Archive for setembro \17\UTC 2009

Lily com açúcar, com afeto

setembro 17, 2009

Director’s cut para a resenha da @rollingstoneBR do show da Lily Allen em São, São Paulo. Fotos do Stephan Solon (Via Funchal).  Compre batom.Volte sempre. Seu filho merece batom.

lioly3Abra suas asas, mas contenha suas feras

Você pode até culpar a indústria, essa velha máquina de fazer estereótipos, que adora colar palavras de ordem (Who’s bad? Ela é má! Ela bebe! Ela diz “fuck”! Compre! Agora!) para transformar música em mercadoria.

Perdeu a viagem quem foi à Via Funchal na noite de quarta, 16, com a expectativa de ver uma Lily Allen que esculacha os homens, paga peitinho, se perde na manguaça e está perto de se graduar no Educandário Amy Winehouse.

Quando o pano branco caiu, às 22h15, e revelou a cenografia simples (apenas letras gigantescas, estofadas com pano branco, formando LILY), a britânica que canta “fuck you very much” – algo como “muito foda-se para você” – com o sorriso de uma criança em loja de doces revelou-se incrivelmente amável. E simples. De canudinho, bebeu algo, que durou o show inteiro, num copo com marca de cerveja. O cigarro que fumou era eletrônico. A certa hora, os fãs até fizeram aqueles corações com as mãos, cumprimento tão obrigatório num show do Jonas Brothers como a saudação vulcana em convenções de Star Trek.  Horas mais tarde, ela, meiga como um comercial de amaciante, postaria no Twitter que São Paulo tinha sido “o melhor show de todos tempos”. Uma espécie de Lily Skywalker para Darth Winehouse.

O vestuário era simples: tênis brancos e grandões, short jeans e blusa cinza sobre regata preta. Na boca, batom roxo; por volta do olho esquerdo, uma maquiagem purpurinada nas cores verde e amarelo, em make “David Bowie toma chá das cinco com Mallu Magalhães“.

O gatilho fica por conta de “Everyone’s At It”, que investe contra as relações hipócritas entre sociedade, indústria farmacêutica e drogas (“então sua filha está deprimida, tudo bem colocá-la direto no Prozac/ Mas mal sabe você que ela já manda crack”). Aqui, Lily se põe a brincar com sintetizadores como se fossem controle-remoto, distorcendo o som como se o synth pop oitentista se materializasse em pessoa para nos dizer: “Ei, olhe pra mim!”.

Engatou com a balada “I Could Say” – não é seu momento mais feliz da noite. Açúcar em excesso para a cantora que despontou a reboque de repertório debochado. Algumas desafinadas fortalecem a impressão de que ela é a típica garota que, se não tivesse o mínimo de atitude no palco, soaria como a filha cujos pais insistiram saber cantar após uma “Noite Feliz” bem-sucedida antes da ceia de Natal.

Lily reaparece bem mais confortável em “Never Gonna Happen”. Espinafra os ex-alguma coisa em número com pegada cigana – soa como alguém influenciada por vídeos da No Smoking Band, de Emir Kusturica, e que tomou um senhor porre com a galera do Gogol Bordello.

José Serra pode sossegar o facho: para não burlar a lei antifumo, a cantora que já foi flagrada deixando um aeroporto com caixas e mais caixas de cigarro mostrou o cigarro eletrônico – dava até para fumar em avião, se vangloriou (mal sabia a boa moça que, por aqui, o gadget  é gongado pela Anvisa).

Em seguida, engata cover de “Oh My God”, do Kaiser Chiefs, como introdução de “Everything’s Just Wonderful”, com pegada que dava até para avizinhar ao samba-rock. Segue mesclando repertório de seus dois únicos álbuns, Alright, Still (2006) e It’s Not Me, It’s You (2009), com foco no segundão. A ordem das faixas: “22”, “Who’d Have Known”, “LDN” e “Back To the Start”.

“He Wasn’t There” é o lava-rápido edipiano para expurgar a alma para a artista, que canta sobre a relação entre pai “que não estava lá” e filha “que sempre será sua garotinha”.

