Archive for the ‘cinema’ Category

Quiçá Sessão da Tarde

janeiro 24, 2012

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Luz, câmera e ação no fim do túnel

outubro 13, 2010

Sou como Mãe Dinah consultando os astros para Stevie Wonder: já vi tudo.

O drama dos mineiros chilenos vai virar filme.

À la Eddie Murphy em “Professor Aloprado”, Antonio Banderas se desdobrará no papel dos 33 trabalhadores que só viram menos luz do sol do que Donatella Versace e os longos invernos na clínica de bronzeamento artificial.

A coprodução Estados Unidos/Chile/Brasil contará ainda com Rodrigo Santoro, Gael García Bernal e Javier Bardem.

A participação especial ficará por conta de Tom Hanks –de mullet, bigodinho e corrente de prata, ele interpretará o primo distante de um dos mineiros, vindo diretamente da capital do Brasil (Buenos Aires).

Seu auge cênico será saltar com um cavalo para dentro da mina –ao som de Celine Dion cantando Gloria Estefan– e salvar o primo Jesus Juan de las Dores. Nenhum animal será ferido durante as gravações. Só dois estagiários de edição e a tia do lanchinho.

Penelope Cruz e Salma Hayek assumirão o front feminino. Gisele Itié fará uma pontinha e, nos créditos, aparecerá como “moça do decote #2”.

Fernanda Montenegro ganhará o papel da sábia matriarca, que eventualmente soltará a lição de moral do filme: “Como no cu do seu tio Gomez, o buraco é sempre mais embaixo!”.

Anota aí: você leu primeiro na Tangerina.

Shades of stingray

janeiro 16, 2010

Stingray Sam, novo western espacial de Cory McAbee – um cara bacana, daqueles que aparecem com roupa mariachi e bigode estilo Paulo Cintura para conhecer seus pais. Já falei brevemente dele aqui. Achou pouco? Então pega no dele e cubalança.

Passado visto de perto

agosto 8, 2009

Entrevistei Herbert em Paulínia, pra matéria da @rollingstoneBR de agosto. O director’s cut veio pra cá. Nighty, nighty. Manda um beijo pro Renato. 

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“Meio perplexo”, Herbert Vianna olha para a TV e confessa: “este mané não sabe bem do que está falando”. O mané em questão é ele próprio, vários anos mais moço, contando, com a tranquilidade de quem pede para passar o sal, o que faria se uma tragédia lhe batesse à porta. “Começaria tudo de novo”, o garotão aposta, cheio da galhofa típica do rockstar que só teme frigobar vazio em quarto de hotel.

O confronto do homem de 2005 com sua versão 18 anos mais jovem está em Herbert de Perto, documentário dirigido por Roberto Berliner, camarada desde os tempos em que Circo Voador era point no Arpoador (Rio de Janeiro), e Pedro Bronz. As cenas do próximo capítulo você já conhece: em 2001, um ultraleve com Herbert e sua mulher, a inglesa Lucy, caiu no litoral de Angra dos Reis (RJ). Ela morreu; ele, não. Além das sequelas sentimentais, as físicas também não foram bolinho: o paraibano ficou paraplégico.

O “meio perplexo” Herbert talvez não estivesse pensando em “Perplexo”, hit do álbum Big Bang (1989), quando fez o comentário. A letra, no entanto, ganha sentido especial na nova fase: “Mandaram avisar/ Que agora tudo mudou/ Eu quis acreditar/ Outra mudança chegou”.

“Se pudesse escolher uma biografia, seria mais ou menos a que estou tendo agora”, conta à Rolling Stone Brasil o irmão mais novo do antropólogo Hermano Vianna. Pasmo? Não fique: para ele, não tem essa de “escorregar por caminhos telenovelísticos e lacrimogêneos”. O acidente foi, sim, divisor de águas. Mas, se a vida lhe deu um caixote, o artista não quis submergir, “pois Lucy odiaria ver isso acontecer”. Para ela, aliás, compôs “De Perto”: “Sonho em fazer pro nosso amor/ uma bela canção/ que me traga paz/ sem culpa ao coração”.

