Agora a gente sabe o duro que ele deu

Texto feito na pressa nossa de cada pauta, para o site da Rolling Stone. Tinha visto o filme há séculos, no Festival de Paulínia, então a memória não era nenhum pão fresquinho quando escrevi. Enfim. Boa mesmo é esta notícia aqui. 

poster simonal final

Wilson Simonal costumava ser o Pelé das rádios. Mas acabou chutado para as últimas divisões da música brasileira.

Na década de 60, fez e aconteceu: regeu um coro de 30 mil pessoas no Maracanãzinho com “Meu Limão, Meu Limoeiro”, levou com um pé nas costas dueto com a sempre intimidante diva do jazz Sarah Vaughan e gozou de popularidade que só encontrava rival à de Roberto Carlos. Dele surgiu, ainda, o bordão “alegria, alegria”, devidamente caetanizado depois.

Mas, a partir da década de 70, sua carreira desancou ladeira abaixo. E desceu o fundo do poço. Lá ficou até a morte do cantor, em 2000, aos 62 anos, por problemas de saúde decorrentes do alcoolismo. Em 1971, um episódio nefasto, que lhe salpicou com a pecha de “dedo-duro da ditadura”, fez com que a breve menção de seu nome disparasse sirenes entre a classe artística. Outrora amado pelas massas, encontrou o fim da linha justamente quando todo um novelo de sucessos ainda estava para se desenrolar à sua frente.

Em cartaz nos cinemas, o documentário Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei, codirigido por Cláudio Manoel (sim, o “Seu Creysson” de Casseta e Planeta), Micael Langer e Calvito Leal, quer ver essa história passada a limpo – e não em nuvens brancas. E, em 84 minutos, vai atrás do vespeiro que, por quase quatro décadas, ninguém fez questão de cutucar. Seja para ver se dali saía o mel de um dos artistas mais populares que o país já teve, seja para encontrar o fel de um colaborador do regime militar, num momento em que vários artistas iam parar no saguão do aeroporto, rumo ao exílio; ou, pior, num lugar onde o buraco era mais embaixo: os famigerados porões do DOPS.

Simonal 12

Pai dos também músicos Max de Castro e Simoninha, o cantor foi comentado, no filme, por detratores da época, como Ziraldo, Sérgio Cabral e Jaguar – todos d’O Pasquim, jornal famoso por jogar política e sátira na mesma panela para ver no que dava. Com ou sem mea culpa. Já Boni, então chefão da Rede Globo, confessa que o cantor chegara a ser boicotado na emissora. Simonal pegava mal, com o perdão da rima. Do outro lado, foi lambuzado de elogios por Pelé, Nelson Motta e Chico Anysio – que viu a queda do típico “boa-praça” carioca como fruto “de um tempo de intolerância”.

A acusação de ser informante do SNI (Serviço Nacional de Informações) começou quando Simonal quis dar basta a uma coceira chatinha: desconfiava que seu contador estava o passando para trás. O músico, que – hoje a tese mais difundida – não bambeava nem para a direita, nem para a esquerda, tinha uns camaradas no DOPS. Alienado (o que não necessariamente quer dizer “aliado”) dos choques políticos do país, mandou um segurança seu (o tal agente do DOPS) ir lá “dar uma coça” no sujeito. E o cara chamou os amigos. Todos do órgão de repressão. Entrevistado pelos documentaristas, o contador, hoje recluso, negou a denúncia – alegou ter inventado a confissão após uma dura dos oficiais.

Daí para Simonal ser acusado de entregar diversos colegas da classe artística foi um pulo. E a queda foi feia. Isso tudo sem que um nome sequer de “dedurado” tenha surgido. Em entrevista ao site da Rolling Stone Brasil, Max de Castro lamenta “pelas coisas que aconteceram como aconteceram”. Mas diz que seu pai dançou no tribunal histórico sem ter direito de se defender. “Ele acabou sendo vítima do processo.” Mas e quanto à fatídica noite de 24 de agosto de 1971, quando agentes do DOPS estacionaram o Opala do artista à porta da casa do contador Raphael Viviani? “A atitude que ele tomou naquele momento…” Do outro lado da linha, uma pausa. “A gente tem que entender que todo ser humano erra. Errar faz parte da essência humana.” Max Também não teve vontade alguma de encarar o pivô do baque do pai. “Não tenho nenhum vínculo emocional.”

