Lily com açúcar, com afeto

Director’s cut para a resenha da @rollingstoneBR do show da Lily Allen em São, São Paulo. Fotos do Stephan Solon (Via Funchal).  Compre batom.Volte sempre. Seu filho merece batom.

lioly3Abra suas asas, mas contenha suas feras

Você pode até culpar a indústria, essa velha máquina de fazer estereótipos, que adora colar palavras de ordem (Who’s bad? Ela é má! Ela bebe! Ela diz “fuck”! Compre! Agora!) para transformar música em mercadoria.

Perdeu a viagem quem foi à Via Funchal na noite de quarta, 16, com a expectativa de ver uma Lily Allen que esculacha os homens, paga peitinho, se perde na manguaça e está perto de se graduar no Educandário Amy Winehouse.

Quando o pano branco caiu, às 22h15, e revelou a cenografia simples (apenas letras gigantescas, estofadas com pano branco, formando LILY), a britânica que canta “fuck you very much” – algo como “muito foda-se para você” – com o sorriso de uma criança em loja de doces revelou-se incrivelmente amável. E simples. De canudinho, bebeu algo, que durou o show inteiro, num copo com marca de cerveja. O cigarro que fumou era eletrônico. A certa hora, os fãs até fizeram aqueles corações com as mãos, cumprimento tão obrigatório num show do Jonas Brothers como a saudação vulcana em convenções de Star Trek.  Horas mais tarde, ela, meiga como um comercial de amaciante, postaria no Twitter que São Paulo tinha sido “o melhor show de todos tempos”. Uma espécie de Lily Skywalker para Darth Winehouse.

O vestuário era simples: tênis brancos e grandões, short jeans e blusa cinza sobre regata preta. Na boca, batom roxo; por volta do olho esquerdo, uma maquiagem purpurinada nas cores verde e amarelo, em make “David Bowie toma chá das cinco com Mallu Magalhães“.

O gatilho fica por conta de “Everyone’s At It”, que investe contra as relações hipócritas entre sociedade, indústria farmacêutica e drogas (“então sua filha está deprimida, tudo bem colocá-la direto no Prozac/ Mas mal sabe você que ela já manda crack”). Aqui, Lily se põe a brincar com sintetizadores como se fossem controle-remoto, distorcendo o som como se o synth pop oitentista se materializasse em pessoa para nos dizer: “Ei, olhe pra mim!”.

Engatou com a balada “I Could Say” – não é seu momento mais feliz da noite. Açúcar em excesso para a cantora que despontou a reboque de repertório debochado. Algumas desafinadas fortalecem a impressão de que ela é a típica garota que, se não tivesse o mínimo de atitude no palco, soaria como a filha cujos pais insistiram saber cantar após uma “Noite Feliz” bem-sucedida antes da ceia de Natal.

Lily reaparece bem mais confortável em “Never Gonna Happen”. Espinafra os ex-alguma coisa em número com pegada cigana – soa como alguém influenciada por vídeos da No Smoking Band, de Emir Kusturica, e que tomou um senhor porre com a galera do Gogol Bordello.

José Serra pode sossegar o facho: para não burlar a lei antifumo, a cantora que já foi flagrada deixando um aeroporto com caixas e mais caixas de cigarro mostrou o cigarro eletrônico – dava até para fumar em avião, se vangloriou (mal sabia a boa moça que, por aqui, o gadget  é gongado pela Anvisa).

Em seguida, engata cover de “Oh My God”, do Kaiser Chiefs, como introdução de “Everything’s Just Wonderful”, com pegada que dava até para avizinhar ao samba-rock. Segue mesclando repertório de seus dois únicos álbuns, Alright, Still (2006) e It’s Not Me, It’s You (2009), com foco no segundão. A ordem das faixas: “22”, “Who’d Have Known”, “LDN” e “Back To the Start”.

“He Wasn’t There” é o lava-rápido edipiano para expurgar a alma para a artista, que canta sobre a relação entre pai “que não estava lá” e filha “que sempre será sua garotinha”.

Por mais que Lily seja, sim, um ato pop, a sequência dá crédito para a cantora.  Não nos esquecemos do marketing que construiu a princesinha desbocada (Who’s bad? Ela é má! Ela bebe! Ela diz “fuck”! Compre! Agora!), mas há certa naturalidade no palco que só mesmo a geração formada na – e pela – internet é capaz de ter, em contrapartida a Britneys e Avrils da vida. Dessa vez, a jovem de 24 anos não precisou encarnar um hamster correndo em círculos, sempre às voltas com os mesmos truques para prender a audiência – algo como “se o público espera que eu seja louca, é bom que eu faça Courtney Love parecer a irmã perdida dos Jonas Brothers quando subir naquele palco”.

lily

As próximas músicas são “Littlest Thing” e “Chinese”. O público, que compensou os clarões na Via Funchal com o tipo de empolgação dispensada a boy bands, já estava aquecido para o primeiro grande sucesso de Lily. Depois de nos chamar de “fucking’ brilhante” (fica a eterna pergunta: como traduzir o tão sonoro fuck?), ela pede um favor a todos: sorriam. “Smile” lembra a todos das raízes inclinadas ao reggae, deixadas um pouco de lado pela britânica no segundo trabalho.

Já enrolada em pano com as previsíveis bandeirinhas do Brasil, ela encerra a primeira parte do show com “The Fear”.

Assim como a leva de cantoras brasileiras – todas se creem as bolachas mais recheadas de um mesmo e uniforme pacote –, Lily entrou no inchado saco de aspirantes à nova Madonna. Sua marca era ser, no cenário musical, uma espécie de “A Noiva”, aquela personagem  de Uma Thurman em Kill Bill que quer a cabeça do ex. Ao retornar para o bis, com camiseta branca e pés descalços, depois de mandar uma versão de “Womanizer”, de Britney Spears, ela dedica um de seus grandes hits para aquele que é um dos mais espinafrado dos homens na década. Especialmente para o “fucking bundão” que “costumava ser o presidente dos Estados Unidos”, Lily canta “Fuck You”.

Por volta das 23h30, o concerto termina com o “country” (palavras dela) de “Not Fair”, com Lily usando simulacro de chapeu de cauboi. Ela pula de um lado para o outro com suas esporas imaginárias – que não estão ali para arranhar ninguém pra valer. O que diz muito sobre o show de quarta. Who’s bad? Certamente, não Lily Allen.

lily2Make “Bowie toma chá das cinco com Mallu”

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Uma resposta to “Lily com açúcar, com afeto”

  1. Talita A. Says:

    Jornalismo surrealista. Me ganhou no ‘Educandário Amy Winehouse’ – por isso que eu gosto dos textos da A.V.B.

    Saudações,

    T.A.

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