Foi em 1982 que os caminhos de Berliner e Herbert cruzaram. Naquela época, o carioca filmava shows da galera do Circo – de Kid Abelha a Celso Blues Boy. De lá pra cá, o diretor assinou clipes para os Paralamas (“Alagados”, “Trac-Trac”) e ganhou cafofo cativo no lado esquerdo do peito do frontman. De 200 horas de gravação – inclua aí muito material de arquivo com aquele desengonçado roqueiro de óculos nerd e moletom do Mickey –, Berliner pinçou os 97 minutos que compõem o doc sobre o amigo.

O impulso de registrar o que via pela frente – e pedir reforço, como vídeos produzidos por enfermeiros – ganhou fôlego nos dias seguintes ao acidente. “Herbert tinha acabado de sair do coma. Na primeira vez em que entrei no quarto, ele falava em português, inglês e espanhol; tudo rimava; letra de uma música ia com a melodia de outra. Pensei, ‘caramba, que momento rico!’. As coisas saíam sem censura.” Como quando a enfermeira perguntou o que Herbert desejava comer – e eis que ele manda na lata: “O seu…”. Melhor deixar para lá.

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O líder do Paralamas não lembra muito desses momentos iniciais. O que lhe interessa, agora, é usar seu “espírito pós-punk para reconstruir um novo ponto de vista” – no caso, o de alguém que vê o mundo de uma cadeira de rodas, “olho a olho com o público”. Na lista de projetos futuros, está um disco no qual cantará composições suas gravadas por terceiros. Entre elas, “Nada Por Mim”, com a ex-mulher Paula Toller, e “Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim”, consagrada por Ivete Sangalo.

Se a carga emocional tinha tudo para ser a perfeita casca de banana para os temíveis “escorregões lacrimogêneos”, a dupla de diretores põe a produção a salvo dessa furada. O que ficou mesmo foram resíduos do “bom-mocismo” de Herbert – acredite, é possível fazer um filme sobre rock sem drogas. “Sou há muito tempo visto assim. Lobão, por exemplo. Para ele, éramos os filhinhos de papais que não agrediam nada nem ninguém.” E agora? “Pós-cadeira, ele é gentil”, afirma. Mas sem acidez. Não quer cutucar o passado com vara curta. Não é a dele. Assim, de perto, Herbert não tem nada de fera ferida.

Direção perigosa pela via pública

julho 19, 2009

Não é só tempo perdido. É fazer do seu, do meu, do nosso dinheirinho papel higiênico de elefante. Vira e mexe o cara vai lá e pega uma graninha com a Lei RuaNele (que só manda mesmo é bom senso para o olho da rua). Tudo para cometer barbáries em nome do bom se velho cinema brasileiro.

Pior é que quem paga a conta é você, my fella espectador, acostumado a tantas cagadas no cinema mais perto de você – ou a gente acha que lamber o prato da curtura não é a mesma coisa do que limpar a bunda dos cineastas a serviço da nação? Talvez não seja o caso de falarmos em Retomada, e sim Freada – mais popularmente conhecida como Badalhoca, essa corrente de desopilamento da sétima arte brasileira. Cinema para os anais da história.

É claro que nem tudo é descargável. O problema é que, para cada Estômago, são 10 socos no estômago. E vale pra tudo. Entram no mesmo balaio filmes “de arte” (já ouviu falar de Siri-Ará, de Rosemberg Piriri, quer dizer, Cariry? não? continue assim) e garanhões da bilheteria como Divã (“Freud, explica?” “Agora? Tá na hora do jogo, porra!”).

E para não dizer que eu, como tantos, só faço reclamar, vai a CAIXINHA DE SUGESTÕES: a criação de uma lei para que todo cineasta patrocinado pelos cofres públicos ande por aí com uma plaquinha pendurada no fiofó. Nela, virão os dizeres:  “COMO ESTOU DIRIGINDO?”.

como-estou-dirigindo“Como um asshole”

O dia em que Jean-Luc Godard se juntou à Aliança Galáctic

junho 12, 2009

Cara é gente boa.  E eu já chamei de Mallu Magalhães do cinema. Taking that back.

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Orçamento de Homem-Aranha 3: R$ 500 milhões. Vicky Cristina Barcelona: R$ 30 milhões. Apenas o Fim: algo em torno de R$ 8 mil.

Sam Raimi, Woody Allen e Matheus Souza dirigiram, respectivamente, as três obras acima. Óbvia é a diferença entre a primeira, blockbuster até o caroço, e a segunda, do cineasta que fez do óculos de aros grossos uma espécie de crachá do movimento indie.

