Pop goes my heart

Nada como Lou Reed (“Metal Machine Music”, no mínimo) na segunda, um Mozartezinho de leve na terça, dodecafonismo na quarta e… McFly na quinta. Yeah, baby. Pop to the core. Para quem acabou de voltar de Marte, McFly é a versão “do mal” do Jonas Brothers. Para quem acabou de voltar de Plutão, Jonas Brothers é o novo Hanson – três irmãos bonitinhos que fazem a cabeça da garotada. Fui cobrir o show no Via Funchal, quinta (28), e fiz resenha. A versão “gêmea boazinha” taqui, no site da Rolling Stone. A gêmea malvada, versão uncut, veio pra cá. As fotos são do Stephan Solon. Saboreie com moderação.

mcfly

Não se deixe levar pelas aparências. A turbe de garotas (maioria) e garotos (poucos, mas páreos em nível de histeria) que se aglomerou na noite de quinta, 28, na Via Funchal, para o show dos britânicos do McFly, pode parecer inofensiva, a julgar pelas espinhas no rosto e altura que ainda espichará bons centímetros nos próximos anos. Entre os seis mil na plateia da casa de shows paulistana, inclusive alguns pais em dupla jornada de babá-motorista da prole, a idade média era de quem tinha chegado aos dois dígitos de idade há, no máximo, cinco anos. Mas a fúria dos jovenzinhos para defender com unhas (quase sempre coloridas) e dentes (de leite não faz tanto tempo assim) seus ídolos é tão intensa que, por um instante, leva a repórter à reflexão. Será que, perto disso, uma festinha do Hell’s Angels seria tão intimidante quanto um patinho de borracha?

O show começa cinco aceitáveis minutinhos após o horário marcado, 21h30, cerca de 100 horas depois da apresentação de outro fenômeno pop atual, o Jonas Brothers, na capital paulista. E a promessa, rezam a lenda e o marketing, é uma reedição da disputa sessentista entre os bonzinhos Beatles (ao menos no começo de carreira) e os rebeldes Rolling Stones. Enquanto os irmãos da Disney vestem a auréola do pop, adotando o polêmico anel de virgindade, Tom Fletcher (vocal e guitarra), Danny Jones (vocal e guitarra), Dougie Poynter (vocal e baixo) e Harry Judd (bateria) gastam 1h30 para fazer um “pop ‘n’ roll do mal”.

Com reforço do tecladista Jamie Norton (nota dissonante ao quarteto, com sua aparência quase andrógina e jeito de pacato cidadão), o grupo seguiu repertório semelhante ao tocado em Manaus, Fortaleza e Recife, cidades pelas quais já passaram na série de shows pelo país – eles estiveram por aqui há poucos meses e voltaram graças à insistência de fãs, que chegaram a organizar abaixo-assinado pela volta dos rapazes. Para abrir a noite, “One for the Radio”, que de cara mostra a que a banda veio: com faixas banhadas em elixir pop e apoiadas por extremo carisma dos integrantes, o McFly faz por merecer os dias de jejum no recreio, para que muitas meninas pudessem gastar a mesada com álbuns, pôsteres e afins.

Mostrando-se cientes de que a crise na indústria fonográfica não está para brincadeira, os britânicos entre 21 e 24 anos sabem que precisam tratar cada cliente-fã como se fosse o único. Não à toa, Harry, escondido na bateria a maior parte do tempo, se interrompe certa hora para falar que “gostaria de beijar cada uma de vocês” (a cortesia se restringe ao público feminino, porque eles são rebeldes, mas nem tanto).

mcfly2 Saca o pontinho  branco ? Olá, Danny

À segunda música, “Everybody Knows, sucede-se “Do Ya” – uma aula de pop, com melodia que remete aos grupos vocais dos anos 1950 e a despretensão na medida certa para atingir os ouvidos dos mais taciturnos críticos do rock. Porque uma coisa é importante compreender: se é para ver o McFly em ação, melhor jogar o preconceito a uns três metros de seu corpo. Apesar da etiqueta “rebelde”, conquistada em grande parte pela comparação com a fábrica de hits da Disney Jonas Brothers, o McFly é tão malvado como Mickey Mouse fazendo uma tattoo. De henna. A traquinagem não passa disso. Sai na primeira lavada. O que eles querem mesmo é fazer a audiência desafiar a gravidade, ficando o maior tempo possível com o pé fora do chão.

