Deixa de fazer showzinho

O problema é que, depois de uma certa idade, que de certa não tem nada, você vai ficando velho. 

Talvez não em tempo de vida –nem a Idade Média me consideraria anciã aos 23 anos. Mas meu espírito, esse com certeza já está craque em tricô e partidas de gamão.

É justamente essa senilidade precoce que me fez perder o saco para alguns festivais de música que rolaram este ano.

A verdade é que tudo cansa. Cerveja quente. Fila pra cerveja quente.

A trilogia do “Melhor Lugar”. Encontre o seu (filme 1).  Fique horas em pé para garanti-lo, mesmo se esse “lugar” estiver para “melhor” como “combover” está para “sexy” (filme 2). Fique com vontade de fazer xixi ou pegar uma água quando o show está para começar (filme 3). 

Ainda há, claro, a obrigação social de viver um triângulo amoroso com o F5 e a Hype Machine.

Amaldiçoe os anos 90 por saber de cor a letra de “Everybody” (Backstreet Boys) ou “Garota Nacional” (Skank), mas ter corrido ao Google para ver se decora pelo menos o refrão do hit favorito de sua timeline naquela semana. E mesmo assim, na hora H, mexer sua boca como se você fosse personagem de filme esloveno num oferecimento versão brasileira, Herbert Richers.

Que preguiça dá ouvir aquele rocambole de influências musicais! Às vezes tão criativo quanto uma redação da 5ª série chamada “Minhas Férias”. 

Depois ainda ter de fazer cara de quem comeu jiló, bateu na barriga e fez ‘hmmmm’ para dizer que gostou.

E se sentir velho porque você não faz muita questão de atravessar aquele monte de gente até chegar na beiradinha do palco –para ser esmagado contra ele feito purê de batata.

E se sentir não tão velho assim, porque ser velho de verdade até que seria legal: aí você poderia dizer que viu a banda veterana tocar em Londres quando, após o concerto, os músicos ainda precisavam fazer uma vaquinha para voltar de ônibus para casa.

Enfim, preciso confessar que às vezes a preguiça me leva à lona de nocaute. E que, embora curta a música, tenho bocejite aguda só de pensar em “fazer a social” nesse tipo de evento.

Por isso, tenho ido menos a shows e mais ao YouTube –tudo bem que não sem uma dose dupla, e com chorinho, de arrependimento.

Preciso dizer também que a intenção inicial deste post era falar sobre o show do Paul McCartney. Falar sobre como tudo o que geralmente me incomoda não teve a menor importância no domingo. 

A cerveja quente, o hipster, o cara que fala mal do hipster, as filas, o maremoto de gente, o cara que fica ao seu lado cantando todas as letras e não deixa você ouvir a voz do músico.

Nada disso me incomodou desta vez. Talvez porque, com Paul, eu sabia que era pra valer. The real deal. A catarse tomou conta. Nunca achei que veria um Beatle cantar “A Day in the Life”.

Li hoje no Twitter que a  vida é um cubo mágico nas mãos de um deus daltônico.

Se o agitado mercado de shows fosse esse cubo mágico, Paul sem dúvida seria aquela combinação milagrosamente certeira de cores.

Difícil ver mais dessas por aí.

 

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2 Respostas to “Deixa de fazer showzinho”

  1. Karolline Says:

    Gostei, gostei. Exatamente o que ando passando.
    Volto mais vezes.
    te colei lá no mural. Abraços =)

  2. Mitch Mitchell Says:

    Acho que era eu cantando no seu ouvido durante o show. Desculpe, mas não deu para resistir. Em minha defesa, posso dizer que só fiz isso porque era o show do Macca.

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