Souza gastou o equivalente a 0,0016% e 0,027% do custo desses filmes, nesta ordem, para sua estreia no cinema. Rapazote que cursa o penúltimo período de Cinema da PUC-RJ, ele chegou a rifar uma garrafa de uísque para ajudar a contar as últimas horas do relacionamento de um casal, vivido por Érika Mader (a gatinha que resolve sumir do mapa) e Gregório Duvivier (o nerd com – finja surpresa – óculos de aros grossos). Com uma única locação (a faculdade do diretor estreante) e equipe formada basicamente por estudantes, além da mão de ouro da produtora Mariza Leão (Meu Nome Não É Johnny), o filme, que entra em cartaz nesta sexta, 12, mandou bem nos festivais. Tanto na Mostra de São Paulo como no Festival do Rio, foi eleito melhor filme no voto popular. Fora isso, rendeu ao universitário cafunés de dois bambas do cinema brasileiro: Bruno Barreto e Domingos Oliveira – esse, além de lhe ter entregado a direção da nova montagem de Confissões de Adolescente, dá ao pupilo conselhos amorosos (“o melhor jeito de reconquistar uma garota é com uma dúzia de rosas brancas”) e roteiros “que adoraria que eu dirigisse”. Ao que tudo indica, Apenas o Fim é só o começo para Souza.

Uma pane na Telefônica deixou na mão os telefones de boa parte de São Paulo, onde fica a redação da Rolling Stone Brasil, justo no dia em que a reportagem do site marcou para bater um papo com o diretor. Nenhum problema para alguém a quem as referências pop vêm tão frenéticas como um carrão-robô do Transformers. Cria da geração online – há menos de três anos ele precisaria de uma identidade falsa para comprar uma cerveja -, Souza terminou a entrevista por e-mail. Nada mais normal para o garoto que, no roteiro de Apenas o Fim, cita de Jean-Luc Godard a Star Wars com a naturalidade de quem faz biquinho francês para reproduzir um diálogo entre os robôs C-3PO e R2-D2.

E lá se foram meses desde que Apenas o Fim estreou, no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo. O que você está fazendo agora?

Estou comendo muito biscoito de polvilho e miojo com ovo feito no micro-ondas. É só isso que tenho tido tempo de comer nos últimos dias. Escrevi o roteiro para uma revista em quadrinhos que será publicada no site Oi Quadrinhos e faço sete matérias na faculdade (daquelas que a gente adia pro final do curso). Estou também dirigindo a nova montagem para o teatro de Confissões de Adolescente, a primeira que não será dirigida pelo Domingos Oliveira. A peça deve estrear no Teatro das Artes (Rio de Janeiro) em agosto, com texto adaptado por mim e pela Clarice Falcão. Na área do cinema, além do lançamento comercial do Apenas o Fim, preparo dois novos filmes.

Depois do sucesso do filme, você virou tipo um superstar na faculdade?

Os professores me tratam como qualquer outro aluno: me dão falta, pegam no pé etc. Mas a maioria compreende. Quando eu perco um trabalho importante por estar num festival, por exemplo, me dão uma segunda chance. A minha sorte é que eu sempre fui bem CDF, então, mesmo cheio de compromissos e com a vida social arruinada, continuo a me virar bem com as notas. Com os alunos também não mudou muita coisa não. As garotas continuam a não me achar muito atraente, o que é triste, visto que entrei nessa profissão justamente por causa disso.

Quando o filme saiu, você caiu nas graças de Bruno Barreto e Domingos Oliveira. Continua em contato com eles?

O Bruno eu tive menos contato depois, mas o Domingos super me adotou. Ele conta que, assim que saiu da exibição do meu filme no Festival do Rio, saiu procurando minha mãe para saber se eu era um filho bastardo que ele tinha perdido por aí. Me chama para comer pizza, para viajar com os amigos, me dá conselhos amorosos e me ensinou que o melhor jeito de reconquistar uma garota é com uma dúzia de rosas brancas. Ele me convidou para ser assistente de direção numa peça que ele ia protagonizar e acabou me escalando para fazer o papel dele também. Entregou o Confissões de Adolescente para eu dirigir e diz que tem uns roteiros que adoraria que eu dirigisse.