E, com a sequência Obviously” -“Tranny” -“Corrupted”, eles fazem o público pular como se não houvesse amanhã – aliás, amanhã de manhã, já que a maioria acordava cedinho para a escola. Nessa última, Dougie, o mais “coelhinho Duracel” dos pilhados britânico, simula movimentos sexuais, alisando as mãos no tórax e ondulando o corpo com um doce balanço a caminho do mar de fãs. Terminada a faixa, vem a primeira frase em português. “Oi, tudo bem, tudo bom. Bem-bom.” A garotada talvez não tivesse pescado a ambiguidade da expressão “bem-bom”, mas um pai-babá não conteve a risadinha

A banda engata com “Falling in Love”. É o tipo de música que cabe, perfeitamente, em uma daquelas cenas clássicas de um filme de escola norte-americano, em que o mocinho irrompe a cantar no meio do refeitório, trepado nas mesas, com um coro de estudantes – tudo com a naturalidade de quem pede: “Passe o sal, por gentileza”. Quase seis mil corações deram um duplo twist carpado ao longo do número, com a esperança de que a letra melosa fosse direcionada a cada fã em particular.

O nome McFly vem de Martin McFly, da franquia De Volta Para o Futuro. Mas, ao contrário do viajante do tempo interpretado por Michael J. Fox, o britânico se afasta das boy bands do passado. Esqueça os passos coreografados, as megaproduções com cenários e fantasias quase carnavalescos e a tipificação de cada “boy” – um visivelmente mais roqueiro, outro no estereótipo do latino, outro com pinta de “filhinho da mamãe”. Os britânicos, pelo menos para quem não tem know-how de um fã de carteirinha, são mais homogêneos nesse sentido. São apenas eles, no palco, quicando de lá para cá com seus instrumentos, com a boa aparência de quem foi capitão do time durante os tempos de escola. 

As próximas canções foram “Room on the 3rd Floor”, “That Girl”, “Down Goes Another One”, “Star Girl”, “P.O.V.” e “All About You”. Nesta segunda parte a apresentação, a banda dialoga mais entre si. Tom, a pedido dos outros integrantes, rebola no palco, para mostrar que é “shaky-shaky”. Dougie bate um papo com seu baixo em voz de bebê, com se ele fosse sua namoradinha e precisasse ser mimado. Tom pergunta se todo mundo segue a Tom com uma linguinha digna de Gene Simmons, o “diabo” do Kiss – não, eles não se beijam, mas é por pouco: o “bromance” (corruptela para “brother + romance”, adotada para caracterizar afeto entre amigos homens) não vai além de um estalo molhado no pescoço do guitarrista. Danny anuncia “uma canção muito sexy”. Dougie solta um senhor arroto. Eles elogiam os peitinhos (!) das brasileiras. O baterista mostra o que aprendeu em português: “Soltar pum!”. Pequenas cenas que fazem cada ala do Unidos do McFly se sentir trocando uma ideia com os britânicos, de repente não mais os inatingíveis astros internacionais.

Antes do bis, anuncia-se, com falso fatalismo, a última música: literalmente, a faixa “The Last Song”, um pequeno hino pop-rock, que posiciona a banda entre Jonas Brothers e Blink 182. Eles voltam, ainda, para tocar “Lies” e “5 Colours in her Hair”, com Dougie ricocheteando pelo palco, e os guitarristas se contorcendo como uma pomba gira. Com um “massive trank you”, se despedem jogando à plateia pequenos souvenires: inclua aí toalhas encharcadas de suor e até um chafariz de água, gargarejado e cuspido em direção às primeiras filas. O nojo de um é o triunfo de seis mil outros.

mcfly3Harry Judd: “Eu quero beijar cada uma de vocês!”

Numa noite em que bastava estar na casa dos 20 anos para já ser tomado por “tiozinhos e tiazinhas”, o fim da apresentação foi sinal para que as lágrimas começassem a desabar. O público paulistano ganhou a honra de ter ouvido que foram “a melhor audiência que já tivemos no Brasil”. alguém mais cínico desmereceria o cafuné alegando que “eles dizem isso para todas”. Mas, no coquetel molotov de hormônios, cinismo não tinha poder de fogo. Deixa isso para o tal do rock ‘n’ roll.

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