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Hamlet for dummies

março 17, 2009

(  ) Ser

(  ) Não ser

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Conversas com Wagner

março 17, 2009

Matéria que fiz pra revista Domingo, do #jornaldebolso. O nascimento do capitão Hamlet, ou Capitão Nascimento Hamlet, ou… bah, algo por aí. Guenta porque tá grandinha.  

hamlet_wagner

Seis amigos perguntam e Wagner manda: não quer saber de um Hamlet “dinamarquês, lourão e deprê”

Hamlet é o Everest de todo ator. E notícia não  há de um que não tenha dado uma balançada que seja diante da avalanche de complexidades empilhadas sobre o príncipe de Shakespeare. Acontece que Wagner Moura é um alpinista teatral nato. E pode apostar: nada fácil é, neste mundo forever young de hoje, interpretar um personagem com 408 anos para pôr na conta. No palco, o ator baiano quica, pula e joga o dendê de uma baianice que jamais ousou disfarçar. Antes, diria ao camarada Zé Celso que não quer saber de um Hamlet “dinamarquês, lourão e deprê”. Se passar uma tarde em Itapuã com o dramaturgo inglês – um dos maiores que a História nos deu, senão o maior – é válido? A maior parte dos críticos parece dizer sim ao painho William, se depender da atuação, incensada pela  intelligentzia paulista, de Wagner no papel-título de Hamlet, dirigido por Aderbal Freire-Filho e desde quinta-feira em temporada carioca, no Teatro Oi Casa Grande.

“Essa história está entranhada em todas as culturas. Cada ator tem sua pegada, e a minha é mais emocional. Não quer dizer que nós vamos fazer Hamlet nas areias de Copacabana só por que estamos no Rio, mas na nossa peça os personagens se tocam, se abraçam. Na Dinamarca posso te garantir que não seria assim”, disse o ator, por telefone, à coluna, dois dias antes de estrear na cidade.  

Para Wagner, é simples: a erupção de questões – eis as eternas questões! – vinda à tona com o assassinato do pai do personagem funciona como uma espécie de Lav-Lev para a alma. E crise existencial, daquelas que rasgam nosso pré-conceito do mundo com a eficiência das facas Ginzu, não respeita sexo, idade ou país de origem. “Hamlet pode ser mulher, velho ou garoto. Todos somos Hamlet ou ninguém o é. Desconfio de qualquer discurso que deseje aprisionar o papel a um perfil assim ou assado.”

Nós também, Wagner. Nós também.

E eles idem: nestas páginas, seis colegas que tiveram sua vez com o ícone shakespeariano, à frente ou atrás do palco, questionam o baiano sobre a responsa de encarar o  personagem que todo ator gostaria de encontrar no pé da meia em dia de Natal. Vamos nessa?

Zé Celso Martinez Corrêa, diretor, em 93 levou aos palcos montagem de Hamlet, o qual considera “mais forte que Jesus”

Minha pergunta ao nosso querido Wagner Hamlet Moura – ‘To be or not to be’ ou ‘Tupy or not Tupy’?

Wagner: Zé amado, queria tanto que você tivesse visto a peça aí em Sampa. Várias vezes eu me pegava em cena pensando: acho que o Zé vai gostar disso. Respondo categoricamente: TUPY OR NOT TUPY. Nosso hamlet em nada atende o desejo dos que querem ver aquele dinamarquês frio, lourão e deprê. Ele é  feito por artistas brasileiros, que têm em sua cultura a porta de entrada para o entendimento da tragédia de Shakespeare. Aqui as personagens se tocam sem medo. Não temos medo da emoção, tão cara ao povo latino, porque estamos embasados na compreensão que temos do texto. Nossa compreensão é só uma entre milhares, o lourão triste também é ótimo, mas eu não saberia fazê-lo.

Cláudia Abreu, atriz, aos 21 interpretou interpretou o personagem na peça Um certo Hamlet

Quando eu tinha 20 anos, o Abujamra me chamou para fazer Hamlet. Minha primeira reação foi ter medo de não dar conta da complexidade do personagem. Durante os ensaios, em algum momento, você teve vontade de pegar um táxi e ir embora por puro pânico?

W: Cacau, adoraria ter visto o seu Hamlet. O sucesso que ele fez  só comprova minha certeza de que estamos tratando aqui de um personagem inesgotável. Tenho certeza que cada pessoa tem aquele príncipe dentro de si. E que arte  tão superior a todas que é o teatro! Ali tudo pode. Adoraria ter visto, por  exemplo, Paulo Autran fazer Hamlet com 80 anos, tenho certeza que quando ele  pisasse no palco, ninguém iria estranhar. Essa complexidade, em vez de  assustar, só me deu coragem. Eu pensava: existem milhões de formas de fazer  esse personagem, eu não pretendo dar nenhum testemunho definitivo sobre ele, eu só vou apresentar o meu. E assim foi.

