Cara, caramba

Prosopagnosia, basicamente, é a doença de quem não vai com a sua cara. Nem com a de nenhuma outra pessoa.

Os portadores desse mal têm dificuldade em reconhecer o rosto de outras pessoas. Na prática, é como se a multidão fosse um grande teste de Rorschach, aquelas manchas que o psicólogo põe na sua frente e pergunta do que se tratam.

Você quer desesperadamente “passar” no teste, enxergar o campeonato de polca para mímicos que qualquer pessoa sã veria, mas não consegue identificar nada além de… um imenso borrão.

Para não passar por louca (ou, pior, vegetariana), chuta que são cachorros fofinhos cantando “Imagine” em um latido uníssono e com uma leve pegada de tecnobrega. Sempre cola.

Pois bem, voltando ao ponto: não precisa ser psicótica graduada no Educandário Natália Klein para entender que a prosopagnosia é o grande mal do nosso tempo.

Para as mocinhas descrentes, sugiro uma breve pesquisa de campo.

Você vai a um bar, conhece um gatinho. Ele pede seu telefone. Você tenta sorrir de canto de boca, com classe, mas acaba oferecendo um spacatto labial que te credencia para qualquer casting do papel de Coringa.

Mesmo assim, o cara parece gostar de você. Ri das suas piadas (que na verdade não eram piadas, você realmente encontrou um japonês, um italiano e um português na porta do sex-shop). Uma coisa leva a outra e, quando você se dá conta, os dois estão em seu apartamento, fazendo o que qualquer casal de jovens bem esclarecidos na casa dos 20 e poucos anos faria: acordar seu roomate para testar o karaokê on-line (the very best of “sertanejo universitário” edition). 

Sim, minha cara, a noite foi boa. Você sabe disso, ele sabe disso, e o vizinho voyeur com certeza já espalhou a palavra pelo YouTube.

No dia seguinte, nenhuma ligação. Ótimo! Prova de que o gatinho não é um daqueles psicopatas que se autoconvidam para a festa de 89 anos da sua tia Margarete. Sem pé no acelerador. Ele sabe que, como os melhores vinhos, a relação precisa envelhecer.

O problema é que o casinho envelhece tão bem quanto a marca de biquíni da tia Margarete. Ele não liga a semana inteira, te ignora nas redes sociais e responde seu objetivo convite para um chope, via SMS, com uma descompromissada carinha feliz – como quem força um “hmmmm” para responder se o empadão de jiló com massa integral está gostoso.

Eis que o Ministério do Pé na Bunda adverte: o buraco, minha querida, é mais embaixo.

Porque já é fim de semana e, para curar a fossa, você se prepara para cair na esbórnia, se possível com um duplo twist carpado. Põe seu melhor vestido, aquele tubinho fosforescente que mais parece um letreiro em neón: PIRIGUETE LTDA. Chama só as amigas solteiras, almoça na tia do cachorro-quente por uma semana para poder torrar seu dinheiro em álcool. A noite promete.

Mas, rápido no gatilho, Murphy dá tchauzinho para você do outro lado da balada (rapaz, como essa vodca desce rápido!).

Você e o gatinho, claro, se cruzam na festa. Lá, ele é acometido por uma súbita crise de prosopagnosia aguda (a única explicação) e passa reto por você, como se seu rosto fosse tão fácil de reconhecer quanto um bom papel de Murilo Benício.

Essa epidemia, tão comum no século 21, tem como grupo de risco rapazes entre 23 e 29 anos, com cabelos milimetricamente desgrenhados, barba por fazer, gosto por cinema, adoração por bons vinhos e, ainda sim, heterossexuais. Vê-se, portanto, que a doença só ameaça 0,00018% da população paulistana.

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5 Respostas to “Cara, caramba”

  1. Fábio Says:

    Nunca tinha lido seu blog. Achei o post genial. O texto é perfeito. Ri muito. Parabéns.

  2. leonardo poliva Says:

    alguem passou por maus momentos essa semana…

  3. Manoel Says:

    Deixa eu te contar Anna que isso não acontece só com as mulheres e com os heterossexuais….

  4. Dricolina Says:

    Infelizmente em nome da verdade cientifica voce vai ter que aumentar e bem esse grupo de risco ai…

  5. Fábio Says:

    Putz, hahaha, eu assumo que também sofro da velhice precoce-e-saudosa-dos-biscoitos Foffy’s.

    Só pra registrar que na minha vida acidental de one night stander, também encontro esse lance de “sem melodramas”, que acaba fazendo com que as pessoas resolvam seus medos agindo como babacas a partir da manhã seguinte (na minha história não tem karaokê).

    Não sei como tratar de uma questão só com o “pego, mas não me apego”. Tipo, é outra pessoa ali, sabe?

    Enfim, só pra finalizar com uma frase que li no twitter:
    “amor é igual pokemon a gente ate queria que existisse mas não”.
    Por enquanto, tudo o que me consola é um disco ao vivo do Raça Negra.

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