.

“Você tem ideia de que todas as mulheres daqui queriam ser você, né?”, ouviu de um fotógrafo. Ah, Wando, Wando, Wando. Pelo visto, o verdadeiro pecado original.