Como é o novo roteiro? Você já falou de temer a “maldição do segundo disco”… (Na sessão de estreia da Mostra de SP, em conversa com a repórter, Souza comparou um novo filme “com o segundo álbum do The Killers”.)

Fiquei muito na dúvida de que tipo de filme fazer depois do primeiro. Fiquei analisando o que duas bandas que gosto muito fizeram após o sucesso do primeiro CD. O Strokes investiu no “mais do mesmo” tentando melhorar, é claro, mas fazendo coisas novas dentro do mesmo estilo. E teve momentos brilhantes como “The End Has No End” e “Under Control”. Já o Killers apostou numa nova sonoridade, em ampliar os horizontes, virar o U2 e blá blá blá. E tem momentos chatos como “Uncle Johnny”, mas de resto, Sam’s Town é meu CD favorito da banda. Então, na dúvida entre os dois caminhos, resolvi trilhar os dois ao mesmo tempo. Estou fazendo um filme chamado Por Enquanto (cujo título original, antes de me censurarem, era Não Deixe a Julia Ir Embora ou o Que Aconteceu Enquanto o Chinese Democracy Era Gravado), nos mesmos moldes do Apenas o Fim. Baixíssimo orçamento, ninguém ganhando nada, equipe formada por amigos. O filme fala sobre um cara que acordava todos os dias com uma frase na cabeça: “Não deixe a Julia ir embora”. Só que ele (o protagonista) nunca conheceu nenhuma Julia. No elenco estão Domingos Oliveira, Gregório Duvivier (meu Johnny Depp), Vitória Frate e eu. O segundo projeto, meu Sam’s Town, é maior. O filme (Pessoas Felizes) fala sobre duas pessoas muito infelizes que se encontram em certo ponto de suas vidas e decidem fazer algo para sair dessa situação. Criam e seguem então uma lista de coisas para fazer que chamam de “como ser feliz”, baseada numa série de livros de auto-ajuda, que tem itens como “se vingar de todas as pessoas felizes do planeta”.

Quando você terminou Apenas o Fim, ficou com medo que virasse “filme-de-um-público-só”?

Eu lia muitos livros de diretores e nove entre 10 diziam que o melhor jeito de aprender a fazer cinema era filmando. Então eu fui lá e filmei pra aprender. Nunca imaginei que o filme fosse ganhar prêmios, que fosse passar na Holanda e ser convidado para um festival na Eslovênia. É um filme, afinal que não sei é bom ou ruim, mas é bem simpático e funciona incrivelmente bem para um público determinado. É um filme jovem, feito por jovens, sobre um casal jovem. Mas, ao mesmo tempo, fala sobre o tema mais universal do mundo, relacionamentos. Qualquer um, de qualquer idade, já passou por um término de relacionamento. E é por isso que muitos adultos saem emocionados da sessão. Agora que vai ter gente que não vai gostar também, é um fato, e críticas fazem parte da profissão.

Qual foi o comentário mais esdrúxulo que recebeu pelo filme?

Alguém postou no Twitter que era o “fofomovie” do ano. Achei engraçado.

Jean Luc-Godard ou Kevin Smith?

Paulo Coelho (brincadeira). Impossível escolher. Um revolucionou o cinema, o outro me arranca lágrimas toda vez que eu assisto Procura-se Amy.

Lady Gaga ou Brigitte Bardot?

Scarlett Johansson (sério).

Uma canção que te defina.

“Eu Tô Tristão”, do Casseta & Planeta (brincadeira). “Cara Estranho”, Los Hermanos (brincadeira). “Creep”, Radiohead (brincadeira). “Eu Só Te Amo Porque Você Gosta do Woody Allen”, da minha antiga banda, Os Caras Legais. Se não valer, “I’d Rather Dance With You”, do Kings of Convenience.

O filme que você gostaria de ter rodado.

Uma Escola Atrapalhada, com os Trapalhões, o Supla e a Angélica. Deve ter sido a coisa mais divertida do mundo. E eu sempre choro no final.

Qual foi a referência pop mais tosca que você já usou?

O protagonista do Apenas o Fim diz que Transformers é melhor que todos os filmes do Godard juntos. E o filme passou em Paris, com um crítico da (revista de cinema) Cahiers du Cinema na platéia. Baita situação. Mas sério, Bumblebee + Megan Fox não dá pra resistir, a Nouvelle Vague que me perdoe.

