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O dia em que Jean-Luc Godard se juntou à Aliança Galáctic

junho 12, 2009

Cara é gente boa.  E eu já chamei de Mallu Magalhães do cinema. Taking that back.

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Orçamento de Homem-Aranha 3: R$ 500 milhões. Vicky Cristina Barcelona: R$ 30 milhões. Apenas o Fim: algo em torno de R$ 8 mil.

Sam Raimi, Woody Allen e Matheus Souza dirigiram, respectivamente, as três obras acima. Óbvia é a diferença entre a primeira, blockbuster até o caroço, e a segunda, do cineasta que fez do óculos de aros grossos uma espécie de crachá do movimento indie.

Souza gastou o equivalente a 0,0016% e 0,027% do custo desses filmes, nesta ordem, para sua estreia no cinema. Rapazote que cursa o penúltimo período de Cinema da PUC-RJ, ele chegou a rifar uma garrafa de uísque para ajudar a contar as últimas horas do relacionamento de um casal, vivido por Érika Mader (a gatinha que resolve sumir do mapa) e Gregório Duvivier (o nerd com – finja surpresa – óculos de aros grossos). Com uma única locação (a faculdade do diretor estreante) e equipe formada basicamente por estudantes, além da mão de ouro da produtora Mariza Leão (Meu Nome Não É Johnny), o filme, que entra em cartaz nesta sexta, 12, mandou bem nos festivais. Tanto na Mostra de São Paulo como no Festival do Rio, foi eleito melhor filme no voto popular. Fora isso, rendeu ao universitário cafunés de dois bambas do cinema brasileiro: Bruno Barreto e Domingos Oliveira – esse, além de lhe ter entregado a direção da nova montagem de Confissões de Adolescente, dá ao pupilo conselhos amorosos (“o melhor jeito de reconquistar uma garota é com uma dúzia de rosas brancas”) e roteiros “que adoraria que eu dirigisse”. Ao que tudo indica, Apenas o Fim é só o começo para Souza.

Uma pane na Telefônica deixou na mão os telefones de boa parte de São Paulo, onde fica a redação da Rolling Stone Brasil, justo no dia em que a reportagem do site marcou para bater um papo com o diretor. Nenhum problema para alguém a quem as referências pop vêm tão frenéticas como um carrão-robô do Transformers. Cria da geração online – há menos de três anos ele precisaria de uma identidade falsa para comprar uma cerveja -, Souza terminou a entrevista por e-mail. Nada mais normal para o garoto que, no roteiro de Apenas o Fim, cita de Jean-Luc Godard a Star Wars com a naturalidade de quem faz biquinho francês para reproduzir um diálogo entre os robôs C-3PO e R2-D2.

E lá se foram meses desde que Apenas o Fim estreou, no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo. O que você está fazendo agora?

Estou comendo muito biscoito de polvilho e miojo com ovo feito no micro-ondas. É só isso que tenho tido tempo de comer nos últimos dias. Escrevi o roteiro para uma revista em quadrinhos que será publicada no site Oi Quadrinhos e faço sete matérias na faculdade (daquelas que a gente adia pro final do curso). Estou também dirigindo a nova montagem para o teatro de Confissões de Adolescente, a primeira que não será dirigida pelo Domingos Oliveira. A peça deve estrear no Teatro das Artes (Rio de Janeiro) em agosto, com texto adaptado por mim e pela Clarice Falcão. Na área do cinema, além do lançamento comercial do Apenas o Fim, preparo dois novos filmes.

Depois do sucesso do filme, você virou tipo um superstar na faculdade?

Os professores me tratam como qualquer outro aluno: me dão falta, pegam no pé etc. Mas a maioria compreende. Quando eu perco um trabalho importante por estar num festival, por exemplo, me dão uma segunda chance. A minha sorte é que eu sempre fui bem CDF, então, mesmo cheio de compromissos e com a vida social arruinada, continuo a me virar bem com as notas. Com os alunos também não mudou muita coisa não. As garotas continuam a não me achar muito atraente, o que é triste, visto que entrei nessa profissão justamente por causa disso.

Quando o filme saiu, você caiu nas graças de Bruno Barreto e Domingos Oliveira. Continua em contato com eles?

O Bruno eu tive menos contato depois, mas o Domingos super me adotou. Ele conta que, assim que saiu da exibição do meu filme no Festival do Rio, saiu procurando minha mãe para saber se eu era um filho bastardo que ele tinha perdido por aí. Me chama para comer pizza, para viajar com os amigos, me dá conselhos amorosos e me ensinou que o melhor jeito de reconquistar uma garota é com uma dúzia de rosas brancas. Ele me convidou para ser assistente de direção numa peça que ele ia protagonizar e acabou me escalando para fazer o papel dele também. Entregou o Confissões de Adolescente para eu dirigir e diz que tem uns roteiros que adoraria que eu dirigisse.

