Palavra desencantada

As palavras saem de mim a fórceps. Para alguns vêm com facilidade. Não é o  meu caso. O processo é sempre penoso. Sempre forçado. Nunca natural – por mais urgente que  me seja colocá-las para fora. Sou sua bulímica das letras: enfio o dedo garganta adentro para regurgitar uma ou duas tiradas dignas de um concurso de sósias do Woody Allen comandado por Raul Gil. Fistfucking gastrogramatical. Às vezes a inspiração até fica para jantar, mas geralmente dispensa o drinque afterwards. Quando muito, não faz amor comigo. Me fode. Como foderia um hidrante, minha melhor amiga ou uma prostituta caolha. Sem sentimento. A arte de fazer graça, sem soar de graça, é para poucos. E não venha o leitor me ter como o tipo que mitiga uísque no balcão, desejosa de um talento que nunca me apalpou a bunda (porque com a literatura, sabe-se bem, o buraco é mais embaixo), mas que pode a qualquer momento atravessar a porta do bar e oferecer um best-seller on the rocks. Não é isso. É aquilo. Ah, esquece. Se eu tivesse habilidade para me explicar, esse texto perderia a razão de ser.

E pensar que tudo começou por ter começado a ler lido as 30 primeiras páginas, na Livraria Cultura, de Eles foram para Petrópolis – livro que traz série de correspondências eletrônicas trocadas entre Ivan Lessa e Mario Sergio Conti.  Dois feras. Para eles, aí sim, as palavras parecem se arreganhar logo no primeiro encontro. Daí a chegar aos anais da história… 

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2 Respostas to “Palavra desencantada”

  1. Aluizio Says:

    Você escreve demais…. juntas-se letras, formam palavras… sem nexo mas com emoção…?!!!

  2. Nathalya Buracoff Says:

    Flor, também sou jornalista e lendo seu post, principalmente as primeiras linhas, lembrei da Carta ao Zézim, de Caio Fernando Abreu, que leio nos momentos em que entro em crise com o jornalismo.

    Veja este trecho “Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho — e posso estar enganado — que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente.”

    Acho que é bem por aí.
    Abraços,

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