Agora a gente sabe o duro que ele deu

maio 23, 2009

Texto feito na pressa nossa de cada pauta, para o site da Rolling Stone. Tinha visto o filme há séculos, no Festival de Paulínia, então a memória não era nenhum pão fresquinho quando escrevi. Enfim. Boa mesmo é esta notícia aqui. 

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Wilson Simonal costumava ser o Pelé das rádios. Mas acabou chutado para as últimas divisões da música brasileira.

Na década de 60, fez e aconteceu: regeu um coro de 30 mil pessoas no Maracanãzinho com “Meu Limão, Meu Limoeiro”, levou com um pé nas costas dueto com a sempre intimidante diva do jazz Sarah Vaughan e gozou de popularidade que só encontrava rival à de Roberto Carlos. Dele surgiu, ainda, o bordão “alegria, alegria”, devidamente caetanizado depois.

Mas, a partir da década de 70, sua carreira desancou ladeira abaixo. E desceu o fundo do poço. Lá ficou até a morte do cantor, em 2000, aos 62 anos, por problemas de saúde decorrentes do alcoolismo. Em 1971, um episódio nefasto, que lhe salpicou com a pecha de “dedo-duro da ditadura”, fez com que a breve menção de seu nome disparasse sirenes entre a classe artística. Outrora amado pelas massas, encontrou o fim da linha justamente quando todo um novelo de sucessos ainda estava para se desenrolar à sua frente.

Em cartaz nos cinemas, o documentário Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei, codirigido por Cláudio Manoel (sim, o “Seu Creysson” de Casseta e Planeta), Micael Langer e Calvito Leal, quer ver essa história passada a limpo – e não em nuvens brancas. E, em 84 minutos, vai atrás do vespeiro que, por quase quatro décadas, ninguém fez questão de cutucar. Seja para ver se dali saía o mel de um dos artistas mais populares que o país já teve, seja para encontrar o fel de um colaborador do regime militar, num momento em que vários artistas iam parar no saguão do aeroporto, rumo ao exílio; ou, pior, num lugar onde o buraco era mais embaixo: os famigerados porões do DOPS.

Simonal 12

Pai dos também músicos Max de Castro e Simoninha, o cantor foi comentado, no filme, por detratores da época, como Ziraldo, Sérgio Cabral e Jaguar – todos d’O Pasquim, jornal famoso por jogar política e sátira na mesma panela para ver no que dava. Com ou sem mea culpa. Já Boni, então chefão da Rede Globo, confessa que o cantor chegara a ser boicotado na emissora. Simonal pegava mal, com o perdão da rima. Do outro lado, foi lambuzado de elogios por Pelé, Nelson Motta e Chico Anysio – que viu a queda do típico “boa-praça” carioca como fruto “de um tempo de intolerância”.

A acusação de ser informante do SNI (Serviço Nacional de Informações) começou quando Simonal quis dar basta a uma coceira chatinha: desconfiava que seu contador estava o passando para trás. O músico, que – hoje a tese mais difundida – não bambeava nem para a direita, nem para a esquerda, tinha uns camaradas no DOPS. Alienado (o que não necessariamente quer dizer “aliado”) dos choques políticos do país, mandou um segurança seu (o tal agente do DOPS) ir lá “dar uma coça” no sujeito. E o cara chamou os amigos. Todos do órgão de repressão. Entrevistado pelos documentaristas, o contador, hoje recluso, negou a denúncia – alegou ter inventado a confissão após uma dura dos oficiais.

Daí para Simonal ser acusado de entregar diversos colegas da classe artística foi um pulo. E a queda foi feia. Isso tudo sem que um nome sequer de “dedurado” tenha surgido. Em entrevista ao site da Rolling Stone Brasil, Max de Castro lamenta “pelas coisas que aconteceram como aconteceram”. Mas diz que seu pai dançou no tribunal histórico sem ter direito de se defender. “Ele acabou sendo vítima do processo.” Mas e quanto à fatídica noite de 24 de agosto de 1971, quando agentes do DOPS estacionaram o Opala do artista à porta da casa do contador Raphael Viviani? “A atitude que ele tomou naquele momento…” Do outro lado da linha, uma pausa. “A gente tem que entender que todo ser humano erra. Errar faz parte da essência humana.” Max Também não teve vontade alguma de encarar o pivô do baque do pai. “Não tenho nenhum vínculo emocional.”

