A volta dos que não foram

Olha, a resenha para a @rollingstoneBR foi feita uma hora após o show, plena madruga, nas coxas.  Ficou bem meia-boca.  Um tanto careta. E vem com quase um mês de atraso. Mas como o show é bocarra inteira, vou postar mesmo assim. Fotos do Stephan Solon, do Via Funchal. Beijo na alma.

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Poderia ser apenas um amor de verão – daqueles de que, tal qual tatuagem de hena, cansa-se antes mesmo de o filtro solar entrar em promoção. Mas a atração da noite chegou ao inverno com frescor da estação solar.

Os shows do Little Joy têm muito de suas músicas: são bons enquanto duram. Só que duram pouco. Ao tocar no Via Funchal, na noite de sábado, 15 de agosto, para casa lotada, o projeto de Rodrigo Amarante, Fabrizio Moretti e Binki Shapiro durou uma hora cravada no palco, bis incluso. Para quem pagou R$ 100 (preço médio) pelo ingresso, restou a impressão de trailer prolongado: resume bem o filme, mas o público quer ver a versão na íntegra – e, se possível, com making of, cenas cortadas e comentários do diretor.

Sorte a deles que… bom, que eles são eles. Isso, em resumo, significa o seguinte: Amarante pode subir ao palco para cantar jingles de comida para cachorro, enquanto Moretti estaria dando cambalhotas e Shapiro, lixando unha. Mesmo assim, o público, tal qual romaria para músicos pródigos, engrossaria os decibéis a cada novo acorde.

De fato, o cordão do puxa-saco cada vez aumenta mais: em vez da apertada Clash, onde 500 pessoas desafiaram a lei “dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço”, na primeira passagem do grupo pelo Brasil, desta vez a casa comportava até seis mil pessoas (não havia clarões na plateia, mas o vaivém era livre). Flerte com o mainstream para o projeto que começou tocando – e adorando o fazer – em cantos fuleiros nos EUA.

Sorte a nossa que… bom, que eles são eles. Depois dos shows de abertura (The Dead Trees e Adam Green, ex-Moldy Peaches, aquele grupo redescoberto com as baladas bobinhas de Juno), o Little Joy entrou em cena com “No One’s Better Sake”, primeira amostra de um repertório que seguiria simpático até o fim. “Despretensão”, “clima praiano”, “reunião de amigos” – pelos próximos 60 minutos, eles provarão que a cartela de clichês colada à banda continua dentro do prazo de validade.

Mas nem tudo permaneceu no mesmo lugar desde a última visita ao país. Amarante, agora, é claramente o frontman dos mosqueteiros. Com voz rouca (“não foi da festa de ontem!”, disse o ruivo, com poder de convencimento zero), ele preservou algo de Tom Waits do Posto 9, assumindo a posição central num palco que parecia grande demais para preservar o clima fraterno entre os três.

Após “How To Hang a Warhol”, outra música de Little Joy (único álbum do grupo, lançado em novembro nos EUA e, dois meses depois, no Brasil), é a vez do vocal feminino em “Unattainable”. De todos, Binki é a mais mudada. Esqueça a imagem daquela moça loura com ar de quem, ao mesmo tempo, poderia ser garota mais tímida da festa (bondade deles) – ou simplesmente não estar nem aí para o resto do mundo (alfinetada delas).

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Bem mais soltinha, ela interage com a plateia e põe a voz para fora. Definitivamente, deixou de aspirar ao papel de coadjuvante. Não deixa de ser um caso curioso: com sua postura deliciosamente preguiçosa, consegue, numa só tacada, ser apagada e dona de luminosidade só sua. Como não tem a força da colega alemã, suas intervenções, enquanto esporádicas, vêm em dose certeira. Mais homeopáticas e menos cavalares.

Com a balada “Shoulder To Shoulder”, vem a pausa na sucessão de músicas conhecidas do ainda diminuto repertório do Little Joy. “All The Hours”, primeira novidade da noite, ganhou explicação de Amarante: “A gente tinha que fazer músicas para o show do Brasil. Esta nós terminamos na tarde de anteontem”. Esparramou-se pela casa, então, arranjo forte, com reforço de sax – algo que não faria de todo mal se caísse no colo de Odair José.

