God fffffound

Texto que escrevi em abril de 2004. Eu tinha senso de humor. Se bom ou mau humor, aí é com vocês. E, agora, fiquem com Deus:

Sobre heresia, macarrão instantâneo e nozes

No início, Deus criou o céu, a terra e, talvez por decidir que um mundo sem jazz, abridor de lata e McLanche Feliz não teria graça, resolveu criar o ser humano.

É verdade que sua intenção inicial era colocar-nos acima do bem e do mal, mas esse andar já estava ocupado pelo departamento de Assuntos Celestiais. Desde então, o almoxarifado do sistema solar passou a ser chamada de Terra.

Então, entediado das trevas, Deus ordenou que se fizesse luz. Mas, por conta da temporada de apagões que o universo passava no período, Ele teve de criar o dia e, como medida econômica, a noite.

Logo depois, interessado em sediar os jogos olímpicos da galáxia (que aconteciam de quatro em quatro anos-luz), Deus tentou agilizar o projeto e acabar a Terra em sete dias. O Cômite Olímpico Lácteo, contudo, achou que ainda não havia estrutura suficiente para um evento de tamanha dimensão, até porque eram muitos os vulcões em ativa na época, e um dos avaliadores tinha alergia a enxofre.

A raça humana, como todos sabem, é a espécie mais inteligente do planeta, uma vez que é o única espécie capaz de refletir sobre o seu próprio reflexo, falar da própria fala e se conscientizar quanto à própria consciência, e isso tudo enquanto combina a cor da meia com a da gravata.

E tem mais: a humanidade gosta de debater sobre física quântica, falar sobre ela na terceira pessoa e, sempre que pode, faz questão de jogar na cara dos outros animais o tal lance dos polegares opositores –o que, modéstia d’Ele à parte, foi essencial para que o homem pudesse manusear ferramentas, jogar fliperamas e estourar plásticos-bolha.

Inventamos o macarrão instantâneo, os programas de auditório e gostamos de tomar sopa com colher, embora estudos já tenham comprovado que o canudo, nesse caso, é muito mais apropriado para evitar queimaduras na boca.

Deus que nos fez à Sua imagem e semelhança, o que torna um tanto estranho o fato de alguns de nós parecermos com Margaret Tatcher ou o Sr. Madruga. Concedeu-nos o livre arbítrio para que pudessemos exercer nosso pleno direito de implantar ditaduras, entupir-nos de carboidratos ou simplesmente andar na rua com uma caixa com os dizeres “cabeça humana”, só pela graça disso.

Contudo, nada disso tira d’Ele o Cinturão de Criador, O Princípio de Todas as Coisas e Tudo o Mais. Afinal, estamos falando de um cara que já acumulou em sua estante uma quantidade respeitável de prêmios, como o Grande Prêmio de efeitos especiais por todas as Grandes Guerras, a melhor intervenção divina no Festival Internacional de Milagres com o cancelamento de Dawson’s Creek e que, nos tempos vagos, ainda concorreu para Miss Divindade Via Láctea (que teria ganho de Alá, se não fosse por aquelas duas polegadas extras no quadril).

Cara de muitos amigos, ainda mais inimigos e alguns simpatizantes, Deus é tema de infinitos fã-clubes, sociedades secretas, grupos terroristas e, numa cidadezinha mineira, ainda dá o nome para um pequeno sex shop atrás da vídeolocadora da cidade.

Deus é, de fato, onipresente: está no pão nosso de cada dia, na maioria das letras de pagode e no discurso de tudo quanto é político às vésperas de eleição.

É verdade que, ao longo da nossa história, Deus já morreu várias vezes e de várias formas, inclusive de tanto rir com cada nova tentativa do homem em tentar achar o sentido da vida (que Ele mesmo não sabe qual é, embora tenha, nos últimos séculos, desenvolvido uma teoria de que possa ser o fato de milhões de árvores no mundo serem plantadas acidentalmente por esquilos que enterram suas nozes e não lembram onde eles as escondem).

Ainda hoje muitos de nós perguntarmos se Deus realmente existe ou se Ele seria uma invenção que a humanidade criou para aliviar seu profundo sentimento de desamparo existencial, uma vez que vivemos num mundo com tanta miséria, unhas quebradas e homens que se chamam Astrogildo. Deus já foi sepultado pelos positivistas, rejeitado pelos niilistas e transformado em caixinha de dízimos pela Igreja Universal –e isso sem falar nos agnósticos, que andaram espalhando por aí que Deus teve um filho com Britney Spears só para difamar Sua imagem.

Mesmo assim o Chefão continua, trocadilhos à parte, com os índices de popularidade lá nos céus. O fato é que a humanidade ainda não está preparada para se livrar d’Ele de uma vez por todas, até porque o ateísmo não tem nem tanta graça, nem tantos feriados.

Ícone pop por excelência, Deus estará sempre conosco no planeta que nos arrendou para que reinemos soberanos, até que um dia um garoto canadense esqueça de dar a descarga no banheiro da escola e, por algum motivo fora de qualquer compreensão possível, esse fato desencadear uma cadeia altamente improvável de acontecimentos que resultará na invasão do planeta pela raça alienígena Ordnave, que detestará cada pedaçinho de matéria terrestre, com exceção de pretzels (que os lembrariam da forma de seu planeta de origem) e do cabelo da Cher (para isso, não haveria qualquer tipo de explicação lógica). Amém.

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6 Respostas to “God fffffound”

  1. ric Says:

    anna, aí não vale, todo mundo sabe que esse é o seu melhor.

  2. Felipe Barros Says:

    hahaha, legal. humor meio douglas adams

  3. Isabela Says:

    bom humor. muito, muito bom!

  4. Diogo Cunha Says:

    A raça de alienígenas tem a ver com aulas de Linguagem Gráfica?

  5. keila Says:

    GENIAL!

    parebéns!!

  6. Natália Says:

    Fantástico esse texto. Nem sei o que dizer. Queria ter 1/1000 da sua criatividade!
    Parabéns!

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