A tese do filme é clara: por ingenuidade, alienação ou pleno desinteresse, Simonal não ligava para política. Sua vida não era Ipanema. Definitivamente, ele não fazia, sequer o desejava, parte da intelligentzia carioca. Sua boemia era suburbana – e com orgulho. Para ele, as coisas se resolviam no braço, “entre homens”, mas isso não quer dizer que ele fez jus à fama de “dedo-duro” que tanto o assombrou.

O documentário não dá um ponto final no caso, mas abre novo capítulo de um livro que por muito tempo o Brasil tentou esconder na prateleira mais alta, da estante mais afastada. Mais do que ir atrás dos porquês,  é vital entender como o país conseguiu despachar “para a Sibéria” (termo usado pelo já falecido jornalista Artur da Távola) um artista tão onipresente nas paradas brasileiras.

O assunto não era muito tocado na casa dos Simonal, “pois éramos pequenos para entender”, disse Max. Mas o músico lembra de que a família teve de deixar Ipanema (“coração da intelligentzia carioca; onde o clima era muito hostil”) para “fugir das perseguições”. Acabaram se mudando para São Paulo, em parte para aliviar “os problemas emocionais que minha mãe teve”.

Além do documentário, no que já vem sendo chamado de “ano Simonal”, está para sair uma caixa com nove álbuns feitos entre 1961 e 1971 e a biografia Nem Vem Que Não Tem – A Vida e o Veneno de Wilson Simonal, do jornalista Ricardo Alexandre. Para Max, os 84 minutos de fita não teriam como dar conta de tanta história. “Assistindo ao documentário, parece que todo sucesso de meu pai aconteceu da noite para o dia. Mas foram anos. Desde shows em boates, para público de 40, ou quando ele estreou no Beco das Garrafas (famoso pico da boemia carioca da época, em Copacabana) até os 30 mil do Maracanãzinho.”

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Simonal, para o filho, deixou seu legado, ainda que “muita gente – principalmente os que nasceram dos anos 1970 para cá – não pudesse nomear, reconhecer a referência”. Djavan, por exemplo, começou cantando o repertório do autor de “Nem Vem Que Não Tem” em bares de Alagoas. “O próprio Luiz Melodia chegou para mim, em uma pré-estreia (do doc) no Rio, e disse que foi influenciado por meu pai, no início da carreira. Mas de repente alguns músicos sacaram que talvez não fosse tão bacana citar meu pai como referência. Isso poderia queimar o filme do cara.”

A iniciativa de Cláudio Manoel em levar o filme adiante foi, ainda hoje, um ato corajoso, afirma Max. Desde a primeira reunião, em 2001, muita gente tentou murchar o projeto. E não só antigos difamadores do cantor. “Mesmo amigos de Simonal, que temiam o tipo de abordagem que seria feita. Cláudio acabou vendendo o apartamento (para realizar a obra). Foi algo tipo, ‘mexeram no meu brio, agora eu vou fazer de qualquer jeito!’”, contou Max.

Para o músico, nascido um ano depois do malfadado capítulo da história da MPB, “o que mais me saltou aos olhos foi a questão de Simonal ser o primeiro popstar negro do país”. Ele continua: “Outro dia mesmo, um repórter negro veio me entrevistar. Eu cheguei e disse: ‘Bom, em 1967, meu pai tinha um programa no horário nobre da Record, a líder da época. E hoje? Que artista negro tem isso?’. O cara ficou sem resposta.”

Pois é, Simonal. Talvez  agora, finalmente, o Brasil saiba o duro que você deu.

“O Comitê”, 1968

maio 17, 2009

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Confesso (tomates à mão, rápido!) que nunca fui muito fã de Pink Floyd. Talvez tenha visto muito nova, pequei em não rever até hoje, mas o fato é que The Wall não fez meu queixo dar beijinho no asfalto.  

Mas um filme em especial sempre me encucou. Com trilha feita pela banda (recém-separada de Syd Barret), O Comitê foi lançado em 1968. E esse, fatalmente, foi o ano que não acabou para os fãs da geleia rosa, pois aquelas músicas jamais haviam sido prensadas em vinil.