Por mais que Lily seja, sim, um ato pop, a sequência dá crédito para a cantora.  Não nos esquecemos do marketing que construiu a princesinha desbocada (Who’s bad? Ela é má! Ela bebe! Ela diz “fuck”! Compre! Agora!), mas há certa naturalidade no palco que só mesmo a geração formada na – e pela – internet é capaz de ter, em contrapartida a Britneys e Avrils da vida. Dessa vez, a jovem de 24 anos não precisou encarnar um hamster correndo em círculos, sempre às voltas com os mesmos truques para prender a audiência – algo como “se o público espera que eu seja louca, é bom que eu faça Courtney Love parecer a irmã perdida dos Jonas Brothers quando subir naquele palco”.

lily

As próximas músicas são “Littlest Thing” e “Chinese”. O público, que compensou os clarões na Via Funchal com o tipo de empolgação dispensada a boy bands, já estava aquecido para o primeiro grande sucesso de Lily. Depois de nos chamar de “fucking’ brilhante” (fica a eterna pergunta: como traduzir o tão sonoro fuck?), ela pede um favor a todos: sorriam. “Smile” lembra a todos das raízes inclinadas ao reggae, deixadas um pouco de lado pela britânica no segundo trabalho.

Já enrolada em pano com as previsíveis bandeirinhas do Brasil, ela encerra a primeira parte do show com “The Fear”.

Assim como a leva de cantoras brasileiras – todas se creem as bolachas mais recheadas de um mesmo e uniforme pacote –, Lily entrou no inchado saco de aspirantes à nova Madonna. Sua marca era ser, no cenário musical, uma espécie de “A Noiva”, aquela personagem  de Uma Thurman em Kill Bill que quer a cabeça do ex. Ao retornar para o bis, com camiseta branca e pés descalços, depois de mandar uma versão de “Womanizer”, de Britney Spears, ela dedica um de seus grandes hits para aquele que é um dos mais espinafrado dos homens na década. Especialmente para o “fucking bundão” que “costumava ser o presidente dos Estados Unidos”, Lily canta “Fuck You”.

Por volta das 23h30, o concerto termina com o “country” (palavras dela) de “Not Fair”, com Lily usando simulacro de chapeu de cauboi. Ela pula de um lado para o outro com suas esporas imaginárias – que não estão ali para arranhar ninguém pra valer. O que diz muito sobre o show de quarta. Who’s bad? Certamente, não Lily Allen.

lily2Make “Bowie toma chá das cinco com Mallu”

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Espetinho de carne-de-sol

setembro 5, 2009

mi

O astro-rei está para Miyuki como filé para Homer Simpson. “Eu como o sol“, diz a mulher de Yukio Hatoyama, novo primeiro-ministro do Japão. “Desta forma: yum, yum, yum. Me dá uma baita energia.”

Ele prefere manter a dieta na sombra, mas a ex-dançarina e autora de livros como A Comida Havaina Espiritual de Miyuki Hatoyama entrega. “Recentemente, meu marido começou a fazer isso também.”

Yukio Hatoyama assume o cargo num momento delicado para o país. Na semana passada, seu partido, o Democrata do Japão, bateu, com folga, o Liberal Democrático, um fominha do poder – estava há 54 anos (salvo alguns meses entre 1993 e 1994) com a faca ginzu e o queijo tofu na mão. O povo está insatisfeito. O crescimento no país estagnou – a crise deu uma forcinha, claro, mas o problema é velho. Assim como a população japonesa, que só faz ganhar rugas. Rápido. Até demais. Tanto que, em breve, a previdência do país terá um faniquite. Como se não bastasse, perto do dragão chinês, o país cada dia mais se assemelha a uma lagartixa caquética.

Se o mandato do marido for tão trapalhão quanto o de seu antecessor, Taro Aso, Miyuki pode se refugiar em cercania mais próxima ao sol que tanto a energiza. Vênus. “Um lugar lindo, e muito verde”, defende a mulher de 66 anos, que – ela jura pelo cosmos – foi abduzida por alienígenas, numa noite de 1989.