A tese do filme é clara: por ingenuidade, alienação ou pleno desinteresse, Simonal não ligava para política. Sua vida não era Ipanema. Definitivamente, ele não fazia, sequer o desejava, parte da intelligentzia carioca. Sua boemia era suburbana – e com orgulho. Para ele, as coisas se resolviam no braço, “entre homens”, mas isso não quer dizer que ele fez jus à fama de “dedo-duro” que tanto o assombrou.

O documentário não dá um ponto final no caso, mas abre novo capítulo de um livro que por muito tempo o Brasil tentou esconder na prateleira mais alta, da estante mais afastada. Mais do que ir atrás dos porquês,  é vital entender como o país conseguiu despachar “para a Sibéria” (termo usado pelo já falecido jornalista Artur da Távola) um artista tão onipresente nas paradas brasileiras.

O assunto não era muito tocado na casa dos Simonal, “pois éramos pequenos para entender”, disse Max. Mas o músico lembra de que a família teve de deixar Ipanema (“coração da intelligentzia carioca; onde o clima era muito hostil”) para “fugir das perseguições”. Acabaram se mudando para São Paulo, em parte para aliviar “os problemas emocionais que minha mãe teve”.

Além do documentário, no que já vem sendo chamado de “ano Simonal”, está para sair uma caixa com nove álbuns feitos entre 1961 e 1971 e a biografia Nem Vem Que Não Tem – A Vida e o Veneno de Wilson Simonal, do jornalista Ricardo Alexandre. Para Max, os 84 minutos de fita não teriam como dar conta de tanta história. “Assistindo ao documentário, parece que todo sucesso de meu pai aconteceu da noite para o dia. Mas foram anos. Desde shows em boates, para público de 40, ou quando ele estreou no Beco das Garrafas (famoso pico da boemia carioca da época, em Copacabana) até os 30 mil do Maracanãzinho.”

Simonal 08

Simonal, para o filho, deixou seu legado, ainda que “muita gente – principalmente os que nasceram dos anos 1970 para cá – não pudesse nomear, reconhecer a referência”. Djavan, por exemplo, começou cantando o repertório do autor de “Nem Vem Que Não Tem” em bares de Alagoas. “O próprio Luiz Melodia chegou para mim, em uma pré-estreia (do doc) no Rio, e disse que foi influenciado por meu pai, no início da carreira. Mas de repente alguns músicos sacaram que talvez não fosse tão bacana citar meu pai como referência. Isso poderia queimar o filme do cara.”

A iniciativa de Cláudio Manoel em levar o filme adiante foi, ainda hoje, um ato corajoso, afirma Max. Desde a primeira reunião, em 2001, muita gente tentou murchar o projeto. E não só antigos difamadores do cantor. “Mesmo amigos de Simonal, que temiam o tipo de abordagem que seria feita. Cláudio acabou vendendo o apartamento (para realizar a obra). Foi algo tipo, ‘mexeram no meu brio, agora eu vou fazer de qualquer jeito!’”, contou Max.

Para o músico, nascido um ano depois do malfadado capítulo da história da MPB, “o que mais me saltou aos olhos foi a questão de Simonal ser o primeiro popstar negro do país”. Ele continua: “Outro dia mesmo, um repórter negro veio me entrevistar. Eu cheguei e disse: ‘Bom, em 1967, meu pai tinha um programa no horário nobre da Record, a líder da época. E hoje? Que artista negro tem isso?’. O cara ficou sem resposta.”

Pois é, Simonal. Talvez  agora, finalmente, o Brasil saiba o duro que você deu.

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