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Deixa de fazer showzinho

novembro 24, 2010

O problema é que, depois de uma certa idade, que de certa não tem nada, você vai ficando velho. 

Talvez não em tempo de vida –nem a Idade Média me consideraria anciã aos 23 anos. Mas meu espírito, esse com certeza já está craque em tricô e partidas de gamão.

É justamente essa senilidade precoce que me fez perder o saco para alguns festivais de música que rolaram este ano.

A verdade é que tudo cansa. Cerveja quente. Fila pra cerveja quente.

A trilogia do “Melhor Lugar”. Encontre o seu (filme 1).  Fique horas em pé para garanti-lo, mesmo se esse “lugar” estiver para “melhor” como “combover” está para “sexy” (filme 2). Fique com vontade de fazer xixi ou pegar uma água quando o show está para começar (filme 3). 

Ainda há, claro, a obrigação social de viver um triângulo amoroso com o F5 e a Hype Machine.

Amaldiçoe os anos 90 por saber de cor a letra de “Everybody” (Backstreet Boys) ou “Garota Nacional” (Skank), mas ter corrido ao Google para ver se decora pelo menos o refrão do hit favorito de sua timeline naquela semana. E mesmo assim, na hora H, mexer sua boca como se você fosse personagem de filme esloveno num oferecimento versão brasileira, Herbert Richers.

Que preguiça dá ouvir aquele rocambole de influências musicais! Às vezes tão criativo quanto uma redação da 5ª série chamada “Minhas Férias”. 

Depois ainda ter de fazer cara de quem comeu jiló, bateu na barriga e fez ‘hmmmm’ para dizer que gostou.

E se sentir velho porque você não faz muita questão de atravessar aquele monte de gente até chegar na beiradinha do palco –para ser esmagado contra ele feito purê de batata.

E se sentir não tão velho assim, porque ser velho de verdade até que seria legal: aí você poderia dizer que viu a banda veterana tocar em Londres quando, após o concerto, os músicos ainda precisavam fazer uma vaquinha para voltar de ônibus para casa.

Enfim, preciso confessar que às vezes a preguiça me leva à lona de nocaute. E que, embora curta a música, tenho bocejite aguda só de pensar em “fazer a social” nesse tipo de evento.

Por isso, tenho ido menos a shows e mais ao YouTube –tudo bem que não sem uma dose dupla, e com chorinho, de arrependimento.

Preciso dizer também que a intenção inicial deste post era falar sobre o show do Paul McCartney. Falar sobre como tudo o que geralmente me incomoda não teve a menor importância no domingo. 

A cerveja quente, o hipster, o cara que fala mal do hipster, as filas, o maremoto de gente, o cara que fica ao seu lado cantando todas as letras e não deixa você ouvir a voz do músico.

Nada disso me incomodou desta vez. Talvez porque, com Paul, eu sabia que era pra valer. The real deal. A catarse tomou conta. Nunca achei que veria um Beatle cantar “A Day in the Life”.

Li hoje no Twitter que a  vida é um cubo mágico nas mãos de um deus daltônico.

Se o agitado mercado de shows fosse esse cubo mágico, Paul sem dúvida seria aquela combinação milagrosamente certeira de cores.

Difícil ver mais dessas por aí.

 

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Coisa de cinema

novembro 24, 2010

“Você parece muito com a Cameron Diaz.”

“Uau, obrigada! Em que filme?”

Quero Ser John Malkovich.”

Menos, menos

novembro 2, 2010

O Twitter foi o táxi das eleições. Todo mundo que entrou se deu ao direito de palpitar sobre o melhor caminho.

E não faltou quebra-molas no percurso.

Um dos lados, verdade, bicou mais do que o outro. Mas a baixaria foi generalizada.

Principalmente na internet. Essa aí virou o boteco fuleiro por excelência. Os insultos eram alardeados em letreiro em neón (até 140 caracteres). As doses de difamação, vendidas a preço de banana.

De repente, viramos todos justiceiros. E, para desqualificar Dilma ou Serra, o mais autoproclamado intelectual não hesitava em usar o mais chulo dos argumentos.

Dilma é terrorista e matadora de criancinhas. Serra, alquimista nato, transformou uma reles bolinha de papel naquelas bigornas da ACME que o coiote sempre jogava no papa-léguas (não interessava, mesmo, se vídeos revelavam um segundo e mais pesado objeto).

Dilma foi eleita pelos nordestinos, essa raça remelenta que acorrenta o Brasil como bola de ferro. Serra, o mal encarnado, entregaria o primeiro ministério ao primo Drácula.

Dilma é gorda. Serra é careca.

Todos esses argumentos foram replicados, às vezes a sério, por universitários, jornalistas e todo tipo de gente da dita elite intelectual e/ou financeira do Brasil.

Sim, sim, compreendo: certas regras se aplicam ao primeiro encontro e valem também para a militância virtual (não falo só de gente declaradamente partidária, mas também de bons amigos na timeline do Twitter).

Regra nº1: não chamar a atenção aos seus próprios defeitos.

O objetivo aqui é conquistar seu paquera. E ninguém consegue isso brincando, digamos, que dá para traçar um mapa astral com as próprias celulites.

Assim como faz parte do jogo político “esquecer” erenices e paulos pretos. Tudo carochinha da imprensa golpista, claro.

Mas há, acredito, um fator explosivo nessa equação. Acontece quando, de tanto repeti-la, você acaba comprando sua versão. Aí, o adversário vira um monstro a combater a qualquer custo, enquanto seu candidato é um cupcake de tão doce e perfeito.

Acho horóscopo um atraso de vida, e tenho certeza que todos nós, capricornianos, concordamos nesse ponto.

Mas, certa vez me cochicharam os astros, sou destinada a ser pessoa cética.

Por isso, não consigo demonizar nem santificar Dilma ou Serra. 

Se você votou nela, tudo bem. Chame de mal necessário as alianças escusas com Sarney e Collor. Diga que o oponente, se tivesse chance, faria o mesmo.

Serra foi seu escolhido? Ele passou a campanha se vendendo como arauto da ética. Mas, no ano passado, fez dobradinha com José Roberto Arruda, o governador do mensalão de Brasília.

“Vote em um careca e leve dois.” Capilarizava a possibilidade de ter Arruda como vice. Afinal, Serra é do bem ou Serra é do DEM?

Os exemplos dão voltas no quarteirão, e não venha me convencer que tanto tucanos quanto petistas não acumularam esqueletos no armário.

Fato é que, ao longo da campanha, as pessoas eram mais condescendentes com as explicações de seu presidenciável para escândalos.

Quebra do sigilo, para dilmistas, só podia ser coisa da turma do Aécio.

Quebra do sigilo, para serristas, era prova cabal da corrupção inata ao PT.

Finda a eleição, só espero que as pessoas consigam olhar para a futura presidente de forma verdadeiramente crítica (no caso dos simpatizantes) e com menos estridência acéfala (para os detratores).