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Todo o chucrute à garoa

outubro 24, 2008

Matéria caretinha feita para a próxima revista Domingo (JB) sobre o Wim Wenders, a quem entrevistei (toma essa, amigo cinéfilo) na Mostra de SP. Foram 15 minutos cravadinhos de papo, então, vamos lá, perdoai a repórter nervosa, ela não sabe o que faz. D’accord? 

Wenders, no Aeroporto de Garulhos

No anexo do Espaço Unibanco paulista,  mechas grisalhas e revoltas enroscam-se nas anteninhas cinéfilas, todas em polvorosas. 

Peixe mais graúdo a cair no radar da 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Wim Wenders, como comenta uma fã à repórter, “tem aquele look cool” que, de cara, nos martela na cachola: “Tá na cara que é o  Oswaldo Montenegro cineasta”.

A primeira impressão, contudo, logo se vai. Introspectivo – tímido, até -, o diretor de Asas do desejo circula como um Dalai Lama sabor chucrute pelas salas que exibem os 15 filmes escolhidos por ele para integrar a Mostra, no projeto “carta branca”.

Um deles é Os primeiros anos de Wim Wenders, de Marcel Wehn. De título auto-explicativo, a fita lembra momentos como os cerca de mil filmes assistidos pelo alemão na Cinemathèque, em Paris, ou ainda o colapso circulatório que quase fez o jovem Wim travar uma conversa de botas batidas com o Senhor, após infeliz combinação de três biscoitos de haxixe com doses cavalares de uísque. “É engraçado falar um filme no qual você é a vítima”, confessou o cineasta ao introduzir o filme na noite anterior, no Cine Bombril.

De volta ao Espaço Unibanco: antes de começar o papo com a coluna, Wim, alheio que alguém o observa, tira do gancho o telefone de um orelhão próximo, confere se há sinal e desliga em seguida. A ação pode parecer boba, até inconsciente, mas parece dizer um bocado a respeito do alemão, que, tal qual um Quixote da sétima arte, busca solução cinematográfica para a linha cruzada entre pobres e ricos.

“Quero agora dedicar meu trabalho à maior questão do planeta, a pobreza. Com a crise, os mais ricos ficaram um tiquinho mais pobres, enquanto os mais pobres ficaram ainda mais pobres.”

Nesse ponto, aliás, ele dá uma estrelinha dourada para o Brasil do amigo Walter Salles. “Aqui é um lugar excitante para as mudanças sociais”.

À sobrancelha em anzol da repórter, acostumada com um Brasil que, fora de campo, só dá bola fora, Wim exemplifica: “Dois meses atrás estive em Salvador, que não visitava há 10 anos. A cidade estava cheia de shopping. Da outra vez, não vi um para contar história. As coisas mudam muito rápido por aqui, não acha?”. Pode ser, Wim. Pode ser. 

O homem de 63 anos comentou ainda a afirmação dada em sua última visita ao Brasil, em agosto – na ocasião, lamentou que, por conta do ainda recente nazismo, o cinema alemão era órfão (Fritz Lang seria uma espécie de avô distante). “Agora vêm os filhos. O novo cinema novo alemão novo é profundamente rude, realista.”

Wim – que não põe muita fé em um cinema global (“eu só acredito no que é local, no que pertence a algum lugar. O filme que quer uma verdade maior e não específica tende a ser entediante e inútil”) – acredita que já, já a revolução digital chegará à distribuição, e não apenas à produção cinematográfica.

“A porta continua estreita. Mas muitos já preferem ver filmes na Internet a ter de esperar pelo cinema, mesmo com a qualidade, que ainda não é das melhores.”

Sobre o nariz torcido de boa parte dos críticos a seu novo filme, Palermo shooting, o diretor fez contorcionismo ainda maior com a napa: “Muitos deles não deixaram que o filme os tocasse. Falar de morte não pode. A crítica não deixa”. 

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