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Toda nudez será castigada

outubro 11, 2008

Tudo bem, o Festival do Rio mal chegou a fazer cócegas. Talvez eu tenha visto filme de menos (a quem possa interessar: foram 13), mas o que ouço por aí é que em 2008 a coisa não levantou (opa) mesmo, não. (Se Morpheus perguntar: escolha a pílula azul.) Mas vamos ao que importa: senti uma baita vontade de escrever sobre o episódio mais absurdo que vi este ano – o piti que o Pedro Cardoso deu na estréia do Domingos Oliveira. Então. Fiquei com preguiça de fazer uma análise mais, uhn, autoral. Colo abaixo o texto que fiz sobre o assunto para a coluna da Helô, na qual estagio (alguém precisa fazer o trabalho sujo), lá no Jornal do Brasil. A enquete foi feita com a ajuda da Flávia Martin, mas como ela nunca passa por aqui, finge que fui só eu. Obrigada e volte sempre. 

Discussões sobre a nudez, em pleno século 21, pareciam fadadas a criar limo. Pois Pedro Cardoso fez questão de ser o lenhador dessa fogueira, anteontem, no encerramento da Première Brasil (Todo mundo tem problemas sexuais, de Domingos Oliveira), no Odeon BR. Em 10 minutos (que, verdade seja dita, pareceram bem mais), o ator leu um manifesto cuja intenção era dinamitar o nu nas telinhas e telonas brasileiras. No começo, parte do público – e da equipe também, se depender dos olhares enviesados e dos risos amarelados – não sabia se era para levar a sério ou não. Era. Cardoso, inclusive, esclareceu ter pedido a Domingos que o filme da noite (baseado em peça homônima, também com a participação do ator), apesar do nome espevitado, não contivesse uma ceninha sequer com o elenco vestido de vento. Seu desejo foi uma ordem. “Quando hesitamos diante de um diretor que nos pede a nudez, ele fica bravo, faz má-criação, como uma criança mimada, porque se considera no direito a ela. E se a atriz for jovem, é bem capaz que ainda ouça desaforos”, disse. Cláudia Abreu, companheira de set no filme de Domingos e que tem nu frontal n’Os desafinados (Walter Lima Jr.), apoiou o chororô do Augustinho da Grande Família. “Como atriz, endosso tudo o que Pedro falou. Eu mesma passei por algo parecido recentemente”.  A coluna ouviu alguns profissionais que, à frente ou atrás das câmeras, se envolveram com cenas que só fazem atender “ao voyeurismo e à disfunção sexual de diretores e roteiristas”, como manda a cartilha de Pedro Cardoso. A fogueira arde.

Dira Paes, atriz: “Aprecio muito o trabalho do Pedro. Mas acho que a gratuidade do nu é que é o pornográfico. Já fiz personagens com atitudes pornográficas e nem por isso fiz filme pornô. A pornografia faz parte da nossa sociedade e não se restringe ao nu”.

Walter Lima Jr., diretor: “Não estou entendendo essa declaração esdrúxula. A discussão sobre nudez é antiqüíssima. Depende da necessidade da cena. No meu caso, não obriguei ninguém a ficar nu. Não rolou constrangimento. Vamos lá, existe o roteiro, o contrato. Vai ver o Pedro Cardoso não fica bem nu”.

Lilian Taublib, atriz: “Você pode usar como linguagem tanto se despir como se vestir. Eu, por acaso, tive de me despir numa situação delicada (Lilian, que não tem uma perna, tem cenas de nudez em Crime delicado, de Beto Brant) e não tive o menor problema com isso. Há pessoas que olham para um corpo nu, se atraem por ele e esquecem que existe uma personagem ali. Vai procurar direito o que é pornografia, sabe? A discussão é de um atraso que me cansa”.

Helena Ignez, atriz e diretora: “No meu filme Canção de Baal, Simone Spoladore fica completamente nua, mas é poético. Julio Bressane disse que nunca tinha visto uma mulher tão bem filmada no cinema brasileiro. Mas o manifesto de Pedro é válido, porque eu também detesto ver mulher como objeto sexual. Como atriz, também sempre soube me defender. Ou recusava o projeto como um todo, aí até a cena de nudez, ou entrava de cabeça”.

Fernando Coimbra, diretor: “A vergonha do corpo é que deveria ser uma vergonha. Fiz Teatro Oficina por 12 anos e fiquei nu em peças. O diretor Luiz Carlos Lacerda até fica nu em cena quando o ator tira a roupa. O que me incomoda é a cena em que o cara acabou de transar e sai de cueca! Não precisa de plano ginecológico, mas o nu é natural”.

Murilo Salles, diretor: “Acho um apriorismo superficial dele. Pode perguntar a Leandra Leal se eu a obriguei a ficar nua. Foi um trabalho de meses de preparação. O ator é um adulto, um profissional que lê o roteiro, assina contrato, se propõe àquilo”.

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