Passado visto de perto

Entrevistei Herbert em Paulínia, pra matéria da @rollingstoneBR de agosto. O director’s cut veio pra cá. Nighty, nighty. Manda um beijo pro Renato. 

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“Meio perplexo”, Herbert Vianna olha para a TV e confessa: “este mané não sabe bem do que está falando”. O mané em questão é ele próprio, vários anos mais moço, contando, com a tranquilidade de quem pede para passar o sal, o que faria se uma tragédia lhe batesse à porta. “Começaria tudo de novo”, o garotão aposta, cheio da galhofa típica do rockstar que só teme frigobar vazio em quarto de hotel.

O confronto do homem de 2005 com sua versão 18 anos mais jovem está em Herbert de Perto, documentário dirigido por Roberto Berliner, camarada desde os tempos em que Circo Voador era point no Arpoador (Rio de Janeiro), e Pedro Bronz. As cenas do próximo capítulo você já conhece: em 2001, um ultraleve com Herbert e sua mulher, a inglesa Lucy, caiu no litoral de Angra dos Reis (RJ). Ela morreu; ele, não. Além das sequelas sentimentais, as físicas também não foram bolinho: o paraibano ficou paraplégico.

O “meio perplexo” Herbert talvez não estivesse pensando em “Perplexo”, hit do álbum Big Bang (1989), quando fez o comentário. A letra, no entanto, ganha sentido especial na nova fase: “Mandaram avisar/ Que agora tudo mudou/ Eu quis acreditar/ Outra mudança chegou”.

“Se pudesse escolher uma biografia, seria mais ou menos a que estou tendo agora”, conta à Rolling Stone Brasil o irmão mais novo do antropólogo Hermano Vianna. Pasmo? Não fique: para ele, não tem essa de “escorregar por caminhos telenovelísticos e lacrimogêneos”. O acidente foi, sim, divisor de águas. Mas, se a vida lhe deu um caixote, o artista não quis submergir, “pois Lucy odiaria ver isso acontecer”. Para ela, aliás, compôs “De Perto”: “Sonho em fazer pro nosso amor/ uma bela canção/ que me traga paz/ sem culpa ao coração”.

Foi em 1982 que os caminhos de Berliner e Herbert cruzaram. Naquela época, o carioca filmava shows da galera do Circo – de Kid Abelha a Celso Blues Boy. De lá pra cá, o diretor assinou clipes para os Paralamas (“Alagados”, “Trac-Trac”) e ganhou cafofo cativo no lado esquerdo do peito do frontman. De 200 horas de gravação – inclua aí muito material de arquivo com aquele desengonçado roqueiro de óculos nerd e moletom do Mickey –, Berliner pinçou os 97 minutos que compõem o doc sobre o amigo.

O impulso de registrar o que via pela frente – e pedir reforço, como vídeos produzidos por enfermeiros – ganhou fôlego nos dias seguintes ao acidente. “Herbert tinha acabado de sair do coma. Na primeira vez em que entrei no quarto, ele falava em português, inglês e espanhol; tudo rimava; letra de uma música ia com a melodia de outra. Pensei, ‘caramba, que momento rico!’. As coisas saíam sem censura.” Como quando a enfermeira perguntou o que Herbert desejava comer – e eis que ele manda na lata: “O seu…”. Melhor deixar para lá.

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O líder do Paralamas não lembra muito desses momentos iniciais. O que lhe interessa, agora, é usar seu “espírito pós-punk para reconstruir um novo ponto de vista” – no caso, o de alguém que vê o mundo de uma cadeira de rodas, “olho a olho com o público”. Na lista de projetos futuros, está um disco no qual cantará composições suas gravadas por terceiros. Entre elas, “Nada Por Mim”, com a ex-mulher Paula Toller, e “Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim”, consagrada por Ivete Sangalo.

Se a carga emocional tinha tudo para ser a perfeita casca de banana para os temíveis “escorregões lacrimogêneos”, a dupla de diretores põe a produção a salvo dessa furada. O que ficou mesmo foram resíduos do “bom-mocismo” de Herbert – acredite, é possível fazer um filme sobre rock sem drogas. “Sou há muito tempo visto assim. Lobão, por exemplo. Para ele, éramos os filhinhos de papais que não agrediam nada nem ninguém.” E agora? “Pós-cadeira, ele é gentil”, afirma. Mas sem acidez. Não quer cutucar o passado com vara curta. Não é a dele. Assim, de perto, Herbert não tem nada de fera ferida.

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