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Peter Greenaway não joga verde

novembro 17, 2008

Entrevista minha com Peter Greenaway. Saiu no Caderno B (Jornal do Brasil) de domingo. Sem PDF, com preguiça, beijos mil.

notv_peter_greenaway_0542Peter Greenaway em ação na ‘Tulse Luper Suitcases VJ Performance’

Era 28 de dezembro de 1895 quando os freqüentadores do Grand Café do Boulevard des Capucines, em Paris, se maravilharam com aquela estranha geringonça, capaz de reproduzir imagens – em movimento! – de operários em fim de batente na usina Lumière. Assim, com um filmete de menos de um minuto de duração produzido pelos irmãos Auguste e Louis Lumière, o cinema se introduzia para o mundo como uma senhora arte. O prazer em conhecê-lo foi todo nosso. Passaram-se 113 anos e hoje ele está mais para uma arte senhora. Prestes a bater as botas, aliás. E já vai tarde. Pelo menos é o que pensa o (ontem) cineasta e (hoje) multiartista Peter Greenaway, que terça-feira leva ao Teatro Oi Casa Grande a Tulse Luper VJ Performance, espelho de uma sétima – oitava? – arte mais à vontade com nossos tempos multimídia. De seu estúdio em Amsterdã, Holanda, o diretor de O Cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante conversou por telefone sobre esse e outros tópicos com o Jornal do Brasil, mas não sem antes tirar o alfinete do bolso para a invenção velhinha de Graham Bell e lançar a seguinte proposta:

– Por holograma, você “vem” ao meu estúdio em Amsterdã fazer esta entrevista. Isso não seria maravilhoso?

E tem como negar? A sugestão inspirou-se no dia em que a CNN levou o mundo de volta para o futuro com a imagem holográfica da repórter Jessica Yellin (em Chicago) comentando a vitória do então candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, Barack Obama.

– O que a CNN fez ontem o resto do mundo vai fazer amanhã. Foi mais excitante do que qualquer coisa vista hoje no cinema – defende o galês, para quem a atual produção cinematográfica é motivo de bocejos. – É entediante e fora de moda. Do tipo em que bastam cinco minutos para saber o que vai acontecer dali para frente.

Calma lá: nem tudo está perdido. E esse triunfo não é tão recente assim. De repente, o espectador passou a ter na palma da mão – literalmente – o poder de participar ativamente do ritual audiovisual, como saúda o entusiasta das mídias digitais:

– Em 1983, o controle remoto entrou na casa das pessoas. A audiência conquistou o direito de escolher o que assistir ou não. O cinema parou de ser tão elitista. Ainda bem.

Do lado de lá da Linha do Equador ressoa a voz fantasticamente empostada, que lembra a do mestre-de-cerimônias de um circo – vinda do homem que, por suas posições ideológicas, quer mais é respeitar o respeitável público plugado no século 21.

– Devemos rir, rir, rir de tentativas como as de Oliver Stone e Martin Scorsese e seus filmes antiquados. Laptop, TV, hologramas, celular e tudo mais – essa é a linguagem na qual devemos apostar. Devemos encarar os novos tempos com entusiasmo. Que joguemos fora os antigos métodos de se produzir cinema! – recomenda Greenaway. – Agora, 10 mil novos artistas podem fazer seus próprios filmes com os novos aparatos digitais.

O multiartista acredita que a experiência de passar algumas horas no escurinho do cinema, e posição passiva ao que se vê na tela, vale também como atestado de burrice.

– Precisamos fugir das limitações. Hoje, ir ao cinema deixou de significar ‘ir àquela sala escura’. Não se pode mais fazer arte como antigamente. Não tem por quê. Eu, por exemplo, faço filmes para redes tão diversas como celular e Second Life.

notv_peter_greenaway_61011Oliver Stone, Martin Scorsese: “hahaha”

Na performance de terça, integrada ao projeto Multiplicidade, sob curadoria de Batman Zavareze, Greenaway conta a vida do escritor e projetista Tulse Luper – nascido em 1911 e desaparecido em 1989, depois do vaivém em prisões – com a ajuda de uma interface touch screen de alta definição. O multiartista cria uma modalidade imersiva e eletrônica de cinema, que manda a linearidade às favas. Embora pareça um tanto experimental demais, a apresentação costuma atrair mais do que alguns gatos pingados.

– Estive em toda sorte de lugares com Tulse Luper. Discotecas, praias, casas de ópera… Só em Moscou, foram 8 mil pessoas. Todo mundo parece achar a experiência fantástica.

A edição da narrativa, avisa, é feita na hora e varia de lugar para lugar. Só assim os limites físicos da telona poderão ser página e frame virados na história da sétima arte. Esse filme você, literalmente, ainda não viu. Nem vai poder ver de novo.

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