Não se pode negar que a Sra. Hatoyama esteja no lugar certo, com a pessoa certa. Sua nação, afinal, é a do sol nascente – um verdadeiro Porcão em termos de gastronomia solar, se depender do nome. Já seu marido atende pelo apelido de “alien” – não por ter casa de veraneio no planeta visitado pela esposa há 20 anos, e sim pelos olhos saltados, como se fossem dois siliconados pedindo para sair do maiô vermelho de Baywatch.

Michelle, Carla, Marisa. A partir de agora, tão emocionantes quanto uma lata de salsichas em conserva.

Para saber mais sobre Miyuki, leia a reportagem do Guardian.

All tomorrow parties

setembro 5, 2009
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Zizi & Zizete

setembro 4, 2009

blue

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The Pink & Blue Project, por JeongMee Yoon.

A volta dos que não foram

setembro 1, 2009

Olha, a resenha para a @rollingstoneBR foi feita uma hora após o show, plena madruga, nas coxas.  Ficou bem meia-boca.  Um tanto careta. E vem com quase um mês de atraso. Mas como o show é bocarra inteira, vou postar mesmo assim. Fotos do Stephan Solon, do Via Funchal. Beijo na alma.

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Poderia ser apenas um amor de verão – daqueles de que, tal qual tatuagem de hena, cansa-se antes mesmo de o filtro solar entrar em promoção. Mas a atração da noite chegou ao inverno com frescor da estação solar.

Os shows do Little Joy têm muito de suas músicas: são bons enquanto duram. Só que duram pouco. Ao tocar no Via Funchal, na noite de sábado, 15 de agosto, para casa lotada, o projeto de Rodrigo Amarante, Fabrizio Moretti e Binki Shapiro durou uma hora cravada no palco, bis incluso. Para quem pagou R$ 100 (preço médio) pelo ingresso, restou a impressão de trailer prolongado: resume bem o filme, mas o público quer ver a versão na íntegra – e, se possível, com making of, cenas cortadas e comentários do diretor.

Sorte a deles que… bom, que eles são eles. Isso, em resumo, significa o seguinte: Amarante pode subir ao palco para cantar jingles de comida para cachorro, enquanto Moretti estaria dando cambalhotas e Shapiro, lixando unha. Mesmo assim, o público, tal qual romaria para músicos pródigos, engrossaria os decibéis a cada novo acorde.

De fato, o cordão do puxa-saco cada vez aumenta mais: em vez da apertada Clash, onde 500 pessoas desafiaram a lei “dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço”, na primeira passagem do grupo pelo Brasil, desta vez a casa comportava até seis mil pessoas (não havia clarões na plateia, mas o vaivém era livre). Flerte com o mainstream para o projeto que começou tocando – e adorando o fazer – em cantos fuleiros nos EUA.

Sorte a nossa que… bom, que eles são eles. Depois dos shows de abertura (The Dead Trees e Adam Green, ex-Moldy Peaches, aquele grupo redescoberto com as baladas bobinhas de Juno), o Little Joy entrou em cena com “No One’s Better Sake”, primeira amostra de um repertório que seguiria simpático até o fim. “Despretensão”, “clima praiano”, “reunião de amigos” – pelos próximos 60 minutos, eles provarão que a cartela de clichês colada à banda continua dentro do prazo de validade.

Mas nem tudo permaneceu no mesmo lugar desde a última visita ao país. Amarante, agora, é claramente o frontman dos mosqueteiros. Com voz rouca (“não foi da festa de ontem!”, disse o ruivo, com poder de convencimento zero), ele preservou algo de Tom Waits do Posto 9, assumindo a posição central num palco que parecia grande demais para preservar o clima fraterno entre os três.

Após “How To Hang a Warhol”, outra música de Little Joy (único álbum do grupo, lançado em novembro nos EUA e, dois meses depois, no Brasil), é a vez do vocal feminino em “Unattainable”. De todos, Binki é a mais mudada. Esqueça a imagem daquela moça loura com ar de quem, ao mesmo tempo, poderia ser garota mais tímida da festa (bondade deles) – ou simplesmente não estar nem aí para o resto do mundo (alfinetada delas).

binki

Bem mais soltinha, ela interage com a plateia e põe a voz para fora. Definitivamente, deixou de aspirar ao papel de coadjuvante. Não deixa de ser um caso curioso: com sua postura deliciosamente preguiçosa, consegue, numa só tacada, ser apagada e dona de luminosidade só sua. Como não tem a força da colega alemã, suas intervenções, enquanto esporádicas, vêm em dose certeira. Mais homeopáticas e menos cavalares.