E só piorava: dirigida pelo estreante Peter Sykes e com participação da malucaça The Crazy World of Arthur Brown, a fita d’O Comitê tinha sumido do mapa. Ido copular cateto com hipotenusa no Triângulo das Bermudas. Se perdido na poltrona nova da Hebe. Puft. Gone. Pirate Bay algum quebrava esse galho. Virou até lenda urbana.

Você sabe o que é, para um fã, saber que existe um pedaço do seu ídolo –perdido para sempre? Não queira.

Mas em 2005, como se fosse um urso polar em Lost explicado várias temporadas depois, a produção saiu em DVD. Ouvi falar dela por acaso, ano passado, mas não encontrei em locadora alguma do Rio e nem me dei ao trabalho de procurar na web (talvez porque, na época, minha internet fosse tão ligeira como uma senhorinha atravessando a Av. Paulista em seu andador).  

Dia desses, encontrei o  DVD após virar sócia da 2001 – se não a mãe de todas as locadoras fodaças, pelo menos a tia loucona que sempre te abastece com umas paradas meio psicodélicas, como é o caso deste filme. E, muito mais do que “um filme para fãs do Pink Floyd”, a fita é obrigatória para qualquer pessoa que falou, fala ou falará: “Nasci na década errada”.

Nada por acaso feita em 1968, a produção britânica é um filmeco indie de parcos 55 minutos, feito em P&B e influenciado pela visão de Harold Pinter e do psiquiatra R. D. Laing. Ou seja, coisa de doidão. E de doidão que quer ser levado a sério.

O protagonista, Paul Jones, era o vocalista do Manfred Mann, grupo  do sul-africano Manfred Lubowitz.

Agora, sobre o enredo: os 45 minutos finais são ocupados por uma questão filosófica que, francamente, mais parece coisa de um estudante de cinema da PUC que acabou de ler O Processo, do Kafka. Daquele tipo que quis fazer seu próprio filme sobre o ônus da burocracia e do julgamento que nunca se sabe ao certo de onde –e por quê, para quem– vêm.

Alguns closes sinistros, pausas “reflexivas”, papo contracultural. Climinha soturno. E nonsense. Tem os tais comitês, com “os escolhidos” (algo meio Iniciativa Dharma) pelo governo para deliberar questões aleatórias. Como o chefe do escritório de Jones, que lembra de, quando jovem, ter sido selecionado para um comitê –e lá passou dias decidindo qual era a mais redonda entre cinco laranjas

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Já os 10 minutos iniciais são geniais. Temos este cara ao volante que se põe a falar, “em vez de pensar”, como o personagem (no caso, um jovem pedindo carona) de Jones refletiria mais tarde. Então eles param no meio de uma floresta, a pedido do próprio motorista. Instala-se um desassossego, uma sensação clara de “vai dar merda” –colaborado, claro, pela sinopse na contracapa do DVD, que já nos antecipa um “assassinato bizarro“.

Então, talvez por tédio, quem sabe pelo tipo de perturbação filosófica incapaz de fazer o mesmo sentido hoje, nosso carona vai lá e decapita o motorista com o capô do carro.

A princípio, ele nos parece uma versão chá-das-cinco do Bandido da Luz Vermelha –uma anarquia menos suja e mais metódica, digamos assim. Ele passeia um pouco com a cabeça. Mas então ele vai lá e, pimba, a recostura de volta. E ela volta a funcionar.  A falar, “em vez de pensar”.

Introdução à história do cinema*

março 26, 2009

*ou Tudo o que você nunca quis saber sobre cinema e sempre teve coragem de não perguntar

Já que citei Woody no post anterior, aqui vai um texto de 2005, quando o estilo alleniano era meu pastor… needless to say: FAIL.

Neste primeiro módulo, ensinar-se-á como a retaguarda audiovisual europeia se debruçou nos clichês mais inusitados e nos lugares-comuns menos visitados para alçar nomes como John-Luke Godard e Frank Truffaut à Imortalidade, um lugar especialmente agradável para quem está em dia com o aluguel e satisfeito com a cor de seu cabelo.

O caixeiro-viajante será um personagem bastante radiografado por aqui. Figura popular em países altamente impopulares, ele imprimiu forte fascínio em toda uma geração de artistas, literatos e vendedores de enciclopédia. Sua história de vida já inspirou tramas inesquecíveis, como os épicos E o Correio Levou… e Minha Vida de Inseto, ambas dirigidas por Alfred E. Newman, cineasta talentoso porém amargurado pela crescente suspeita de que sua mulher o traía com seu eu lírico toda vez que ele saía para comprar alcachofras.