Como é o novo roteiro? Você já falou de temer a “maldição do segundo disco”… (Na sessão de estreia da Mostra de SP, em conversa com a repórter, Souza comparou um novo filme “com o segundo álbum do The Killers”.)

Fiquei muito na dúvida de que tipo de filme fazer depois do primeiro. Fiquei analisando o que duas bandas que gosto muito fizeram após o sucesso do primeiro CD. O Strokes investiu no “mais do mesmo” tentando melhorar, é claro, mas fazendo coisas novas dentro do mesmo estilo. E teve momentos brilhantes como “The End Has No End” e “Under Control”. Já o Killers apostou numa nova sonoridade, em ampliar os horizontes, virar o U2 e blá blá blá. E tem momentos chatos como “Uncle Johnny”, mas de resto, Sam’s Town é meu CD favorito da banda. Então, na dúvida entre os dois caminhos, resolvi trilhar os dois ao mesmo tempo. Estou fazendo um filme chamado Por Enquanto (cujo título original, antes de me censurarem, era Não Deixe a Julia Ir Embora ou o Que Aconteceu Enquanto o Chinese Democracy Era Gravado), nos mesmos moldes do Apenas o Fim. Baixíssimo orçamento, ninguém ganhando nada, equipe formada por amigos. O filme fala sobre um cara que acordava todos os dias com uma frase na cabeça: “Não deixe a Julia ir embora”. Só que ele (o protagonista) nunca conheceu nenhuma Julia. No elenco estão Domingos Oliveira, Gregório Duvivier (meu Johnny Depp), Vitória Frate e eu. O segundo projeto, meu Sam’s Town, é maior. O filme (Pessoas Felizes) fala sobre duas pessoas muito infelizes que se encontram em certo ponto de suas vidas e decidem fazer algo para sair dessa situação. Criam e seguem então uma lista de coisas para fazer que chamam de “como ser feliz”, baseada numa série de livros de auto-ajuda, que tem itens como “se vingar de todas as pessoas felizes do planeta”.

Quando você terminou Apenas o Fim, ficou com medo que virasse “filme-de-um-público-só”?

Eu lia muitos livros de diretores e nove entre 10 diziam que o melhor jeito de aprender a fazer cinema era filmando. Então eu fui lá e filmei pra aprender. Nunca imaginei que o filme fosse ganhar prêmios, que fosse passar na Holanda e ser convidado para um festival na Eslovênia. É um filme, afinal que não sei é bom ou ruim, mas é bem simpático e funciona incrivelmente bem para um público determinado. É um filme jovem, feito por jovens, sobre um casal jovem. Mas, ao mesmo tempo, fala sobre o tema mais universal do mundo, relacionamentos. Qualquer um, de qualquer idade, já passou por um término de relacionamento. E é por isso que muitos adultos saem emocionados da sessão. Agora que vai ter gente que não vai gostar também, é um fato, e críticas fazem parte da profissão.

Qual foi o comentário mais esdrúxulo que recebeu pelo filme?

Alguém postou no Twitter que era o “fofomovie” do ano. Achei engraçado.

Jean Luc-Godard ou Kevin Smith?

Paulo Coelho (brincadeira). Impossível escolher. Um revolucionou o cinema, o outro me arranca lágrimas toda vez que eu assisto Procura-se Amy.

Lady Gaga ou Brigitte Bardot?

Scarlett Johansson (sério).

Uma canção que te defina.

“Eu Tô Tristão”, do Casseta & Planeta (brincadeira). “Cara Estranho”, Los Hermanos (brincadeira). “Creep”, Radiohead (brincadeira). “Eu Só Te Amo Porque Você Gosta do Woody Allen”, da minha antiga banda, Os Caras Legais. Se não valer, “I’d Rather Dance With You”, do Kings of Convenience.

O filme que você gostaria de ter rodado.

Uma Escola Atrapalhada, com os Trapalhões, o Supla e a Angélica. Deve ter sido a coisa mais divertida do mundo. E eu sempre choro no final.

Qual foi a referência pop mais tosca que você já usou?

O protagonista do Apenas o Fim diz que Transformers é melhor que todos os filmes do Godard juntos. E o filme passou em Paris, com um crítico da (revista de cinema) Cahiers du Cinema na platéia. Baita situação. Mas sério, Bumblebee + Megan Fox não dá pra resistir, a Nouvelle Vague que me perdoe.

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