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Da porta da casa à serventia da casa

outubro 29, 2008

Foi entre quatro paredes rosas que se conjugou o Pretérito perfeito de Gustavo Pizzi, documentário sobre os tempos meretrícios da Casa Rosa, com pré-estréia anteontem, no Unibanco Arteplex. Para acariciar o passado de veludo do nº 550 da Rua Alice, o cineasta recrutou ex-clientes como Lobão e Lan e a prostituta Ivanilda Santos de Lima, 65 anos. O filme entra no escurinho (opa) do cinema dia 31. Abaixo, matéria que fiz láááá atrás, para a revista Domingo de 4 de maio (algumas infos acrescentei hoje), sobre o filme. Boa noite e espero que este post tenha sido bom para você.

Ivanilda em frente à casa onde amor com amor (e algo mais) se pagava

E ai de quem conteste Cartola: as rosas, flor, não falam. Já as paredes rosas, cor, do nº 550 da Rua Alice poderiam passar horas discorrendo pelos cotovelos e ainda guardar um pratão de histórias para a sobremesa. Eis a Casa Rosa hoje: centro cultural e ponto de encontro para festas como o Verde e Amarelo, com o DJ Marcelo Janot nas carrapetas (quórum médio: 600 pessoas), e a feijoada dos domingos, com Batuque na Cozinha (700 pessoas). O cineasta Gustavo Pizzi, contudo, rebobinou esse rolo e foi ao encontro de tempos em que o casarão era um dos prostíbulos mais famosos do país, onde políticos, artistas e outros ilustres prolongavam, com o perdão do trocadilho, o happy hour de outrora. O assunto pegou de jeito o rapaz, que arrastava o pé nas noites de forró desde a reabertura da casa, já sem o predicado à Bebel, em 1996. Baixou o caboclo Glauber e, com câmera na mão e a tal da idéia na cabeça, ele foi realizar seu primeiro longa, depois de trabalhar com Karim Aïnouz, Bia Lessa e Jonathan Nossiter. Nele, recrutou personas que, de um jeito (a trabalho) ou de outro (dando trabalho), viraram risoto-de-festa no célebre prostíbulo, como os artistas Lan e Lobão, além da grande estrela do filme, Ivanilda Santos de Lima, 65 anos, que começou a trabalhar na Casa Rosa aos 15. O que caiu como uma luva – longa, de veludo, com uma piteira entre os dedos anular e médio – foi o título do filme, Pretérito perfeito, a ser lançado em outubro.

Primeiro, o tropeço. Gustavo partiu para a pesquisa e, com duas semanas na Biblioteca Nacional e café suficiente para encher uma piscina olímpica, conseguiu… nada. Se as informações relevantes sobre o passado meretrício da Casa Rosa apareciam em algum lugar, era nas entrelinhas – porque nas linhas das publicações, de fato, não estavam. “Muita gente importante circulava por lá, mas elas, por motivos óbvios, preferiam ficar na encolha”, o cineasta explicou. Político, então, tinha aos montes. Afinal de contas, o Palácio do Catete era logo ali e, volta e meia, reuniões se prolongavam madrugada afora no prostíbulo (o irmão do presidente Getúlio, Benjamin Vargas, era figurinha carimbada nos quartos rosados). Mas Gustavo acabou gostando da idéia de filmar no escuro (opa). Sem usar imagens de arquivo, fez um filme todo baseado na memória de pessoas que passaram pelo nº 550 antes de o bordel fechar as portas e recolher as cintas-ligas, em 1991. “Uma foto, por exemplo, empobreceria a experiência com uma idéia pré-estabelecida. Assim, cada espectador cria uma imagem diferente.”

A primeira vez de Gustavo Pizzi… atrás das câmeras

Depois, o tombo. Com a ajuda de Gilson, que trabalha na Casa Rosa desde os 16 anos (começou como segurança da cafetina da época e, hoje, é uma espécie de faz-tudo), Gustavo localizou várias mulheres que trabalharam lá. Esbarrou com mais de 30 delas. Em vão. Algumas tinham se transformado em “senhoras de respeito”. Outras viraram donas de outros bordéis – muitos na Vila Mimosa – e queriam cobrar pela entrevista. De porta na cara em porta na cara, acabou topando com dona Ivanilda.