Com a balada “Shoulder To Shoulder”, vem a pausa na sucessão de músicas conhecidas do ainda diminuto repertório do Little Joy. “All The Hours”, primeira novidade da noite, ganhou explicação de Amarante: “A gente tinha que fazer músicas para o show do Brasil. Esta nós terminamos na tarde de anteontem”. Esparramou-se pela casa, então, arranjo forte, com reforço de sax – algo que não faria de todo mal se caísse no colo de Odair José.

Shapiro, que curte a onda de ficar sentada na maior parte do show, levantou-se para o charmoso cover de “Midnight Voyage”, do The Mamas and the Papas. Em seguida, Amarante usa sua rouquidão a favor para entoar a belíssima “With Strangers”, em fina sintonia com a guitarra melancólica de Moretti.

“I Agree With Your Face”, anunciada como “música romântica” pelo ex-hermano e segunda inédita do concerto, é o momento mais pé-no-rock do setlist (alguém disse Strokes?). A reboque vem outra faixa nova, com direito a introdução de Moretti – que tocou o tempo todo com o ar levemente bebum (de praxe para shows brasileiros), como se estivesse a fim de abraçar todo mundo e falar: “Já disse o quanto te amo hoje, cara?”.

“Podem cantar conosco? Make my heart mealt [faz meu coração derreter]”, pede o carioca radicado em Nova York, em mexidão idiomático. Após reger coro indie, ele acena a Amarante, e a banda toca a mais hermanística de todas as canções da noite – “Sambabylon” é um self-service instrumental que não causaria espanto algum se tocado pela Orquestra Imperial.

No Rio, cidade em que o Little Joy se apresentou 24 horas antes, as pessoas não sacaram muito bem a música, alegou Shapiro. “Eu amo o Rio”, ela emendou rapidamente, sem dar férias à ironia.

“The Next Time Around” vem depois, com Amarante na linha de frente e participações vocais de Shapiro e Moretti (ele, em português). A voz feminina do trio volta a se destacar, embalada por backing vocal dos rapazes, em “Don’t Watch Me Dancing”, baladinha honesta que compartilha da mesma singeleza de “Sunday Morning”, do Velvet Underground. (Enquanto, na música do Little Joy, a súplica é para que você “não a veja dançando”, esta tem versos que falam de “todos dançando e se divertindo”, e que a vocalista “gostaria que isso acontecesse com ela”.)

Como um Julian Casablancas com pé no freio e cordões havaianos em volta do pescoço, Amarante canta “Keep Me In Mind”, desfecho do primeiro bloco. Como no show de janeiro, ele reaparece sozinho e inicia o bis com a introspectiva “Evaporar”. Para não dizer que a canção em português é filha única num repertório dominado pela língua inglesa, os companheiros de grupo voltam para “Procissão”, num cover bem-ajeitado de Gilberto Gil – de certa forma, a guitarra rock ‘n’ roll de Moretti, em vez de poluir a canção, transformando-a em algo que não deveria ser, soou antropofágica na medida.

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Para a saideira, o trio, já escoltado pelos músicos de apoio (Matt Borg, Matt Romano e Todd Dahlhoff), convoca Adam Green e a galera do Dead Trees (banda com Dahlhoff na formação). Algazarra instalada, o coletivo toca “Brand New Start”. Green pula de um lado para o outro e, a certa hora, é afastado por Shapiro como se fosse a mosca chata que insiste em zunir no seu ouvido. Se o grande medo em relação ao Little Joy é que o projeto fosse como amor de verão – algo divertido de se fazer, e com o “bônus” de não precisar dar satisfações ou ligar no dia seguinte -, o trio ainda não dá sinais de ter se desencantado do camarada ao lado. Que seja bom enquanto dure. E que, da próxima vez, dure só um bocado mais. O público agradece.

Don’t trust the soul when you know the mustache is a faker

setembro 1, 2009
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