Shapiro, que curte a onda de ficar sentada na maior parte do show, levantou-se para o charmoso cover de “Midnight Voyage”, do The Mamas and the Papas. Em seguida, Amarante usa sua rouquidão a favor para entoar a belíssima “With Strangers”, em fina sintonia com a guitarra melancólica de Moretti.

“I Agree With Your Face”, anunciada como “música romântica” pelo ex-hermano e segunda inédita do concerto, é o momento mais pé-no-rock do setlist (alguém disse Strokes?). A reboque vem outra faixa nova, com direito a introdução de Moretti – que tocou o tempo todo com o ar levemente bebum (de praxe para shows brasileiros), como se estivesse a fim de abraçar todo mundo e falar: “Já disse o quanto te amo hoje, cara?”.

“Podem cantar conosco? Make my heart mealt [faz meu coração derreter]”, pede o carioca radicado em Nova York, em mexidão idiomático. Após reger coro indie, ele acena a Amarante, e a banda toca a mais hermanística de todas as canções da noite – “Sambabylon” é um self-service instrumental que não causaria espanto algum se tocado pela Orquestra Imperial.

No Rio, cidade em que o Little Joy se apresentou 24 horas antes, as pessoas não sacaram muito bem a música, alegou Shapiro. “Eu amo o Rio”, ela emendou rapidamente, sem dar férias à ironia.

“The Next Time Around” vem depois, com Amarante na linha de frente e participações vocais de Shapiro e Moretti (ele, em português). A voz feminina do trio volta a se destacar, embalada por backing vocal dos rapazes, em “Don’t Watch Me Dancing”, baladinha honesta que compartilha da mesma singeleza de “Sunday Morning”, do Velvet Underground. (Enquanto, na música do Little Joy, a súplica é para que você “não a veja dançando”, esta tem versos que falam de “todos dançando e se divertindo”, e que a vocalista “gostaria que isso acontecesse com ela”.)

Como um Julian Casablancas com pé no freio e cordões havaianos em volta do pescoço, Amarante canta “Keep Me In Mind”, desfecho do primeiro bloco. Como no show de janeiro, ele reaparece sozinho e inicia o bis com a introspectiva “Evaporar”. Para não dizer que a canção em português é filha única num repertório dominado pela língua inglesa, os companheiros de grupo voltam para “Procissão”, num cover bem-ajeitado de Gilberto Gil – de certa forma, a guitarra rock ‘n’ roll de Moretti, em vez de poluir a canção, transformando-a em algo que não deveria ser, soou antropofágica na medida.

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Para a saideira, o trio, já escoltado pelos músicos de apoio (Matt Borg, Matt Romano e Todd Dahlhoff), convoca Adam Green e a galera do Dead Trees (banda com Dahlhoff na formação). Algazarra instalada, o coletivo toca “Brand New Start”. Green pula de um lado para o outro e, a certa hora, é afastado por Shapiro como se fosse a mosca chata que insiste em zunir no seu ouvido. Se o grande medo em relação ao Little Joy é que o projeto fosse como amor de verão – algo divertido de se fazer, e com o “bônus” de não precisar dar satisfações ou ligar no dia seguinte -, o trio ainda não dá sinais de ter se desencantado do camarada ao lado. Que seja bom enquanto dure. E que, da próxima vez, dure só um bocado mais. O público agradece.

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2 Respostas to “A volta dos que não foram”

  1. Julia Costa Says:

    Pode até ter demorado, mas valeu a pena ler a crítica. Senti como se estivesse lá, acho que você não esqueceu nenhum detalhe.. Bom, se tiver esquecido, que bom que era só detalhe! 😉 Beijocas

  2. Talita A. Says:

    ‘Beijaço’, como dizem os amigos-piás do lado sul desse Brasil.

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