Breve dossiê Ivanilda: expulsa de casa aos 12, perde a virgindade aos 13, vai trabalhar na Casa Rosa aos 15 e, depois de passar por quase todas as zonas de prostituição da cidade, tem, aos 65, casamento aberto, alguns clientes de longa data e uma ONG sob sua tutela, a Fio D’alma, que zela pelas profissionais mais antigas do mundo e realiza campanhas de prevenção a DSTs. E Ivanilda, que hoje também se considera “uma educadora sexual”, bate no peito com orgulho: prostituta, sim. Com bold e tudo. “Falar ‘profissional do sexo’ muda alguma coisa, oras?”, ela dá o pé na bunda do politicamente correto. Ao ser questionada se happy hour só mesmo para a clientela ou se é possível tirar uma casquinha, manda o bate-pronto: “Prazer? Às vezes acontece esse acidente de trabalho”. Ultimamente, Ivanilda andou com vontade de ter casa própria. Na zona. O estabelecimento só teria maiores de idade, mas ela desistiu, já que seu desejo era uma ordem – de prisão, isto é. “A sociedade primeiro usa, depois acusa. Quando estão por cima, jogam R$100, R$200. É só sair e nos jogam direto na cadeia”, lamenta. Nelson Rodrigues disse, certa vez, que Copacabana vivia, por semana, sete domingos. Se depender de dona Ivanilda, essa afirmação se estende também àquele pedacinho rosado das Laranjeiras, no qual trabalhou quando tinha apenas 15 anos. A convite de Gustavo, voltou para a Casa Rosa meio século depois. Pretérito perfeito ou imperfeito? Está mais para a primeira opção. “Me senti de volta a uma época em que era linda, jovem, sem juízo. Nunca achei que ia voltar.”

A casa (rosa) dos artistas

A casa podia até ser, mas o mar nem sempre era de rosas. Quando os homens de farda chegavam para fazer uma batida policial, um plano de fuga era acionado: meninas e clientela saíam em debandada para a escada e escapavam por uma portinha, que desembocava em um trecho mais acima na Rua Alice. Daí em diante, era cada um por si. Roberto Amaral, o Marujo, cliente célebre, conta que a casa era dos poucos lugares em que se podia falar de política à vontade nos anos chumbados da Ditatura. As especulações sobre quem batia o ponto na lista de visitantes é alta. Fala-se do presidente Getúlio Vargas e seus ministros, dos cantores Nelson Gonçalves e Waldick Soriano e do piloto austríaco Nick Lauda. E, no meio de campo, a equipe do Fluminense (que treinava lá pertinho) e a trupe campeã da Copa de 70, que teria ido comemorar os louros da vitória com as louras (e também morenas e ruivas) da casa.

Seu Juca, dona Ivanilda e Roberto Amaral, o Marujo

Quem é rato da Lapa já derramou alguns (ou vários) canecos de chopp na Taberna do Juca. Poucos sabem, no entanto, que o dono do estabelecimento – e do célebre bigodão branco – era dos mais assíduos na Casa Rosa. Quando a cerveja acabava, era Juca, a pedido da cafetina, quem trazia novos cascos do Bar Serafim. Cresceu, encorpou o bigode e, hoje, é dono do Serafim e de outros seis points do ramo.

O plano de Lobão era montar uma banda de rock para ser o rei do iê iê iê e, na garupa do sucesso, descolar algumas gatinhas. A teoria não era de todo ruim. A prática é que mandou mal para caramba. “A banda parecia um monastério, a gente ensaiava sete, oito horas por dia”, conta. Foi preciso quase 18 anos e uma boa dose (dupla, sem gelo) de coragem para girar a maçaneta da Casa Rosa, no fim dos anos 70, e ter a sua primeira vez. Que, pelo jeito, ele nunca esqueceu. Após “virar homenzinho” na casa, Lobão logo sacou que contrair DSTs, na época, era a maior tiração de onda entre a galera. “Uma questão antropológica interessante. Gonorréia era um charme!” O músico teve duas.

O italiano Lan se mudou para o Rio em 1952 e, no mesmo ano, deixou-se iluminar pela luz vermelha da Casa Rosa pela primeira vez. Na época, foi-lhe dito que o prostíbulo era tão ou mais importante que o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar. De fato. E de quatro também. Passou de turista a habitué em uma piscadela de olhos. Numa das vezes, champanhe vai, champanhe vem, e o cartunista acabou se desculpando com a acompanhante e capotando na cama.

Fotos: Mauro Kury

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