Croach Fiction – Tempos de Correspondência talvez seja o mais belo expoente do movimento retaguardista, cujo principal conceito-fetiche é o uso de guaxinins enraivecidos para o papel da mocinha. O longa-metragem foi filmado em pleno Morro dos Ventos Uivantes – point mais badalado dos alternativos desde de que se descobriu que o ar da Colina das Brisas Sibilantes só era próprio para algumas espécies mais prosaicas de vida, como bactérias, arbustos e high schools americanos.

O corpo docente não deixa margem de dúvida quanto à excelência de seus catedráticos, começando pelo próprio diretor do curso, Andrrré Bazãn, fundador do histórico Cahiers du Cinemá e peso-pesado em todos os sentidos: não bastasse ser dono de uma perícia cinematográfica sem igual, ostenta ainda uma compleição física capaz de comportar uma gêmea Olsen em cada perna.

Air-Bargman, cineasta e sociólogo dedicado ao estudo de hábitos culturais e marchinhas de carnaval suecas nas horas vagas, é o responsável pela cadeira de Sociologia, Hábitos Culturais e Marchinhas de Carnaval Suecas nas Horas Vagas. Infelizmente, o mais provável é que a turma perca a maior parte de sua fala por causa do lendário problema fonodiólogo, que faz com que ele só consiga lecionar suas aulas aos gritos e sussurros. (O mais intrigante é o fato de sua audição ser, particularmente, bastante sensível, visto como toda vez que um aluno emite qualquer tipo de som da aula, ainda que para respirar ou recitar o refrão de I Will Survive em turco, ele imediatamente o xinga de Smultronstället e deixa a sala desabalado em ritmo de marcha atlética.)

Outro cineasta que costumava dar as caras por lá era Roman Polanski, a cargo do módulo sobre a decupagem de menores. Contudo, ele foi obrigado a abandonar a carreira por motivos de uma força menor de idade.

É claro que muitos outros nomes importantes já circularam pelos corredores da faculdade, mas a verdade é que, desde a última grande crise entre Bazãn e seu sanduíche de carne, que se recusava a ser chamado de hamburguer por uma nova geração de estudantes americanófilos, grande parte dos professores se aposentou. Acabaram em Hollywood, onde filmariam documentários sobre o acasalamento entre espécies completamente distintas do mundo do espetáculo, como estrelas de cinema e os Oscares de Melhor Efeito Especial e Edição de Som de 1996.

Até o fim do período, o aluno terá mudado para sempre sua relação com a Sétima Arte.  A começar pela capacidade recém-adquirida de citar a filmografia de Pasolini de trás para a frente e pulando numa perna só – o que no futuro lhe renderá, rigorosamente, nenhum sexo e algumas bolinhas de papel numa roda de discussão. O estudante passará da condição de iniciante para iniciado, conquistando, assim, o direito de desferir opiniões consideradas válidas pela Academia.

As regras básicas são: nunca deixar de falar mal do cinema hollywoodiano e passar manteiga no sapato de outros cinéfilos como prova de superioridade. Mas sem dúvida a maior lição a se aproveitar após um semestre de curso será a revelação de que a vida pode até ser curta; um filme de Fellini, contudo, nunca o é.

zepexercritica

Entendeu ou quer que Arnaldo Branco desenhe?

No cinema mais perto de você

dezembro 11, 2008

É dia de formatura na High & Stoned School Musical  e  Amy Winehouse vive* o papelote de sua carreira como a doce e pura (aliás: purinha, doutor, pode confiar) Chapadelle. Ao  longo de duas horas, nossa heroína (opa) exibe todo seu balacobarraco, ziriguidum, telecoteco e forrogoró para descolar do mesmo bagulho que afinal teria deixado seu Príncipe tão Encantado. Para embalar, empacotar ou apertar (a gosto do freguês) a aventura da nossa Bela Entorpercida, a fina flor – erva também serve – da música de Beck, o californiano que, muito antes de a economia americana sacar o outro lado da história – o clássico “tomar no cu” -, acusava a MTV de propiciar o crack na bolsa da galera.

amy_winehouse2_thumb1The hills are alive with the sniff of music

*Até o fechamento deste post, a informação verbal procedia. Não  fode.