Antônio Abujamra, diretor teatral, responsável pela montagem de Um certo Hamlet, em 91

Quando você entra em cena, é capaz de olhar dentro de si mesmo sem susto?

W: Não, Abu.  Cada dia é um susto, todo dia tem susto. E o susto é fundamental. Eu tenho entendido muito o significado do termo work in progress com esse personagem. Esse Hamlet é um amálgama muito violento do que está sendo dito naquela hora e do que eu sou. O cara que estreou essa peça em junho de 2008 não é o mesmo que está aqui agora, portanto meu Hamlet vem se transformando muito, principalmente por conta dos sustos que eu me permito tomar todo dia. Esse canal está  permanentemente aberto. Desconfio muito dos críticos que vem com muito psicologismo pra cima de Hamlet (embora os psicólogos o amem). Digo isso porque creio que com esse cara não tem “não pode”,  não tem “ele não faria isso”, “não agiria assado”. Não acho que Stanislavski seja a melhor porta para Shakespeare. Os caras que vem com essa conversa não tem a menor ideia do que seja tomar um susto em cena.

Marco Ricca, ator, encarnou o papel-título em Hamlet, espetáculo dirigido por Ulysses Cruz, em 96

Quantos fantasmas você já “enxergou” além do Pai Hamlet enquanto estava em cena?

W: Fala, Ricca, meu irmão! Você bem sabe que a gente ali vê é coisa. Os
fantasmas são muitos…a peça é um mergulho muito grande na consciência de um personagem muito complexo, como eu disse, é inevitável o mergulho para dentro de si próprio. E os meus fantasmas são muitos. Mas eu não fujo deles, aquela arena é nossa, não dá para correr do touro ali. O mergulho na natureza humana que Shakespeare propõe é vertiginoso e tem dias que o negócio fica puxado. Mas eu tento estar muito presente ali, inteiro, entregue: meus medos, minhas dores, minhas culpas, meu sublime, meu trágico. A dor e a delícia de estar vivo. Não é para isso que serve esse negócio?

Marco: Você já está de “saco cheio” de ouvir o quanto você é corajoso de montar esta peça?

W: Não. Tenho que admitir que gosto de escutar isso. Vou dizer porquê: essa coragem que nós tivemos é o oxigênio desse nosso negócio. Não existe arte sem risco, arte segura. Segura é a poupança. A coragem é inerente ao nosso ofício. Um ator tem mesmo que ser corajoso para pisar no palco, porque, se entrar em cena com o freio-de-mão puxado, vai ser engolido ali. O teatro não perdoa covardia. E é preciso mesmo um suplemento extra de coragem para dizer aquelas palavras escritas há mais de quatrocentos anos, sabendo que todo mundo já escutou aquilo alguma vez na vida. E muita gente queria escutar de um jeito que não é o seu. Então não vou negar: eu gosto quando dizem que montar Hamlet é um ato de coragem porque tenho consciência que, de fato, é, simplesmente porque não há como ser diferente.  Fico com a frase de Glauber: “Na minha arte, mais importante do que o talento é coragem”.

Enrique Diaz, diretor da Cia dos Atores, optou por descontruir a vida do príncipe em Ensaio.Hamlet

Quando ”conversa’ com Hamlet, você sente que nada importa, que não somos donos de nada (nem de nós mesmos, que dirá de nossas supostas conquistas), que estar preparado é tudo?

W: Kike, seu ‘Ensaio.Hamlet’ é uma obra-prima. Eu me sinto conversando, sim. Hamlet é o teatro da vida.  O efêmero, esse fogo que queima no teatro é também o fogo que queima na vida. Hamlet é um pouco deste périplo que é viver e a perplexidade dentro desse mistério. A peça lança (como nenhuma outra obra de arte que eu conheça) uma centelha de alívio a perguntas que não tem respostas: de onde viemos, para onde vamos, o que somos, o que caralho estamos fazendo aqui. Essa conversa se dá todos os dias quando piso no palco para dizer esse texto. É tudo fogo, o teatro, a vida… Estar pronto é tudo.

Diogo Vilela, ator, em 2000 descoloriu o cabelo e entrou de cabeça na montagem dirigida por Marcus Alvisi

Qual desses momentos que mais te emociona como ator? Que mais te pega, que mais te deixa próximo do personagem como pessoa?

W: Diogo querido, lembro bem de sua emoção. Vi seu Hamlet bem de pertinho do palco. Como eu disse, vou vivendo esse Big Brother com o príncipe e cada dia me surpreendo com ele e depois comigo, com a gente, com a mistura que somos e por aí vai. Mas desde que estreei, me emociono muito com o monólogo de Hécuba, na última cena do segundo ato, uma fala que exorta o poder dos atores e do teatro, dita por atores, num teatro. me emociona muito, todo dia. O teatro como revelador da verdade. É com o teatro que Hamlet agarra a consciência de Claudios. Que coisa linda em tempos de BBB.